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When Lightning Flashes Over the Sea

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Eva Neymann.

When Lightning Flashes Over the Sea, uma coprodução entre Alemanha e Ucrânia dirigida pela cineasta Eva Neymann, parte de uma compreensão fundamental – e talvez essencial – do cinema: a de que as pessoas são, em si mesmas, fascinantes. A simples presença de um rosto preenchendo a tela já constitui uma narrativa; cada ruga, cada microexpressão, cada traço físico carrega consigo uma história. E o filme de Neymann abraça essa premissa com uma sensibilidade notável, encontrando momentos de profunda humanidade na observação do cotidiano.

Para alcançar este objetivo, a diretora emprega estratégias visuais variadas. Há, por exemplo, passagens no documentário em que a câmera captura indivíduos que aparentemente desconhecem estar sendo registrados: uma senhora tomando café na sacada enquanto observa o trânsito; um casal idoso em uma praça; uma mãe flagrada pela janela enquanto carrega e canta para seu bebê. São instantes como esses (entre outros que virão) que comovem pela simples manifestação da humanidade em sua forma mais pura; ver a vida vivida na tela, registrada por um olhar sensível, é, por si só, tocante e fascinante – algo que sempre remete ao trabalho do mestre Eduardo Coutinho, o maior documentarista da história do gênero, que compreendia perfeitamente a potência narrativa contida no retrato de pessoas comuns. Ou “comuns”, pois todos são especiais de algum modo.

Sem se preocupar em estruturar seu filme em torno de narrativas convencionais com começo, meio e fim, Neymann direciona sua câmera para diferentes indivíduos, detendo-se brevemente em cada um deles e capturando fragmentos de suas vidas. Nesses recortes, as pessoas falam sobre o passado ou simplesmente vivem seu presente cotidiano: a sequência inicial, por exemplo, acompanha um menino pelas ruas de Odessa utilizando uma teleobjetiva que o observa à distância - e a montagem, através de cortes secos, sugere um registro extenso do qual foram extraídos momentos pontuais: o menino caminha, brinca, interage brevemente com outros. No início, sem conhecer a proposta do filme, o espectador pode ser levado a crer que a história será centrada no garoto, questionando sua origem e seu destino à medida que algumas informações tangenciais se tornam evidentes (ele parece morar em um abrigo) e o simples fato de vagar sozinho pela cidade sugere uma vida instável. Porém, o foco da documentarista não reside aí; o que interessa é a pura existência daquele menino.

E assim o filme prossegue, saltando de um personagem a outro e adaptando seu estilo a cada um: em determinado momento, a câmera, antes distante e móvel, torna-se fixa e estática dentro da cozinha de um restaurante, observando a cozinheira ao longo de um dia enquanto a mudança na luz indica a passagem do tempo e a mulher cozinha e fala sobre os mais variados assuntos – a saudade do filho, o passado, frustrações, sonhos –, que são novamente apresentados através de cortes secos que nos levam de um tema a outro. Em seguida, o foco se desloca para uma senhora idosa que vive sozinha, cercada apenas por dúzias de gatos: ela relata a perda do filho e do marido, e em meio à sua história, surgem momentos de uma poesia inesperada, como o fato de, apesar de sua visão extremamente debilitada (ela é praticamente cega), ela enxergar perfeitamente em seus sonhos.

Fica claro, portanto, que este não é um filme de trama e talvez nem mesmo um filme de tema: se em Edifício Master (para voltar ao mestre Coutinho) a âncora era o próprio edifício, aqui é a cidade de Odessa que surge como único denominador comum. Evitando a editorialização explícita (embora a escolha do que mostrar e do que cortar seja, em si, um ato editorial), Neymann evita uma condução premeditada das reflexões de seus retratados; aquelas pessoas falam o que consideram importante (ao menos naquele instante), evidenciando a intimidade e o conforto estabelecidos com a cineasta através da própria fluidez de seus monólogos. Essa confiança é palpável, por exemplo, em uma sequência particularmente doce com outra senhora idosa: enquanto fala sobre o passado (novamente com cortes secos indicando a longa duração da conversa), ela se acomoda em um sofá, deita a cabeça em um travesseiro e continua a divagar, até que, naturalmente, adormece. E o simples ato de observar essa transição – da fala à sonolência e ao sono – é belo e tocante.

Evidentemente, o fato de o filme ser rodado em Odessa, na Ucrânia, traz camadas adicionais de significado no contexto atual (e embora um conhecimento prévio sobre a história política da cidade possa enriquecer a leitura, ele não é estritamente necessário); a simples consciência da guerra e do sofrimento que assola o país hoje já confere às imagens um subtexto político e histórico poderoso. Quando vemos ruínas ou quando a câmera, observando um prédio à noite, capta o som de sirenes de alerta para um possível ataque aéreo, a tensão subjacente se torna óbvia - mas mesmo em meio a essa realidade opressiva, Neymann registra a persistência da natureza humana ao filmar uma festa de casamento. A vida continua, a humanidade persevera e as pessoas encontram formas de celebrar e sorrir mesmo sob constante medo e tensão.

Já em outra sequência marcante, um senhor bastante idoso relembra as pessoas que conheceu e que já morreram, mas também o nascimento de seus filhos gêmeos. Com uma saúde visivelmente frágil e a respiração difícil, ele fala da mãe – e, ao fazê-lo, evoca uma reflexão sobre a percepção do tempo e da idade: tendemos a ver as pessoas idosas como se sempre tivessem sido assim, congeladas naquela fase da vida, esquecendo que tiveram juventude, infância, que tiveram mães. Para elas, no entanto, o passado – o nascimento dos filhos, o cuidado materno – parece ter acontecido ontem; aquele velhinho foi, em primeiro lugar, um filho, uma criança; se sua mãe pode parecer estar num passado muito distante para quem o vê hoje, para ele a mãe é uma lembrança tão presente quanto seu mais recente aniversário. A vida, percebemos através de seu relato e de sua própria presença, passa com uma rapidez estonteante: em um estalo, décadas se foram e memórias de infância coexistem com a realidade presente dos filhos adultos, dos netos, da própria finitude que se aproxima.

Em sua trajetória completa, a vida (se tivermos a sorte de vivê-la por muito tempo) inevitavelmente termina em um anticlímax, na perda gradual daqueles que amamos e que nos acompanharam ao longo das décadas. E é justamente depois desse mergulho melancólico (e lindo) na natureza de nossas existências que Eva Neymann insere um plano final de uma beleza imensa, quando aquele mesmo senhorzinho, após compartilhar suas memórias e dores, olha diretamente para a câmera e oferece um pequeno sorriso. Esse sorriso, singelo e inesperado, torna-se a síntese do filme: um gesto de carinho profundo pelas pessoas retratadas e pela própria trajetória humana, com todas as suas dores, alegrias e, claro, sua perseverança.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025

20 de Fevereiro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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