Conversa de Cinéfilo 82 - Oscar 2017: Previsões Finais

Amigos do Cinema em Cena,

há muito tempo não vivíamos uma temporada de Oscar tão previsível. Desde o princípio, La La Land, Mahershala Ali e Viola Davis estiveram na ponta de todas as premiações consideradas como termômetros da Academia (DGA, SAG, WGA, etc – escrevi um pouco sobre como antecipar os vencedores no início do ano). A última possibilidade de que algo pudesse sacudir a corrida, aliás, deixou de existir no final de janeiro, quando o PGA, que adota o mesmo sistema de voto preferencial do Oscar, também elegeu o longa de Damien Chazelle como o melhor do ano. Uma surpresa ainda pode ocorrer? Sempre pode, claro. Mas seria uma daquelas para entrar para a História.

(Para entender o sistema de voto preferencial, leia este artigo que escrevi para o Submarino há dois anos.)

Dito isso, vamos às previsões.

Filme

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Venceu todos os principais prêmios, incluindo o PGA. Nas últimas semanas, começou a enfrentar um certo backlash – algo normal em qualquer corrida dominada por um filme do início ao fim -, mas não forte o bastante para que questionemos seu favoritismo. Para completar, o filme que tem o maior número de indicações tende a ser beneficiado e, neste caso, La La Land conta com a vantagem de ser recordista em indicações ao lado de Titanic e A Malvada (e ambos venceram o prêmio principal).

Qual seria meu voto: A Chegada.

Surpresa que me agradaria: Moonlight.

 

Diretor 

Vai vencer: Damien Chazelle (se isto se confirmar, será o vencedor mais jovem da História da categoria).

Explicando a escolha: Tornou-se o queridinho de Hollywood ao fazer um filme sobre... Hollywood. Além disso, se comportou exatamente como deveria durante a temporada, participando ativamente da campanha montada para o filme: compareceu a sessões especiais, foi às festas promovidas pelo estúdio, apertou as mãos de todo mundo e fez discursos corretos quando venceu outros troféus – incluindo o mais importante em termos de previsão desta categoria (o DGA).

Qual seria meu voto: Denis Villeneuve, por A Chegada.

Surpresa que não me desagradaria: Barry Jenkins, por Moonlight.

 

 

Ator 

Vai vencer: Casey Affleck.

Explicando a escolha: Esta é uma categoria que acabou se tornando surpreendentemente mais disputada em sua reta final. Até o SAG, conferido pelo sindicato dos atores, Casey Affleck vinha colecionando troféus – e foi aí que Denzel Washington começou a ganhar terreno, levando o SAG e passando a encabeçar várias listas. Há também o processo por abuso sexual enfrentado por Affleck há alguns anos e que criou uma contracorrente em sua jornada. A Academia vai optar por ignorar as questões pessoais do ator (lembrem-se: Mel Gibson foi indicado este ano)? Washington, como um veterano respeitado na indústria e que aqui dirigiu a própria performance, atrairá os votos daqueles que não acham que Affleck mereça vencer (por qualquer motivo)? Será que os dois podem dividir os votos e favorecer um terceiro candidato como Viggo Mortensen? Eu diria que, neste momento, as chances de cada um são 45-45-10. Porém, somando todos os prêmios acumulados até agora, Affleck ainda seria a aposta mais lógica.

Qual seria meu voto: Viggo Mortensen.

 

Atriz

Vai vencer: Emma Stone.  

Explicando a escolha: A lógica é a mesma de Affleck: venceu prêmios precursores importantíssimos, superando aquela que, no início da temporada, todos julgavam como a vencedora inevitável (Natalie Portman). É claro que Isabelle Huppert conta com a admiração dos atores, que, afinal, compõem o maior braço da Academia (com quase 1.200 de seus 6.500 membros), mas e quanto aos outros votantes? Sim, há precedentes como Marion Cotillard, mas Huppert não foi tão presente nesta temporada quanto sua conterrânea foi na época de Piaf: Um Hino ao Amor (e aquele filme tampouco era tão controverso quanto Elle).

Qual seria meu voto: Ruth Negga, por Loving.

Surpresa que não me desagradaria: Isabelle Huppert.

 

Atriz Coadjuvante 

Vai vencer: Viola Davis.

Explicando a escolha: A aposta mais segura deste ano. Se eu tivesse dez milhões sobrando, colocaria tudo nesta categoria.

Qual seria meu voto: Michelle Williams, que, com uma participação mínima em Manchester à Beira-Mar, evoca emoções complexas e intensas. Além disso, estas fraudes nas categorias do Oscar me irritam imensamente – e, assim como Alicia Vikander no ano passado (por A Garota Dinamarquesa), Davis deveria ser indicada como Melhor Atriz, não como coadjuvante. Isto é injusto com suas concorrentes, por melhor que ela seja e por mais brilhante que esteja em Fences (e ela é e está).

Surpresa que não me desagradaria: Naomie Harris, por Moonlight.

 

Ator Coadjuvante 

Vai vencer: Mahershala Ali.

Explicando a escolha: Venceu tudo, fez discursos emocionantes e sua vitória seria politicamente importante (não só por pertencer a uma minoria, mas por ser muçulmano).

Qual seria meu voto: Mahershala Ali.

Surpresa que não me desagradaria: Jeff Bridges ou Michael Shannon.

Se vencer, eu mato um: Dev Patel, que é um bom ator, mas enfraquece terrivelmente Lion assim que toma conta do filme.

 

 

Roteiro Adaptado 

Vai vencer: Moonlight.

Explicando a escolha: Venceu o WGA, mas por Roteiro Original. Como as regras da Academia para definir uma obra como adaptação são arbitrárias, acabou mudando de categoria aqui e tomando o lugar de A Chegada como favorito. Aliás, o único concorrente real de La La Land este ano é Moonlight e isto também aumenta suas chances aqui.

Qual seria meu voto: A Chegada.

Se vencer, eu mato um: Qualquer um que não seja A Chegada.

 

Roteiro Original 

Vai vencer: Manchester à Beira-Mar.

Explicando a escolha: Antes de ser respeitado como diretor, Kenneth Lonergan já era reconhecido por seu talento como dramaturgo e roteirista. Manchester à Beira-Mar é um filme com muitos fãs, mas poucas possibilidades reais de prêmios – o que o ajuda aqui. É claro que se La La Land fizer uma lavada nas outras categorias, o efeito manada poderá beneficiá-lo aqui, mas esta é sua categoria menos forte na disputa.

Qual seria meu voto: O Lagosta.

Surpresa que não me desagradaria: A Qualquer Custo.

Se vencer, eu mato um: La La Land.

 

Filme Estrangeiro 

Vai vencer: O Apartamento.

Explicando a escolha: Toni Erdmann era o favorito até um certo sr. Trump decidir banir os muçulmanos dos Estados Unidos. O Apartamento é o mais irregular dos filmes do gênio Asghar Farhadi (que já tem um Oscar), mas tornou-se o mais importante graças à época da premiação – e isto conta muito.

Qual seria meu voto: Toni Erdmann.

 

Animação 

Vai vencer: Zootopia.

Explicando a escolha: Dominou a temporada, incluindo os Annie Awards (a premiação voltada apenas para animações). E traz uma história politicamente relevante, de inclusão social.

Qual seria meu voto e surpresa possível: A Tartaruga Vermelha.

 

Fotografia 

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Greig Fraser venceu o prêmio da categoria há apenas algumas semanas, mas três fatores o prejudicam no Oscar: o troféu da ASC é péssimo em antecipar a escolha da Academia; Lion não é um filme tão querido quanto La La Land e a lavada que este último tende a protagonizar praticamente exige a categoria de Fotografia.

Qual seria meu voto: Moonlight.

Se vencer, eu mato um: Lion.

 

Design de Produção

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Depois de Viola Davis como coadjuvante, esta é a aposta mais segura, já que La La Land é um filme construído a partir de seu visual. Claro que A Chegada poderia se beneficiar aqui com os votos de consolação, já que tende a sair de mãos abanando, mas... não, não acredito nisso.

Qual seria meu voto: A Chegada.

Surpresa que não me desagradaria: Ave, César!.

Se vencer, eu mato um: Passageiros.

 

Figurino 

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Aqui há uma corrida real. Sim, La La Land, como falei acima, se beneficia por depender muito de seu visual e também pelo fator “lavada”, mas Jackie venceu diversos prêmios importantes e, assim como A Chegada em Design de Produção, tem aqui uma de suas pouquíssimas chances reais de ganhar alguma coisa. Estou realmente dividido aqui: o bom senso me leva a apostar em La La Land levando tudo, já que é o favorito a tudo; o histórico da temporada me dirige a Jackie. Peraí, vou jogar uma moeda para cima. Droga, caiu em pé. Vou chutar, então.

Qual seria meu voto: Jackie.

 

Montagem 

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Se um musical quer levar prêmio de Melhor Filme, tem que levar também Montagem. Foi assim com Chicago, A Noviça Rebelde, Amor Sublime Amor e Gigi, por exemplo. (Ok, mas não com My Fair Lady ou Oliver!.) Além disso, La La Land levou o prêmio do sindicato da categoria (ACE) como Comédia. A Chegada levou como Drama, mas não tem muitas chances no Oscar, ou seja...

Qual seria meu voto: A Chegada.

Surpresa que não me desagradaria: Até o Último Homem.

Se vencer, eu mato um: Esse ano eu estou muito bonzinho, né? Não estou revoltado com ninguém, embora insista em dizer que La La Land é um dos filmes mais superestimados dos últimos 30 anos.

 

Maquiagem 

Vai vencer: Star Trek: Beyond.

Explicando a escolha: Há apenas três candidatos e, de cara, não posso acreditar que a Academia tenha o desejo de permitir que Esquadrão Suicida possa exibir em seu currículo a frase “Vencedor do Oscar”. Já Um Homem Chamado Ove provavelmente não foi visto pela maior parte dos membros (se vencesse, seria um exemplo da Academia pensando fora da caixinha).   

Qual seria meu voto: Eu também não vi Um Homem Chamado Ove, então me absteria.

Se vencer, eu mato quinze: Esquadrão Suicida.

 

Trilha Sonora 

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Não era para haver qualquer sombra de dúvida aqui: o trabalho de Mica Levi em Jackie é o mais ambicioso, corajoso e inovador do ano. Mas como você confere uma penca de prêmios a um musical sem reconhecer sua trilha sonora?

Qual seria meu voto: Jackie.

Se vencer, eu mato um: Qualquer um que não seja Jackie. O que é algo estranho de se dizer considerando o tema do filme.

 

Canção Original 

Vai vencer: City of Stars, de La La Land.

Explicando a escolha: De novo: como premiar um musical sem reconhecer suas músicas? E “City of Stars”, que não só é o carro-chefe de La La Land, mas também a síntese perfeita de como o filme é superestimado. Porque ô musiquinha chata da porra.

Qual seria meu voto: “How Far I’ll Go”, de Moana.

Surpresa possível: Em teoria, as duas músicas de La La Land poderiam dividir votos, o que, somado ao fenômeno Lin-Manuel Miranda, poderia beneficiar Moana. Em teoria.

Se vencer, eu mato um: Digamos apenas que eu terei que matar um.

 

Som 

Vai vencer: La La Land.

Explicando a escolha: Esta é uma categoria na qual os musicais sempre são favoritos, mesmo que não o sejam no restante das categorias. E como La La Land é...

Qual seria meu voto: A Chegada.

 

Edição de Som 

Vai vencer: Até o Último Homem.

Explicando a escolha: Esta é uma categoria com ao menos dois concorrentes formidáveis: A Chegada e Até o Último Homem. É claro que a ignorância a respeito do que está envolvido na Edição de Som pode favorecer La La Land – e é bom lembrar que, embora os indicados sejam escolhidos apenas pelos membros de cada braço da Academia, os vencedores são determinados por todos, mesmo por aqueles que não fazem ideia do que categorias muito técnicas fazem. Em contrapartida, de um ponto de vista puramente histórico, filmes de guerra tendem a se sair muitíssimo bem aqui.

Qual seria meu voto: A Chegada.

Se vencer, eu mato um: La La Land.

 

Efeitos Visuais 

Vai vencer: Mogli: O Menino Lobo.

Explicando a escolha: A terceira aposta mais segura da noite.

Qual seria meu voto: Rogue One.

Surpresa que me agradaria: Kubo e as Cordas Mágicas.

Se vencer, eu mato um: La La Land. Hein? Não está competindo nesta categoria? Tem certeza? Então tá bom.

 

Documentário 

Vai vencer: O.J.: Made in America.

Explicando a escolha: Cantei essa pedra no instante em que saí do cinema, no festival de Tribeca de 2016, depois de uma sessão de nove horas desta obra-prima. E nada me fez mudar de ideia a respeito de suas chances.

Qual seria meu voto: O.J: Made in America.

Se vencer, eu mato um: Gosto de todos os indicados, mas este prêmio pertence a O.J.: Made in America. Ou ele vence ou eu farei por merecer um Pablito: Made in Brazil.

 

Curta Live Action 

Vai vencer: Ennemis Interieurs.

Explicando a escolha: Basicamente, porque tem sido o mais falado dos cinco.

Qual seria meu voto: Vi apenas três dos curtas e não votaria.  

 

Curta Documentário 

Vai vencer: White Helmets

Explicando a escolha: Esta é uma disputa entre três filmes: White Helmets, Joe’s Violin e Extremis. Este último é prejudicado por tratar de um assunto que os membros da Academia, com uma idade média mais elevada, podem julgar desagradável, ao passo que o segundo aborda um tema que o Oscar ama premiar (Holocausto). Mas White Helmets tem uma relevância política maior, lida com questões atuais e também conta com o mesmo fator que beneficia O Apartamento: o fato de o sr. Trump ter impedido que os heróis vistos no documentário compareçam à premiação.

Qual seria meu voto: White Helmets.

 

Curta Animação 

Vai vencer: Piper.

Explicando a escolha: É da Pixar e foi o mais visto dos cinco (por passar antes de Procurando Dory).

Qual seria meu voto: Só vi dois dos indicados e não votaria.

 

Um grande abraço e bom Oscar!

23 de Fevereiro de 2017

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Pablo Villaça Colunista

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.