Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Bela e a Fera
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
16/03/2017 18/03/2017
Distribuidora
Disney

 

 


A Bela e a Fera
Beauty and the Beast

A Bela e a Fera

Dirigido por Bill Condon. Roteiro de Stephen Chbosky e Evan Spilliotopoulos. Com: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Hattie Morahan, Nathan Mack, Audra McDonald, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw, Adrian Schiller, Ewan McGregor, Ian McKellen e Emma Thompson.

Quando Tim Burton realizou sua versão de Alice no País das Maravilhas, em 2010, dificilmente poderia imaginar estar abrindo uma nova e bilionária porta para a Disney, que descobriu, com o sucesso daquele projeto, uma mina de ouro na recriação de suas animações com atores de carne-e-osso e muitos efeitos digitais, o que gerou Malévola, Cinderela e Mogli: O Menino Lobo (sim, Os 101 Dálmatas alcançou excelente bilheteria em 1996, mas nada que sugerisse o potencial escancarado por Alice). No entanto, se a motivação do estúdio é puramente financeira, isto não é necessariamente refletido nas ambições criativas dos artistas envolvidos - e, assim, as perguntas no caso deste A Bela e a Fera são: trata-se de uma reimaginação ou de uma refilmagem injustificável como a de Psicose? Há alguma razão para sua existência além da valorização das ações da Disney?

A boa notícia é que sim, há.

Obviamente adotando como base a animação de 1991 (a primeira a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme), que, por sua vez, inspirava-se na fábula criada no século 18 (e que também gerou o clássico dirigido por Jean Cocteau em 1946), esta nova produção conta mais uma vez a história da jovem Bela (Watson), que mora com o pai Maurice (Kline) em Villeneuve, um pequeno vilarejo francês cujo nome é uma clara homenagem a Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, que originou a trama em 1740. Encarada pelos demais habitantes com estranheza por ser fascinada por leitura, a moça é constantemente abordada pelo narcisista Gaston (Evans), que insiste em pedi-la em casamento apesar das repetidas negativas. É então que Maurice é aprisionado em um castelo povoado por objetos falantes e por um monstro de aparência assustadora – todos vítimas de um feitiço que só será quebrado quando a Fera (Stevens) se apaixonar por alguém e tiver seu amor correspondido, o que se torna uma possibilidade quando Bela assume o lugar do pai como prisioneira da criatura.

Em termos de estrutura e trama básicas, o roteiro de Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível) e Evan Spilliotopoulos (Hércules) pouco mais é do que uma versão estendida do filme de 1991, trazendo versos e cenas adicionais que pouco acrescentam ao que já conhecíamos – e, em alguns casos, a natureza de “cenas deletadas” (ou seja: descartáveis) surge quando percebemos como algumas destas novas passagens apenas enfraquecem a narrativa, falhando em provocar o efeito que os realizadores desejavam (e destaco, aqui, as revelações sobre as mães da Bela e da Fera, que buscam criar um paralelo tolo e dispensável entre os dois). Para piorar, as novas canções são terrivelmente inferiores àquelas que já estavam na animação (“Days in the Sun” é particularmente ruim), comprometendo a consistência da trilha.

E se o design de produção impressiona com os cenários grandiosos, os figurinos imponentes e a paleta multicolorida, torna-se difícil não constatar como a maior parte destes elementos também vem diretamente do original – e quando o vestido do baile começa a ser costurado, o filme explora a expectativa criada pelo fato de que o espectador já sabe o que verá, reconhecendo aquela peça de roupa não como um mero componente da cena, mas como um ícone em torno do qual esta gira. Além disso, o cineasta Bill Condon praticamente recria planos idênticos àqueles concebidos pelos diretores Gary Trousdale e Kirk Wise em 91, o que é compreensível, mas também frustrante por representar um desperdício de novas possibilidades criativas. Como se não bastasse, Condon se mostra incompetente nas sequências de ação, que resultam confusas e sem qualquer tensão (notem, por exemplo, a passagem que traz Maurice sendo atacado por lobos e percebam como dois momentos-chave – sua queda do cavalo e o retorno deste para salvá-lo – são conduzidos de forma caótica, impedindo que acompanhemos o que está ocorrendo).

Por outro lado, a experiência de Condon com musicais (no Cinema, roteirizou Chicago e dirigiu Dreamgirls; na Broadway, conduziu uma versão de Side Show) acaba beneficiando A Bela e a Fera, já que os números envolvendo canções e danças elaboradas são concebidos de forma imaginativa e divertida, brincando com padrões formados por objetos e cores, empregando a câmera ativamente na coreografia e incluindo referências orgânicas a clássicos como Rua 42, Cantando na Chuva, Amor Sublime Amor, Moulin Rouge! e A Noviça Rebelde (e “Be Our Guest” merece destaque em todos estes aspectos). Aliás, a eficiência do diretor nestas sequências é tamanha que até me vejo movido a perdoá-lo pelo excesso de movimentação de câmera no restante da projeção (e “excesso”, acreditem, é um eufemismo neste caso).

Porém, como não poderia deixar de ser, o sucesso de um longa como A Bela e a Fera reside em sua capacidade de levar o espectador a se importar com seu casal principal – algo que sem dúvida ocorre aqui. Neste sentido, a expressividade da criatura vivida por Dan Stevens é fundamental, combinando a performance do ator e a maquiagem digital usada para transformá-lo no monstro-título. E se Emma Watson exibe uma velha tendência ao overacting em várias cenas (algo que apontei já em Harry Potter e o Cálice de Fogo), é também carismática o bastante para ancorar a narrativa. Enquanto isso, Kevin Kline transforma Maurice em algo mais do que a caricatura vista na animação, ao passo que Luke Evans é inteligente ao compreender que Gaston só funciona como uma. Para encerrar, o trabalho vocal do elenco coadjuvante composto por estrelas é irrepreensível: McGregor confere vivacidade a Lumière, McKellen explora bem a covardia de Cogsworth e Thompson não se intimida diante da tarefa de assumir a responsabilidade por tomar o lugar de ninguém menos do que Angela Lansbury e cantar a música-símbolo do projeto. (Apesar disso, nem sempre o design de seus personagens é bem transportado para o universo live-action: se Lumière funciona bem como uma escultura metálica, os olhos e a boca da Sra. Potts e do pequeno Chip, agora pintados na lateral das xícaras em vez de usar suas asas como nariz, causam estranhamento em vez de resultarem engraçadinhos.)

A maior novidade deste A Bela e a Fera, contudo, é seu belo esforço para atualizar alguns dos elementos da história: se Bela já era uma leitora voraz e se contrapunha ao anti-intelectualismo de Gaston, agora é também uma jovem inventora, criando uma máquina de lavar movida a cavalo para poder ter tempo para os livros. Além disso, há uma diversidade considerável em seu vilarejo e entre os empregados do castelo, incluindo não só vários casais multirraciais, mas até mesmo com diferentes orientações sexuais – e ainda que o LeFou de Josh Gad seja, na maior parte do tempo, uma variação do “gay como alívio cômico”, o filme demonstra coragem também em uma breve cena que traz a madame Garderobe (McDonald) cobrindo três capangas com roupas femininas para embaraçá-los, mas acabando por acidentalmente libertar um deles para quem realmente é (o que funciona ao mesmo tempo como gag e como mensagem com viés positivo).

E, sim, é claro que isto cabe numa fábula. Não, mais do que isso: é fundamental neste tipo de narrativa, que, afinal, tem o propósito justamente de refletir a realidade através de paralelos com seu mundo e seus personagens fantasiosos. Não que A Bela e a Fera empregue a homossexualidade destes dois personagens de forma escancarada, já que apenas o público mais velho perceberá o que está ocorrendo (os mais jovens verão aquilo como veriam uma piada envolvendo o Pernalonga vestido de mulher para enganar um caçador), mas já é um avanço considerável.

No entanto, apenas o fato de haver pessoas dispostas a condenar o filme por isto (sem nem mesmo tê-lo visto) já é o bastante para despertar curiosidade: em primeiro lugar, como justificam aceitar uma trama que essencialmente envolve bestialidade, mas não qualquer sugestão de amor entre dois seres humanos que dividem a mesma identificação sexual? E por que não veem problema em cantar as lindas músicas co-criadas por Howard Ashman, gay assumido, se não aguentam sequer ver alguém com sua orientação sexual representado na tela?

Não, A Bela e a Fera não ergue uma bandeira LGBTQ ou desfila na Parada Gay, mas se a mera presença de dois personagens (quase imperceptivelmente) homossexuais te incomoda tanto, acho que é hora de um autoquestionamento severo. Pois se até mesmo produções infantis parecem aceitar algo que você não consegue, é porque a História e a Sociedade caminharam e você ficou mesmo para trás. Hora de acelerar o passo.

Sinta-se livre para cantar “Beauty and the Beast” enquanto corre.

18 de Março de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.