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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
12/02/2015 13/02/2015 1 / 5 1 / 5
Distribuidora
Universal

Cinquenta Tons de Cinza
Fifty Shades of Grey

Dirigido por Sam Taylor-Johnson. Roteiro de Kelly Marcel. Com: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Luke Grimes, Marcia Gay Harden.

Não é difícil encontrar, em Cinquenta Tons de Cinza, as evidências de sua origem como fan fiction inspirada pela série Crepúsculo: estão lá a protagonista com baixa autoestima e com tendência autodestrutiva; o homem que a ama e rejeita com a mesma frequência e por quem ela se anula; e, claro, até mesmo o antigo amigo que (pertencente a uma minoria étnica) se mostra secretamente apaixonado por ela. A diferença – e a prova do mal causado pela trama protagonizada por Bella e Edward – é que a escrita E.L. James demonstra ter absorvido bem as lições sexistas ensinadas por sua fonte de inspiração, elevando-as à enésima potência. Assim, perto deste filme, Crepúsculo soa como um manifesto feminista e Stephenie Myer se transforma em Betty Friedan.

Adaptado pela roteirista Kelly Marcel, Cinquenta Tons de Cinza nos apresenta à jovem Anastasia Steele (Johnson), uma estudante de literatura que, atendendo a um pedido da colega doente, aceita fazer uma breve entrevista com o ricaço Christian Grey (Dornan). Imediatamente romantizando as falas mais egoístas do sujeito (“Seu coração é maior do que deixa transparecer”, ela diz dez segundos depois de conhecê-lo.), a moça logo se vê atraída pelo rapaz, que, mesmo demonstrando também se interessar por ela, não demora a sugerir ter um “segredo” que a afastaria. Sangue vampiro? Não. Fetiche por práticas BDSM (popularmente conhecido como “sadomasoquismo”, embora seja mais amplo do que isso).

Aliás, aí reside um dos grandes problemas do filme (e, suponho, do livro, que não li – uma decisão que me parece cada vez mais acertada): confundir fetiche com abuso. Ao contrário do ótimo Secretária (que trazia James Spader vivendo um advogado chamado Grey – uma coincidência grande demais para ser coincidência), cuja relação BDSM era obviamente consensual e trazia prazer a ambos os parceiros, o que vemos aqui é um tratamento conservador e amedrontado do fetiche, que é encarado pelo próprio Christian como algo “errado” que merece ser escondido e repudiado. O mais grave, porém, é perceber como Anastasia fica claramente desconfortável em seus “encontros” com o parceiro, obviamente aceitando as “punições” como uma medida desesperada para ficar ao seu lado. O sexo retratado pelo longa, vale apontar, nada tem de sensual, mostrando-se mecânico, estéril e deixando evidente que, na maior parte do tempo, é Grey quem se diverte sozinho, o que comprova que, mesmo escrito por uma mulher, Cinquenta Tons de Cinza nada mais é do que uma triste fantasia machista.

Considerando sua origem, isto se torna lógico: assim como Bella Swan, Anastasia é uma garota que parece achar um incrível privilégio ser escolhida por um macho “alfa” (“Não há muito a saber sobre mim”, ela diz quando Christian se mostra interessado). Surgindo num suéter azul nada atraente que cobre uma blusa florida igualmente feia, a moça se deslumbra diante do homem bem vestido cujos bens se encontram no extremo oposto de seu velho fusca. Neste sentido, poder “vampírico” de Grey é ser rico – e sua relação com a protagonista é doentia não só por seus aspectos físicos, mas principalmente emocionais e psicológicos, já que ela parece buscar, nele, uma validação sobre seu próprio valor, o que a leva a diversos sacrifícios enquanto ela a trata simplesmente como uma propriedade (“Você é minha” e “Agora não pode fugir” são algumas das frases “românticas” que ele diz e que deveriam disparar todos os alarmes em uma mulher psicologicamente estável). Ah, e eu mencionei que, assim como Edward Cullen, ele tem o hábito de stalkear a garota, surgindo sem aviso em qualquer lugar no qual ela se encontre?

Ainda assim, ao menos Christian é coerente em seu comportamento: demonstrando o revelador hábito de colocar seu nome sobre tudo que possui, de um helicóptero a edifícios, passando por um mero lápis, ele encara Anastasia como algo a ser adquirido – e não é à toa que, sempre que a vê se afastar, ele a aborda com um caro presente que ela, num sinal igualmente negativo, invariavelmente diz não poder aceitar segundos antes de aceitá-los alegremente. Isto, claro, não é desculpa para o comportamento vil do sujeito, que, em certo momento, leva uma alcoolizada Anastasia para seu hotel e tira sua roupa, alegando que não havia outra alternativa – uma desculpa que o filme e a garota aceitam sem mencionar que, quando desmaiou, ela estava numa festa na qual sua melhor amiga (e colega de quarto!) se encontrava.

“Ah, mas ele tem um passado trágico e traumático!”, o longa parece dizer, numa justificativa pobre, como se isto desse ao bilionário carta branca para abusar da jovem – um abuso que se encaixa num padrão revelador quando percebemos que todas as suas funcionárias são jovens e bonitas, denotando o prazer que ele tem de ser servido pelo sexo feminino quase numa afirmação de seu poder sobre as mulheres de modo geral (uma forma de puni-las pelo trauma sofrido por ele?). Seja como for, o comportamento sexual exibido por Grey é indubitavelmente egoísta, não servindo nem mesmo para gerar sequências minimamente interessantes do ponto de vista cinematográficos (basta compará-las às de 9 ½ Semanas de Amor, que, lançado há quase 30 anos, também trazia um amante cujo sobrenome era Gray).

No entanto, questões morais à parte, o fato é que Cinquenta Tons de Cinza é simplesmente um filme muito ruim: sua narrativa, aderindo à dinâmica de Crepúsculo, basicamente consiste de uma lógica do tipo “Fique longe de mim, venha cá pois te amo, mas se afaste já que posso te machucar, embora eu não consiga resistir então volte, agora vá, quero morder seus lábios, mas não vou tocá-la, vem cá, tchau, te amo, adeus!”. Com isso, durante a projeção somos forçados a testemunhar sequências de conversa entediante seguidas por outras envolvendo sexo ruim que, por sua vez, dão lugar a mais discussões aborrecidas. Como se não bastasse, o casal principal é absurdamente chato: Christian é um sujeito egoísta e repugnante que se limita a dizer “Eu sou assim” e a insistir para que Anastasia “mantenha a mente aberta” enquanto se esquece de completar “... porque eu não vou abrir a minha”, ao passo que a moça é retratada como um clichê machista da garota virgem e, portanto, pura e inocente. (E depois da primeira transa, não é surpresa vê-la abraçar de vez a condição de mulher da década de 50 ao cozinhar para o amado.)

Óbvio em sua abordagem visual, que começa com um plano em ângulo baixo que trata a torre Grey como uma ereção diante da qual Anastasia se coloca admirada até chegar ao plano-detalhe no qual a moça morde um lápis que traz o nome do sujeito (sou capaz de apostar que ele também traz o próprio nome tatuado no pênis), Cinquenta Tons de Cinza ainda é cafona a ponto de incluir um movimento de câmera que vai do casal transando a um quadro que traz ondas revoltas até chegar a um espelho no teto.

Nada, porém, que se compare ao instante em que Christian, num diálogo que deixaria até Edward envergonhado por sua estupidez, diz para Anastasia: “Eu não faço amor. Eu fodo. Com força.”.

Faltou apenas a vinheta do Sexytime do canal Multishow. Cujas produções softcore, pensando bem, são melhores do que esta porcaria que deveria provocar revolta em qualquer mulh... não... em qualquer ser humano minimamente sensato.

Que saudade de Crepúsculo.

12 de Fevereiro de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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