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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/03/2015 20/03/2015 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Paris

A Série Divergente: Insurgente
Insurgent

Dirigido por Robert Schwentke. Roteiro de Brian Duffield, Mark Bomback e Akiva Goldsman. Com: Shailene Woodley, Theo James, Kate Winslet, Miles Teller, Ansel Elgort, Octavia Spencer, Zoë Kravitz, Jai Courtney, Tony Goldwyn, Ashley Judd, Ray Stevenson, Maggie Q, Daniel Dae Kim e Naomi Watts.

Já estou chegando a um ponto no qual as distopias protagonizadas por jovens heróis e heroínas “escolhidos” para salvar suas nações estão começando a se misturar em minha mente em função das tramas, personagens e mesmo estéticas similares empregados nas várias franquias baseadas na literatura voltada para jovens adultos. Jogos Vorazes, O Doador de Memórias, Divergente, Os Instrumentos Mortais e Maze Runner, entre outros, podem até representar filmes díspares em qualidade e detalhes temáticos, mas é difícil negar que, em maior ou menor grau, todos buscam emular a série Harry Potter até mesmo no que tinha de pior: a ideia irritante de dividir o último livro em duas partes para explorar mais seu potencial nas bilheterias (e digo isso mesmo tendo gostado das duas partes finais daquele projeto). Sim, comparar a Katniss Everdeen de Jogos Vorazes com a Tris Prior de Divergente pode soar injusto, já que a primeira protagonizou filmes bem melhores até agora, mas é também inevitável – principalmente se considerarmos que até obras falhas como O Doador de Memórias conseguiram ao menos criar uma lógica visual interessante, o que não ocorre aqui.


Adaptado pelo estreante Brian Duffield e pelos veteranos Mark Bomback e Akiva Goldsman (cujas carreiras trazem mais desastres do que bons resultados artísticos), este Insurgente começa exatamente a partir do ponto em que o anterior se encerrou, usando, para isso, um recurso de exposição até eficiente (um pronunciamento da implacável Jeanine, personagem de Kate Winslet). Reencontramos, então, a jovem divergente Tris (Woodley) e seus companheiros de fuga e revolução: o namorado Quatro (James), o irmão Caleb (Elgort) e o pé-no-saco Peter (Teller). Enquanto tentam evitar a captura, eles acabam encontrando uma líder revolucionária (Watts) e descobrem que Jeanine está tentando abrir uma caixa misteriosa que aparentemente traz uma mensagem dos fundadores daquela civilização pós-apocalíptica – uma tarefa que, claro, só pode ser executada por um divergente (hum... quem seria?, me pergunto).

O fato de esta heroína ser vivida por Shailene Woodley, uma atriz carismática e competente, é um consolo, mas nem mesmo seu talento consegue despistar a maneira unidimensional com que Tris é concebida pelo roteiro, que consegue, no máximo, criar um conflito óbvio envolvendo a dor que a garota experimenta por sentir-se culpada por tantas mortes. Ainda assim, Tris é um poço de complexidade se comparada ao aborrecido Quatro (vivido pelo aborrecido Theo James) e ao inexpressivo Caleb (vivido pelo inexpressivo Ansel Elgort). Sim, aqui e ali Kate Winslet surge apropriadamente fria e cruel, mas também frustrantemente caricatural – e é só mesmo quando Miles Teller aparece como Peter que o filme ganha alguma vida, já que, mesmo encarnando o tipo traiçoeiro que já esperamos de longas como este, o rapaz traz vitalidade às suas cenas.

E se o roteiro praticamente se limita a diálogos repletos de clichês sobre a “necessidade de se perdoar”, a direção frágil de Robert Schwentke mostra-se igualmente sem imaginação, concentrando-se em primeiros planos televisivos e demonstrando uma falta de cuidado assustadora com a lógica visual da narrativa – e depois de usar uma câmera área em plongé sobre uma floresta em uma sequência de sonho, o cineasta usa exatamente a mesma abordagem numa sequência que ocorre logo depois e é ambientada no mundo real, o que parece sugerir uma preguiça alarmante e mesmo pouco caso para com o espectador e o próprio projeto.

Além disso, a trama em si é recheada de momentos que não fazem o menor sentido: em certo instante, por exemplo, Quatro se envolve numa briga que poderia ter resultado em tragédia apenas para, depois, interrompê-la com uma informação que a teria evitado completamente. E por que diabos os “soldados” (na falta de termo melhor) de Jeanine insistem em obedecê-la mesmo quando já fica claro que as ordens desta não fazem o menor sentido? (Não revelarei, claro, por que não fazem sentido, mas você entenderão ao ver o filme.) Da mesma maneira, Schwentke escancara seu desmazelo como diretor numa cena em que a heroína, depois de tentar atirar em outra pessoa e ser frustrada por uma parede de vidro, vê um sujeito que estava ao seu lado ir até a sala adjacente em meio segundo e nem tenta segui-lo, permanecendo parada (e frustrada) em vez de dar alguns passos e disparar novamente sem obstáculo algum que a impeça.

Empregando qualquer desculpa para tentar incluir sequências de ação em um projeto repleto de falatório desinteressante, os roteiristas apelam não só para as já citadas cenas envolvendo sonhos como ainda investem um longo tempo em incidentes grandiosos que ocorrem apenas dentro de uma simulação – e mesmo que estes sejam eficazes em seus efeitos visuais, a verdade é que se torna difícil criar algum impacto emocional quando sabemos que tudo (incluindo conversas dramáticas sem qualquer lógica) está ocorrendo apenas na mente da heroína.

Mas lógica não é mesmo o forte de Insurgente, como comprovam os dez minutos finais repletos de revelações absurdas que só despertam mais dúvidas (e não leia o restante deste parágrafo caso ainda não tenha assistido a esta continuação): por que os pais de Tris escondiam a tal caixa? Como o tal “experimento” funcionava? Como podia comprovar a importância dos divergentes? Por que os “ancestrais” julgaram que aquele experimento saído diretamente de A Vila teria alguma chance de funcionar – tanto ao dividirem a sociedade em cinco castas quanto ao apostarem tudo no surgimento de “divergentes”? E por que eles faziam testes para determinar a “vocação” de cada um se bastava apontar uma versão futurística do Medidor de Energia Psicocinética dos Caça-Fantasmas para determinar não só a “classe” do cidadão, mas também a porcentagem de divergenzice nele contida?

Porém, o mais decepcionante em Insurgente é constatar como adiciona, à sua narrativa tola, uma mensagem desumana e preocupante, trazendo não apenas um, mas dois momentos nos quais personagens são friamente executados mesmo depois de desarmados e imobilizados – cenas nas quais a execução tem claramente o propósito de inspirar a celebração do público. E o fato de que os carrascos são teoricamente “mocinhos” é algo com grande potencial para plantar ideias pouco nobres nas mentes do jovem público-alvo da franquia.

Isto é: caso ele ainda esteja acordado.

20 de Março de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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