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Os Senhores da Guerra

★★☆☆☆2/5 estrelas
12 min

Dirigido por Tabajara Ruas. Roteiro de Tabajara Ruas e José Antônio Severo. Com: Rafael Cardoso, André Arteche, Leonardo Machado, Zé Adão Barbosa, Elisa Brittes, Andrea Buzato, Felipe Kannenberg, Marcos Breda, Hique Gomez, Miguel Ramos.

Os Senhores da Guerra é um filme ambicioso: recriando uma passagem marcante da História do país, este trabalho de Tabajara Ruas tem aspirações épicas que encontram eco em sua produção caprichosa que impressiona graças à direção de arte detalhista, às belas locações e ao número de figurantes. Infelizmente, uma boa obra precisa mais do que escala e, portanto, é uma pena que o longa falhe em todo o resto: seu ritmo é trôpego, a narrativa é frouxa e seus elementos estéticos são fragilíssimos.

Baseado em um livro de José Antônio Severo, o roteiro escrito por este ao lado do diretor se concentra na história (real) dos irmãos Júlio (Cardoso) e Carlos (Arteche) Bozano, que, amigos e membros de uma família amorosa, se descobrem em lados opostos na Revolução de 1923: enquanto o primeiro era partidário do governador Borges de Medeiros (Gomez) e, portanto, um chimango, o segundo se uniu ao grupo simpático a Assis Brasil, os maragatos, com o objetivo de combater o governo. No ano seguinte, o dilema se repetiria em um contexto que levaria a tragédias e derramamento de sangue.

Por lidar com incidentes bastante específicos de nossa História e não tão conhecidos pelo público em geral, Os Senhores da Guerra já de início se vê obrigado a explicar a situação básica ao espectador, usando, para isto, um narrador que detalha incidentes e situações em um off construído em rimas e empregando, também, letreiros para identificar datas e locais. Contudo, em vez de diminuir o uso da narração a partir do momento em que a história começa a caminhar, o roteiro insiste no recurso, muitas vezes exagerando na repetição de informações e frequentemente tropeçando em diálogos pavorosos que jamais conseguem ocultar seu objetivo de oferecer exposição (“Mas, se isso acontecer, a História do Brasil muda!”, diz alguém em certo momento, numa fala que chega a doer nos ouvidos).

Incapaz de encenar o que quer que seja com algum grau de sutileza, Ruas apela frequentemente para recursos mais apropriados a uma novela mexicana, como a mocinha que pede para o noivo não partir “por ter tido um pesadelo” e uma mise-en-scène extremamente artificial que chega a trazer uma personagem virando as costas para o amado, num momento dramático, a fim de ficar de frente para a câmera. Fotografado de maneira preguiçosa e remetendo ao vídeo em vez de a uma estética cinematográfica (mesmo que traga planos pontualmente belos em contraluz), Os Senhores da Guerra praticamente atira no lixo as lindas e imponentes locações ao apresentá-las numa paleta lavada e sem vida.

Falhando até mesmo nos elementos mais básicos, como estabelecer a geografia de uma cena, o filme constantemente nos atira para dentro de um ambiente e, subitamente, introduz o close de um personagem que nem sabíamos se encontrar no local – e, da mesma maneira, é triste constatar a falta de cuidado com a luz em uma sequência numa estação ferroviária que, iniciando em planos fechados com luz contrastada, subitamente corta para um plano aberto no qual a iluminação surge radicalmente diferente. Como se não bastasse, a montagem sem ritmo abusa da utilização de fades e fusões para indicar mudanças de cena e passagens de tempo, errando grosseiramente também nas elipses que praticamente anulam qualquer impacto na batalha final, que deveria soar como clímax da narrativa.

Enquanto isso, a trilha sonora reflete a obviedade do restante da produção: quando a amada de Júlio surge pela primeira vez na tela, por exemplo, o tema musical imediatamente se encarrega de berrar que estamos vendo o interesse amoroso do protagonista – e, para piorar, ao longo da projeção somos atacados com várias canções cujas letras simplesmente explicam quem são os personagens que estamos vendo e quais seus dilemas (e não posso deixar de mencionar o desastroso tema que embala o filme antes da batalha final, que, num tom absurdamente equivocado, elimina qualquer peso que os acontecimentos seguintes pudessem ter). Além disso, até os efeitos sonoros pecam constantemente, chegando a ser inacreditável reparar que um explosivo arremessado por um soldado emite um silvo agudo enquanto percorre o ar, como se fosse um pequeno míssil.

No entanto, o mais grave é constatar que o centro dramático da história – a relação e o conflito entre os irmãos – jamais funciona satisfatoriamente, já que Carlos é um mero coadjuvante na história que o irmão (vivido bem por Rafael Cardoso, devo ressaltar) protagoniza. Aliás, poucas relações importam de fato na narrativa, por mais que o filme perca um tempo precioso introduzindo romances que não chegam a lugar algum e que não oferecem nada de significativo à trama (e somente Carlos se envolve com duas mulheres, sendo que nenhuma se revela importante, embora uma – interpretada por Andréa Buzato – protagonize uma nudez gratuita, dispensável). E o pior: o único conflito pessoal que realmente consegue despertar algum interesse (aquele envolvendo o uruguaio Ramón (Machado) e o chimango Ulisses (Kannenberg) é resolvido num duelo cuja força dramática também é sabotada pela montagem, que chega ao ponto de eliminar a decisão que determina a situação de ambos).

Assim, chega a ser triste constatar o esforço da equipe de Os Senhores da Guerra, que faz um trabalho de recriação de época notável: os cenários são convincentes, os objetos de cena tornam a viagem no tempo mais completa e os figurinos demonstram um cuidado ímpar com os detalhes. Em contrapartida, o fracasso da maior parte do filme ao menos nos leva a apreciar mais seus acertos, como a sequência que contrapõe o inventário dos arsenais de maragatos e chimangos, expondo a fragilidade dos primeiros.

Parecendo mais interessado em se apresentar como uma versão ilustrada de um livro de História, Os Senhores da Guerra foi obviamente feito com cuidado e carinho – e, assim, é uma pena que o resultado seja pouco mais do que aceitável.

10 de Agosto de 2014

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
2.0
★★☆☆☆

A história real dos irmãos Júlio e Carlos Bozano, que, no Rio Grande do Sul em 1924, se vêem de lados opostos na revolução: enquanto o primeiro defende o governador, se apresentando como chimango, o segundo se coloca contra o governo e ao lado dos maragatos.

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário20 de ago. de 2020

Pablo, meu querido! Que ótimo ler você. Apenas agora vi esta crítica. Que, pra variar, adorei. Adoro seu olhar. Grande abraço!