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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/06/2019 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Imovision

Deslembro
Deslembro

Dirigido e roteirizado por Flávia Castro. Com: Jeanne Boudier, Sara Antunes, Hugo Abranches, Julián Marras, Arthur Raynaud, Jesuíta Barbosa, Marcio Vito e Eliane Giardini.

O Brasil é um país sem memória nem interesse aparente em preservá-la, já que seu passado é constrangedor para muitos que se encontravam e seguem em posição de influência em seus piores momentos. Aliás, só uma nação interessada em praticar o esquecimento ativamente permitiria que atos indizíveis de violência cometidos por seus governantes há menos de meio século se tornassem distantes a ponto de resultar na defesa, por parte de indivíduos sem caráter, de que tudo não passou de um grande exagero, que “ambas as partes cometeram excessos pontuais” e que insistir em apontar a desumanidade da ditadura é algo puramente movido por “ideologia”. Pois a ditadura permanece real para quem a experimentou na pele ou descende de quem traz suas marcas físicas, psicológicas e emocionais – e é por este motivo que resgatar nossa memória é imperativo.

Neste sentido, a jovem Joana (Boudier), protagonista deste belo Deslembro, é um significante do próprio Brasil em sua busca para compreender suas raízes, seus traumas e como estes a afetam no presente, sendo seus esforços complicados pelas dificuldades de sua mãe, Ana (Antunes), em falar sobre as experiências que viveu e as mortes que testemunhou, incluindo a de Eduardo (Barbosa), pai da garota. Exiladas na França há mais de uma década, as duas agora vivem com o novo companheiro de Ana, o chileno – também exilado – Luis (Marras), o filho caçula do casal, Leon (Abranches), e o pré-adolescente Paco (Raynaud), fruto do relacionamento entre Luís e a ex-esposa, ao lado da qual lutou contra o regime de Pinochet. Inconformada com a decisão da mãe de retornar ao Brasil com a família depois do processo de anistia no finalzinho da década de 70, Joana não compreende como Ana pode ansiar por um país ainda sob o comando dos militares e no qual a repressão é uma sombra contínua. “Agora é tudo ‘Copacabana, mon amour’?”, protesta, ainda nova demais para compreender como a saudade e a nostalgia tendem a obscurecer o horror e a ressaltar o calor, transformando a memória em quase idealização.

Escrito e dirigido por Flávia Castro a partir de elementos de sua própria biografia – e o quão fiel ao que testemunhou é algo que a própria diretora debate consigo mesma e com o público ao longo do filme -, o longa segue Joana de perto em sua jornada por sua própria história e pela do país, jornada esta que é dolorosa por representar o fim de certo tipo de inocência que separa as cores fortes da infância dos tons pastel da vida adulta (algo lindamente refletido pela fotografia de Heloísa Passos, que pinta a fria Paris com matizes bem mais quentes do que aquelas que surgirão no Rio tropical). O processo, claro, é fundamental para o crescimento da protagonista e acompanha a expansão de seu olhar e de seu mundo mesmo que, para isso, tenha que derrubar barreiras que parecem intransponíveis – um pouco como a vista da janela de seu apartamento, que se abre para um imenso paredão de rocha.

Mas como esperar que alguém tão jovem saiba processar tantas contradições aparentes quando os adultos que deveriam guiá-la enfrentam suas próprias dificuldades em compreendê-las? Se por um lado Ana e Luís retornam graças ao “perdão” de uma ditadura interessada primordialmente em apagar seus próprios pecados ao reconhecer a inevitabilidade de seu fim, por outro há a realidade de um país ainda governado por militares em um continente que insiste em abrigar déspotas e no qual a luta por uma sociedade mais justa – ou, no mínimo, não tão desigual – persiste quatro décadas depois, já que uma forma de autoritarismo acaba substituída por outra plasticamente menos chocante para uma classe média determinada em não ver os escombros por trás dos cenários.

O que Deslembro registra através da trajetória de Joana, por sinal, é a impossibilidade de construir bases democráticas e humanas sólidas sobre um terreno cuja instabilidade é consequência dos cadáveres simbólicos e literais que abriga – cadáveres como o do pai da moça, que jamais foi encontrado e que, com sua ausência, torna-se cada vez mais presente à medida que os anos avançam e a monstruosidade que o produziu segue impune. Esta é uma dor que ainda atravessa gerações: Joana cresceu sem o pai, sua avó envelheceu sem o filho. A relação entre as duas, diga-se de passagem, marca o início da exumação de memórias fragmentadas pelo tempo e por barreiras psicológicas, sendo disparadas por ecos de ações corriqueiras como partir uma jabuticaba ou ouvir uma canção enquanto entram e saem de foco graças aos filtros plantados pela infância.

É fascinante, por exemplo, como Joana conhece um velho amigo do pai (Vito) e, momentos depois, este surge pela primeira vez em uma de suas lembranças entrecortado pela névoa criada por suas incertezas – e, do mesmo modo, Castro e sua equipe de edição de efeitos sonoros e mixagem transformam um “shhh” assoprado por um adulto apreensivo em um caos auditivo opressivo e angustiante exatamente como uma criança faria. Além disso, a construção visual da narrativa é hábil ao trazer Joana frequentemente atirada no canto do quadro, em uma composição que salienta ao mesmo tempo seu desconforto e sua sensação de não-pertencimento, sendo notável também como a narrativa inclui montagens rápidas de planos-detalhes ao fim de diversas sequências que, similares às memórias fracionadas da garota, parecem apontar para a construção de novas lembranças e como estas refletem as antigas. (As performances oferecidas pelo elenco também colaboram para sua veemência, é claro, mas destaque deve ser conferido à estreante Jeanne Boudier e à sutileza de sua composição – o que pode ser exemplificado pela pequena pausa que faz antes de dizer “vó” em determinado instante, indicando sua falta de hábito com a palavra.)

Sensível e relevante ao reconhecer a importância de se estabelecer uma ponte entre passado e presente (algo que de certa maneira é representado pela abertura de uma porta entre mãe e filha), Deslembro é um filme fundamental em um momento no qual colhemos as consequências de sementes jamais plantadas. Sim, como Ana aponta durante uma conversa, “é difícil falar sobre essas coisas” – contudo, o preço por não fazê-lo é testemunhar o retorno das mesmas “coisas” que evitamos discutir.

A força do horror vem do fato de ser ignorado; fortalecido, nos obriga a enfrentá-lo como se jamais houvesse sido derrubado. E se alguns insistem em argumentar que isto é inevitável e que a História é cíclica por natureza, a verdade é que o retrocesso moral, ético e político (em suma: humano) poderia ao menos ser adiado por mais tempo se não falhássemos tanto em expor suas consequências para as gerações afortunadas o bastante para não o terem testemunhado por si mesmas.

Mas que, infelizmente, talvez tenham que aprender na prática.

22 de Junho de 2019

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Leia também a entrevista exclusiva com a diretora Flávia Castro.

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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