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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
29/08/2019 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Vitrine Filmes

Bacurau
Bacurau

Dirigido e roteirizado por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com: Barbara Colen, Sônia Braga, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Karine Teles, Antonio Saboia, Alli Willow, Jonny Mars, Chris Doubek, Brian Townes, Lia de Itamaracá e Udo Kier.

A diferença de O Som ao Redor e Aquarius para Bacurau é a diferença entre um Brasil guiado pela inclusão social e o Brasil de Bolsonaro; entre um país parcialmente sabotado por uma classe média com orgulho ferido por ver diminuída sua autopercepção de “elite” e de um país presidido por alguém que enxerga minorias como inimigas que merecem a sarjeta e o cassetete. Enquanto nos dois primeiros filmes o diretor Kléber Mendonça Filho alfinetava a soberba de quem deveria se identificar com os mais humildes, mas insiste em se ver como igual dos poderosos, e apontava a teimosia como resistência, aqui a degradação da situação política e social da nação o leva a apostar na radicalização como única possibilidade viável. Antes, a raiva era subtexto; agora, discurso.

O mais fascinante nesta complexa experiência co-dirigida por Mendonça e Juliano Dornelles (designer de produção das obras citadas anteriormente) é sua paciência ao construir e revelar suas alegorias – e, não à toa, minhas anotações feitas durante a projeção trazem, por volta da marca dos 30 minutos, a indagação “o que é este filme exatamente?”. Aliás, o roteiro escrito pela dupla de diretores atira no lixo o conceito de “intriga de predestinação”, já que duvido que qualquer um seja capaz de antecipar na primeira metade do longa o que ocorrerá na segunda.

Abrindo a narrativa na órbita terrestre até chegar a um caminhão-pipa que leva água potável para a cidade-título, Bacurau já investe no simbolismo em seus primeiros instantes ao trazer o veículo atropelando vários caixões espalhados por uma estrada esburacada e passando diante de uma escola em ruínas antes de entrar no trecho final de terra que o conduzirá ao seu destino. Na boleia e ao lado do motorista encontra-se Teresa (Colen), que está retornando ao lugarejo para o enterro de sua avó Carmelita (Lia de Itamaracá) – e um dos poucos tropeços do roteiro é introduzir a personagem de modo tão destacado, já que cria no público a expectativa de estar conhecendo a protagonista quando, na verdade, ela assumirá um papel periférico logo depois. O problema nesta estratégia é adiar sem necessidade a compreensão do espectador de que o protagonismo aqui pertence à própria Bacurau e ao seu espírito de resistência histórico (“histórico” no contexto de sua existência ficcional, obviamente).

Este espírito alcança forma, em parte, através de figuras como o ex-guerrilheiro Pacote (Aquino) e seu antigo líder Lunga (Pereira), a médica Domingas (Sônia Braga, cuja composição contrastante com relação a Aquarius expõe mais uma vez sua imensa versatilidade), o velho professor Plínio (Rabelo) e o naturalista Damiano (Carlos Francisco), entre outros. Aliás, a decisão de preencher a cidade com os rostos marcantes de atores não-profissionais confere personalidade e autenticidade ainda maiores a Bacurau, que é imaginada pelo designer Thales Junqueira como um minidistrito composto essencialmente por uma única rua de terra que abriga a maior parte dos casebres, a escola, a igreja (sempre vazia) e o museu – uma simplicidade que, de um ponto de vista estrutural, reflete a abordagem da montagem, que investe com eficácia em fusões, cortinas e fades para pontuar a transição entre sequências. Ao mesmo tempo, a excelente fotografia de Pedro Sotero se equilibra bem entre a plasticidade de passagens como aquela em que várias crianças testam seus medos à noite e a secura quente do cotidiano do vilarejo.

Igualmente admirável, vale apontar, é a fluidez com que a narrativa salta de um gênero a outro, de um tema a outro e de uma alegoria a outra de uma maneira que deveria resultar em caos, mas acaba por criar uma estrutura coesa na qual elementos conflitantes se complementam perfeitamente, equilibrando-se entre John Carpenter e Glauber Rocha, entre o naturalismo e o fantástico e entre o horror e a (quase) ficção-científica. Ambientado em “alguns anos no futuro”, Bacurau imagina um Brasil (oficialmente) dividido entre Norte e Sul e no qual este último – São Paulo, em particular – promove execuções públicas num reflexo do milicianismo que certo segmento da população já celebra de forma chocante em nosso presente.

O Sudeste, por sinal, é também a origem de dois personagens significativos que, vividos por Karine Teles e Antônio Saboia, desejam desesperadamente se enxergar como “parceiros” de um grupo de estrangeiros (europeus e norte-americanos, claro): “Somos de uma região rica, mais parecida com vocês”. Claro que, no grande esquema, pouco mais são do que peões de uma estratégia de dominância, manifestando aparente orgulho de onde vieram, mas mostrando-se mais do que dispostos a entregar nosso patrimônio aos estrangeiros (lembram de alguém assim?) – e que um deles seja “assessor do poder judiciário” é a ironia final que situa Bacurau em nosso trágico contexto histórico (bem como o fato de duas vítimas fatais deste contexto serem identificadas pelos nomes “Marisa Letícia” e “Marielle”. E não se preocupem, nada disso é realmente spoiler; aliás, eu argumentaria que o filme é imune a estes.).

O que Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles acabam por apontar com precisão é como, de modo mais ou menos descarado, o Brasil segue como vítima de um contínuo processo de colonização, seja esta territorial, cultural, institucional ou econômica. Uma colonização que não exige ação militar por parte dos invasores, já que contam, em sua tarefa, com o auxílio devotado de parte da classe política (o que também é refletido no roteiro).

Em certo momento desta excepcional obra, a personagem de Sônia Braga menciona como o Estado vem distribuindo para a população um “medicamento” tarja preta que, chamado de “Brasol IV”, tem o efeito suposto de atuar como anestésico, mas, na prática, acaba por mergulhar o povo numa postura de inércia.

Algo que a já mítica Bacurau contorna com sua valentia diante da opressão, sua persistência frente aos interesses externos e à determinação de um povo humilde que reconhece na união a única chance de combater os poderosos que o enxergam como um incômodo a ser eliminado.

Que a realidade siga a ficção.

Texto originalmente publicado durante a cobertura do Festival de Cannes de 2019.

15 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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