Dirigido por Dan Gilroy. Roteiro de Dan Gilroy. Com: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed, Ann Cusack.
Lou Bloom é um homem solitário. Usando a Internet para se educar, ele memoriza textos sobre todo tipo de assunto, mas isto não o torna mais hábil ao lidar com outras pessoas quando sai de casa, já que parece não saber se comportar apropriadamente, entregando-se a monólogos que parecem sugerir um leve grau de autismo associado a uma preocupante tendência sociopata. Neste sentido, Bloom é uma mistura perigosa de Rain Man e Norman Bates – e ele logo adiciona Travis Bickle à combinação ao decidir passar as noites percorrendo as ruas de sua cidade (Los Angeles no lugar de Nova York) enquanto analisa e, eventualmente, toma parte da violência que a marca. Lou Bloom é, em suma, um personagem fascinante que Jake Gyllenhaal vive com sua habitual intensidade.
Escrito e dirigido por Dan Gilroy (irmão do também realizador Tony, que produz o longa, e de John, responsável pela montagem), O Abutre nos apresenta a Lou enquanto este, um ladrão barato, rouba pedaços de cerca de arame para revender – e sua reação ao ser surpreendido por um segurança já é um indício claro de sua psicopatia ainda inexplorada. Sempre sonhando em se tornar respeitado e bem-sucedido financeira e profissionalmente, o sujeito descobre sua verdadeira vocação ao testemunhar a ação de um câmera (Paxton) que registra um acidente de carro com o propósito de vender as imagens para telejornais – e não demora muito até que o próprio Bloom passe a documentar e lucrar com os piores momentos da vida alheia.
O mercado para este tipo de vídeo é amplo, como poderia dizer qualquer um que já ouviu Datena solicitar as “ibagens” ou mudou de canal rapidamente ao perceber que estava prestes a ver algo pavoroso (sim, sou do tipo que foge de registros sanguinolentos). Claro que o que muitos chamariam de “jornalismo” não passa, em última análise, do mais puro sadismo oportunista, já que não é preciso mostrar alguém morrendo para noticiar seu falecimento. O objetivo daqueles que comercializam a desgraça alheia (como a personagem vivida por Rene Russo nesta produção) não é a divulgação da “verdade”, mas faturar através da audiência criada pela espetacularização do desastre. Para isso, criam uma narrativa não a partir da imagem obtida, mas para esta, recontextualizando-a em uma história que busca transformar em entretenimento o que deveria ser apenas motivo de lamento. Vemos isso todos os dias nos canais abertos e em todos os horários: jornalistas que pincelam detalhes de uma história maior a fim de criar e alimentar a paranoia de um público cuja “revolta” resultante passa a ser retroalimentada sem que jamais se tenha uma compreensão real acerca dos fatos.
E Lou Bloom, como logo descobrimos, é a figura perfeita para a profissão: encarnado por Gyllenhaal como um tipo magro, de cabelos oleosos, olhos sempre arregalados e um sorriso fácil, mas vazio de sentimento, Bloom jamais permite que o conceito de “escrúpulos” limite seus sonhos de grandeza. Assim, é quase inevitável que ele logo deixe apenas de enfiar sua câmera no rosto das vítimas que encontra e passe a produzir as cenas trágicas que documenta, como ao mover as fotos de uma família na geladeira de uma casa atingida por balas apenas para criar uma rápida – e eficiente – narrativa dramática ao justapor os retratos aos buracos provocados pelos disparos. E isto é só o começo, claro.
Pois Bloom, como tantos profissionais similares, conhece e compreende perfeitamente bem o produto que está vendendo. O que talvez não entenda é como o que faz é degradante do ponto de vista humanista. Isto, porém, não é de se estranhar, já que sua mente foca sempre no resultado, independentemente do que precisará fazer para atingi-lo: ao manifestar desejo pela produtora executiva Nina Romina (Russo), por exemplo, ele não hesita em barganhar por um lugar em sua cama, já que reconhece ter como convencê-la a se entregar mesmo que a atração não seja recíproca. Nina, por sua vez, parece enxergar a estratégia do sujeito com um misto de indignação e fascinação, posto que ela mesma vive de negociar a desgraça alheia sem se preocupar com os sentimentos envolvidos – e, portanto, não deixa de ser uma ironia curiosa que Bloom misture suas relações profissionais e pessoais para forçar a outra a aceitá-lo, já que, para as pessoas cujas vidas Nina expõe na tevê, nada poderia ser mais pessoal do que a postura profissional adotada pela jornalista.
A visão de Dan Gilroy, diga-se de passagem, é igualmente pessimista no que diz respeito ao restante da galeria de personagens enfocados, que, em maior ou menor grau, não hesitam em sacrificar princípios em prol de vantagens profissionais e financeiras – e é preciso reconhecer a habilidade do cineasta em retratar a maneira com que o crescimento do protagonista naquele meio é inevitavelmente acompanhado por um colapso de qualquer restrição moral que poderia encontrar no caminho.
Tenso e angustiante como o mundo que retrata, O Abutre é um estudo de personagem notável – mas, acima de tudo, é uma condenação eficaz de um tipo de jornalismo que, mesmo longe de representar novidade, persiste em apelar para o lado mais animalesco de seus consumidores, apostando em nossa morbidez em vez de buscar recompensar nossa humanidade.
18 de Dezembro de 2014

Na trama, um homem desempregado entra em contato com o universo underground de Los Angeles formado por jornalistas independentes que cobrem casos criminais.
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