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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/09/2019 12/07/2019 2 / 5 3 / 5
Distribuidora
Paramount Pictures

Predadores Assassinos
Crawl

Dirigido por Alejandre Aja. Roteiro de Michael Rasmussen, Shawn Rasmussen. Com: Kaya Scodelario, Barry Pepper, Morfydd Clark, Ross Anderson, Jose Palma, George Somner, Anson Boon, Ami Metcalf.

Eu jamais pensei que as coisas fossem terminar assim!”, lamenta Haley, a protagonista de Predadores Assassinos em certo ponto do filme. Sua incapacidade de prever o futuro, porém, é compreensível: afinal, seria preciso um grande esforço de imaginação para antecipar uma situação em que se encontraria presa sob a fundação de uma casa durante um furacão de categoria 5 enquanto o lugar é inundado aos poucos e dois crocodilos gigantes tentam devorá-la. O mais divertido, no entanto, é notar que a fala é incluída no roteiro dos irmãos Michael e Shawn Rasmussen e recitada pela atriz Kaya Scodelario sem um pingo de ironia, já que o longa jamais tenta adotar o humor camp de algo como Anaconda ou Sharknado – e ainda que eu aprecie a sinceridade de sua convicção, o fato é que levar-se a sério é uma péssima estratégia para um projeto como este.

Durando breves 87 minutos mesmo esticando a narrativa com flashbacks repetitivos que tentam conferir algum grau de tridimensionalidade à heroína, Predadores Assassinos é uma daquelas produções que confundem diálogos expositivos com desenvolvimento de personagens, trazendo conversas nas quais pai e filha descrevem acontecimentos que ambos viveram como se isto significasse uma catarse em seu relacionamento – isto, claro, quando não estão dizendo frases originalíssimas como “You look like shit”, “You have to believe in yourself”, “You’ve gotta be fucking kidding me” e “Don’t quit on me!”. Para fechar o bingo, faltaram apenas “I was born ready”, “We’ve got company” e “Let’s do this!”.

Já os vilões do longa oscilam em seu comportamento de acordo com a necessidade imediata de cada cena, ora surgindo como criaturas inteligentes e capazes de detectar qualquer movimento, ora se transformando em monstros estúpidos que podem passar ao lado de suas presas sem perceber sua presença. O mesmo, por sinal, se aplica aos humanos, que possuem vastos conhecimentos sobre primeiros-socorros, mostrando-se capazes de reposicionar ossos fraturados ou estancar hemorragias, mas não pensam duas vezes antes de se colocarem em situações desnecessariamente arriscadas (meu momento favorito é aquele em que Haley se esgueira para recuperar seu telefone e, ao fazê-lo, imediatamente tenta efetuar uma ligação em vez de primeiro retornar ao ponto protegido dos crocodilos). Enquanto isso, todos os demais personagens desempenham a mesma função: ilustrar o perigo representado pelos animais através de suas mortes violentas e gráficas.

Produzido por Sam Raimi e dirigido pelo francês Alexandre Aja (responsável pelo correto Viagem Maldita e pelo pavoroso Espelhos do Medo), Predadores Assassinos até se mostra promissor em seus quinze minutos iniciais, quando cria uma atmosfera carregada ao enfocar Haley procurando o pai (Pepper) em uma cidadezinha abandonada pelos moradores diante da ameaça do furacão e que, coberta por densas nuvens e tomada por ventos fortes, evoca um misto de tensão e melancolia ao recuperar ecos do passado da família através de planos como os que revelam um balanço enferrujado ou as marcas do crescimento das crianças no batente de uma porta. Infelizmente, depois disso restam 72 minutos de tédio.

Aliás, aqui e ali o cineasta – auxiliado pelo diretor de fotografia Maxime Alexandre – concebe quadros que empregam bem a luz e as sombras em composições esteticamente memoráveis, merecendo também créditos pelos ótimos planos plongé em uma cena que se passa em um banheiro e traz a protagonista e um crocodilo separados pelo boxe do chuveiro. Do mesmo modo, Aja cria certa tensão ao usar recursos batidos, mas eficazes, como ao adotar uma profundidade de campo reduzida que converte certos elementos ao fundo em vultos embaçados cujos movimentos súbitos surpreendem o espectador, mas quando clichês resultam nos melhores instantes de um filme é porque a coisa está feia. Em contrapartida, não há como perdoar a incongruência da abordagem do diretor, que, depois de fugir do humor durante a maior parte da projeção, decide se entregar a este assim que o longa chega ao fim, quando inclui Bill Haley and the Comets cantando “See You Later, Alligator” nos créditos finais em uma piada que, além de óbvia, é ruim.

E por falar em obviedade, como ignorar a “homenagem” aleatória que a obra faz a Stan Lee ao trazer três personagens chamados “Stan”, “Lee” e “Marv”? Ou, considerando todo o resto, talvez eu devesse elogiar Alexandre Aja por não incluir um quarto indivíduo batizado de “El”. Afinal, isso deve ter exigido uma tremenda autodisciplina de sua parte.

03 de Outubro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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