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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora
Europa Filmes e Esfera Filmes

Pelos Olhos de Maisie
What Maisie Knew

Dirigido por Scott McGehee e David Siegel. Com: Onata Aprile, Julianne Moore, Steve Coogan, Alexander Skarsgård, Joanna Vanderham.

É notável como, tendo sido publicado em 1897, “Pelos Olhos de Maisie” permanece atual. Escrito por Henry James numa época em que os divórcios ainda não haviam se tornado tão corriqueiros, o livro acompanhava a separação de um casal pavoroso que, dividindo a custódia da pequena filha, basicamente via a menina como arma numa guerra constante, disputando o tempo com a personagem-título não por afeição, mas para irritar o antigo companheiro e atual oponente.

Mantendo a base da história concebida por James, as roteiristas Nancy Doyne e Carroll Cartwright transportam a família para a Nova York dos dias atuais sem grandes problemas, transformando a mãe de Maisie (Aprile) em uma pequena estrela de rock que, vivida por Julianne Moore, encontra-se no fim do casamento com o marchand Beale (Coogan). Separados, os dois logo se esforçam para envenenar a mente da criança com relação ao ex-parceiro – e tampouco demora para que Beale se case com a ex-babá de Maisie, a gentil Margo (Vanderham), enquanto Susanna transforma em marido o bartender Lincoln (Skarsgård).

Surgindo autossuficiente já desde os primeiros minutos de projeção, quando se encarrega de pagar pela pizza que é entregue em seu apartamento enquanto os pais brigam ao fundo, Maisie é encarnada pela pequena Onata Aprile como uma criança comum que se refugia em seu pequeno mundo para evitar o peso dos conflitos domésticos que a cercam e que, claro, encontram sempre um modo de atingi-la. Assim, quando os diretores Scott McGehee e David Siegel acompanham o trajeto da menina até a escola, já no primeiro ato, se encarregam de sugerir sua tristeza através de planos-detalhe que trazem um balanço vazio e uma pipa presa em um fio elétrico, evocando símbolos melancólicos de uma infância sabotada por uma guerra conjugal. Por outro lado, os cineastas (especialistas em dramas familiares) demonstram conhecer a resiliência do espírito infantil através de cenas que trazem a crianças sorrindo e brincando com os colegas na escola – e não é surpresa perceber como ela parece relaxar sempre que distante dos pais.

Interpretados por Coogan e Moore como criaturas egoístas que deixam a raiva mútua cegá-los com relação ao bem-estar emocional e psicológico da filha, Beale e Susanna aos poucos vão se estabelecendo como pequenos monstros, manipulando a menina, obrigando-a a guardar segredos e jamais hesitando em se entregar a discussões calorosas na frente da garota. Demonstrando um descaso colossal para com os sentimentos de qualquer um que não eles mesmos, os dois chegam a se casar com duas novas vítimas mais por estratégia do que por realmente algum interesse romântico pelos jovens parceiros – e não demora muito até que estejamos torcendo para que Maisie seja sequestrada e levada para longe daqueles seres repugnantes.

Neste aspecto, aliás, as atuações de Skarsgård e Vanderham são importantes por estabelecerem um contraponto de gentileza à amargura de seus pares: enquanto Margo demonstra carinho e preocupação com o bem-estar de Maisie (assumindo características da Sra. Wix, ausente desta adaptação), Lincoln é composto por Skarsgård como um homem relativamente imaturo que, adotando uma postura encurvada que denota sua insegurança diante do mundo, mostra-se capaz de identificar-se com a inocência da menina e de compreender o que esta enfrenta.

Buscando construir a narrativa a partir do ponto de vista de Maisie, o longa é eficiente ao sugerir os sentimentos e percepções da criança através do design de produção - e, assim, quando ela conhece seu quarto no apartamento do pai, percebemos que, mesmo confortável e cheio de brinquedos, há uma frieza no ambiente dominado por brancos e que substitui a bela vista da casa anterior por uma varanda bloqueada por prédios marrons e metais escuros. Da mesma maneira, o filme sugere a alegria inerente da garota através de sua predileção clara por um tom intenso de amarelo que surge presente em suas roupas e objetos favoritos – e quando Lincoln a presenteia com um livro, sua proximidade sentimental e sua compreensão acerca das preferências da menina são evidenciadas justamente ao percebermos a presença daquela cor no objeto (e o mesmo vale quando notamos como Margo usa uma saia amarela ao passear com Maisie). Tampouco é acaso que Susanna surja constantemente dominada por figurinos vermelhos e/ou pretos, distanciando-se da filha mesmo quando tenta se aproximar.

Angustiante ao retratar uma criança que, em vez de protegida pela segurança dos pais, é obrigada a testemunhar os dois principais adultos de sua vida entregando-se a conflitos, lágrimas e gritos constantes, Pelos Olhos de Maisie demonstra entender uma dinâmica familiar infelizmente bastante comum ao trazer Susanna e Beale repetindo declarações de amor à filha, como se um “Você sabe que eu te amo, não sabe?” fosse capaz de magicamente substituir a atenção, o carinho e o apoio que a menina tanto precisa. Assim, quando em certo instante vemos o ônibus que traz a mãe da garota se aproximando, o veículo parece surgir do meio da escuridão como o pesadelo sentimental que traz a bordo.

Prejudicado apenas pelo desfecho que se acovarda e tenta adiar o sofrimento que certamente virá, Pelos Olhos de Maisie é ao menos honesto e sensível ao reconhecer que, mesmo péssimos como são, Susanna e Beale são vistos com carinho e apego comoventes pela criança que tanto negligenciam e para a qual serão sempre “papai” e “mamãe” – e é esta a grande tragédia dos maus pais: o fato de não merecerem o amor incondicional que recebem dos pequenos seres que destroem com tanta facilidade.

10 de Janeiro de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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