Pelos Olhos de Maisie
Dirigido por Scott McGehee e David Siegel. Com: Onata Aprile, Julianne Moore, Steve Coogan, Alexander Skarsgård, Joanna Vanderham.
É notável como, tendo sido publicado em 1897, “Pelos Olhos de Maisie” permanece atual. Escrito por Henry James numa época em que os divórcios ainda não haviam se tornado tão corriqueiros, o livro acompanhava a separação de um casal pavoroso que, dividindo a custódia da pequena filha, basicamente via a menina como arma numa guerra constante, disputando o tempo com a personagem-título não por afeição, mas para irritar o antigo companheiro e atual oponente.
Mantendo a base da história concebida por James, as roteiristas Nancy Doyne e Carroll Cartwright transportam a família para a Nova York dos dias atuais sem grandes problemas, transformando a mãe de Maisie (Aprile) em uma pequena estrela de rock que, vivida por Julianne Moore, encontra-se no fim do casamento com o marchand Beale (Coogan). Separados, os dois logo se esforçam para envenenar a mente da criança com relação ao ex-parceiro – e tampouco demora para que Beale se case com a ex-babá de Maisie, a gentil Margo (Vanderham), enquanto Susanna transforma em marido o bartender Lincoln (Skarsgård).
Surgindo autossuficiente já desde os primeiros minutos de projeção, quando se encarrega de pagar pela pizza que é entregue em seu apartamento enquanto os pais brigam ao fundo, Maisie é encarnada pela pequena Onata Aprile como uma criança comum que se refugia em seu pequeno mundo para evitar o peso dos conflitos domésticos que a cercam e que, claro, encontram sempre um modo de atingi-la. Assim, quando os diretores Scott McGehee e David Siegel acompanham o trajeto da menina até a escola, já no primeiro ato, se encarregam de sugerir sua tristeza através de planos-detalhe que trazem um balanço vazio e uma pipa presa em um fio elétrico, evocando símbolos melancólicos de uma infância sabotada por uma guerra conjugal. Por outro lado, os cineastas (especialistas em dramas familiares) demonstram conhecer a resiliência do espírito infantil através de cenas que trazem a crianças sorrindo e brincando com os colegas na escola – e não é surpresa perceber como ela parece relaxar sempre que distante dos pais.
Interpretados por Coogan e Moore como criaturas egoístas que deixam a raiva mútua cegá-los com relação ao bem-estar emocional e psicológico da filha, Beale e Susanna aos poucos vão se estabelecendo como pequenos monstros, manipulando a menina, obrigando-a a guardar segredos e jamais hesitando em se entregar a discussões calorosas na frente da garota. Demonstrando um descaso colossal para com os sentimentos de qualquer um que não eles mesmos, os dois chegam a se casar com duas novas vítimas mais por estratégia do que por realmente algum interesse romântico pelos jovens parceiros – e não demora muito até que estejamos torcendo para que Maisie seja sequestrada e levada para longe daqueles seres repugnantes.
Neste aspecto, aliás, as atuações de Skarsgård e Vanderham são importantes por estabelecerem um contraponto de gentileza à amargura de seus pares: enquanto Margo demonstra carinho e preocupação com o bem-estar de Maisie (assumindo características da Sra. Wix, ausente desta adaptação), Lincoln é composto por Skarsgård como um homem relativamente imaturo que, adotando uma postura encurvada que denota sua insegurança diante do mundo, mostra-se capaz de identificar-se com a inocência da menina e de compreender o que esta enfrenta.
Buscando construir a narrativa a partir do ponto de vista de Maisie, o longa é eficiente ao sugerir os sentimentos e percepções da criança através do design de produção - e, assim, quando ela conhece seu quarto no apartamento do pai, percebemos que, mesmo confortável e cheio de brinquedos, há uma frieza no ambiente dominado por brancos e que substitui a bela vista da casa anterior por uma varanda bloqueada por prédios marrons e metais escuros. Da mesma maneira, o filme sugere a alegria inerente da garota através de sua predileção clara por um tom intenso de amarelo que surge presente em suas roupas e objetos favoritos – e quando Lincoln a presenteia com um livro, sua proximidade sentimental e sua compreensão acerca das preferências da menina são evidenciadas justamente ao percebermos a presença daquela cor no objeto (e o mesmo vale quando notamos como Margo usa uma saia amarela ao passear com Maisie). Tampouco é acaso que Susanna surja constantemente dominada por figurinos vermelhos e/ou pretos, distanciando-se da filha mesmo quando tenta se aproximar.
Angustiante ao retratar uma criança que, em vez de protegida pela segurança dos pais, é obrigada a testemunhar os dois principais adultos de sua vida entregando-se a conflitos, lágrimas e gritos constantes, Pelos Olhos de Maisie demonstra entender uma dinâmica familiar infelizmente bastante comum ao trazer Susanna e Beale repetindo declarações de amor à filha, como se um “Você sabe que eu te amo, não sabe?” fosse capaz de magicamente substituir a atenção, o carinho e o apoio que a menina tanto precisa. Assim, quando em certo instante vemos o ônibus que traz a mãe da garota se aproximando, o veículo parece surgir do meio da escuridão como o pesadelo sentimental que traz a bordo.
Prejudicado apenas pelo desfecho que se acovarda e tenta adiar o sofrimento que certamente virá, Pelos Olhos de Maisie é ao menos honesto e sensível ao reconhecer que, mesmo péssimos como são, Susanna e Beale são vistos com carinho e apego comoventes pela criança que tanto negligenciam e para a qual serão sempre “papai” e “mamãe” – e é esta a grande tragédia dos maus pais: o fato de não merecerem o amor incondicional que recebem dos pequenos seres que destroem com tanta facilidade.
10 de Janeiro de 2014

Em meio ao conturbado divórcio dos pais, Maisie, uma garotinha de sete anos, tenta entender o que se passa. De um lado a mãe, Susanna, uma estrela do rock. Do outro o pai, Beale, um influente galerista. Unindo os dois, a menina, que logo descobre um novo significado para a palavra \"família\". Distribuição: Europa Filmes e Esfera Filmes
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