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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/03/2014 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora
Disney

Walt nos Bastidores de Mary Poppins
Saving Mr. Banks

Dirigido por John Lee Hancock. Com: Emma Thompson, Tom Hanks, Paul Giamatti, Bradley Whitford, Colin Farrell, Ruth Wilson, Annie Rose Buckley, B.J. Novak, Jason Schwartzman, Kathy Baker, Rachel Griffiths.

Em certo momento de Walt nos Bastidores de Mary Poppins (um título que também servirá para a inevitável versão pornográfica), a escritora P.L. Travers vivida aqui por Emma Thompson agarra um imenso boneco do Mickey e, colocando-o no canto do quarto, diz: “Você ficará aí até compreender a arte da sutileza”. Trata-se de uma fala inacreditável por revelar a cegueira do filme acerca da própria natureza, já que, ao longo de suas duas horas de projeção, veremos Disney tossir inúmeras vezes para indicar a doença que viria a matá-lo, acompanharemos Travers falando sozinha em diálogos expositivos pavorosos, testemunharemos flashbacks maniqueístas e seremos bombardeados com mensagens artificiais que beiram a autoajuda. Não era Mickey quem merecia ficar de castigo no canto do aposento, mas toda a equipe responsável por este projeto.

Escrito por Kelly Marcel e Sue Smith, o roteiro supostamente reconta detalhes da produção de Mary Poppins, desde a obsessão de Walt Disney (Hanks) pela personagem criada por Travers até a viagem da britânica para Los Angeles a fim de, mesmo contrariada, auxiliar no trabalho de adaptação de seu livro para as telas. Pressionada por questões financeiras, a autora parece determinada a sabotar o projeto, já que acabaria sendo paga da mesma maneira, mas aos poucos o carisma do criador de Mickey Mouse a torna menos resistente à ideia de abrir mão da exclusividade sobre sua personagem mais famosa – e seu apego a Mary Poppins é explicado através de flashbacks nos quais descobrimos mais sobre sua relação com o pai alcoólatra (Farrell).

Fotografado de maneira óbvia por John Schwartzman, que logo de cara contrasta as memórias calorosas, repletas de verde e dourado, ao presente frio e impessoal no qual a protagonista vive, Walt Nos Bastidores de Mary Poppins (hehehe) aparentemente assume uma estrutura que busca responder a uma pergunta que ninguém jamais fez: como P.L. Travers se transformou, de criança imaginativa e feliz, numa adulta amarga e solitária? A explicação oferecida pelo roteiro recheado de psicologia amadora se resume à experiência de Travers, na infância, com o alcoolismo mágico do pai – e o chamo de “mágico” por permitir que o sujeito funcione perfeitamente bem até que algum incidente se torne necessário para que a história avance, quando, então, ele subitamente arremessa papeis para cima ou despenca de um palco.

Infelizmente, as sequências que se passam no presente também são repletas deste tipo de magia: Disney, por exemplo, anuncia cada entrada em cena com uma tosse e, ao ligar para a protagonista, dá uma tossida assim que esta atende o telefone – e é interessante reparar como, no meio das cenas, os efeitos de seu ainda não diagnosticado câncer de pulmão praticamente desaparecem. Da mesma maneira, Travers é vivida por Thompson como a perfeita caricatura do britânico esnobe, reclamando de tudo em voz alta (mesmo quando sozinha em cena), ofendendo todos ao seu redor e presumindo estar sempre cercada por débeis mentais (e ela chega a supor que o motorista vivido por Paul Giamatti acredita que o dia ensolarado é sua responsabilidade). E caso tivéssemos alguma dúvida acerca de sua integridade artística, o roteiro imediatamente desfaz esta possibilidade ao trazê-la afirmando que “dinheiro é uma palavra nojenta”, o que a faz soar não como uma nobre artista, mas como uma criança mimada.

Mas se Travers é pintada como uma criatura antipática, o Walt Disney visto aqui é simplesmente a encarnação do artista lendário e sonhador que seu estúdio insiste em pintar (e claro que, produzido pela Disney, não poderia ser diferente). Vivido pelo mais simpático e humano dos superastros de Hollywood, Disney é mais Tom Hanks que Walt: é célebre, mas simples; milionário, mas “do povo”; profissionalmente respeitado, mas não se leva a sério. É também um homem de família que insiste em adaptar Mary Poppins não por enxergar grandes possibilidades financeiras, mas por ter prometido às filhas que o faria e por acreditar que a história da babá mágica poderá inspirar pessoas em todo o mundo. Segundo o filme, Walt Disney não era apenas um criador fabuloso (o que de fato era), mas um guru repleto de sabedoria que consegue até mesmo recuperar a alegria da rabugenta e ressentida criadora de Mary Poppins – e ver Emma Thompson hesitando em entrar num bar, balançando os pés (sem notar) ao ritmo das músicas que diz detestar e se entregando a uma cantoria pavorosamente implausível é algo indigno de uma atriz normalmente tão competente.

Mas Walt nos Bastidores de Mary Poppins (classificação indicativa: 18 anos) não se preocupa com plausibilidade – afinal, o péssimo diretor John Lee Hancock, responsável por atrocidades como O Álamo e Um Sonho Possível, não hesita em trazer uma aeromoça que reconhece uma passageira três anos depois de vê-la apenas para criar uma piada medíocre. Hancock, aliás, pouco se importa também com a geografia de suas cenas – e um certo banco, por exemplo, é visto duas vezes ao longo da projeção, mas de janelas localizadas em lugares distintos e que jamais poderiam oferecer uma vista similar.

O mais ofensivo, no entanto, é perceber como o longa insiste em tentar convencer o espectador de que seu trabalho de recriação foi fiel ao trazer fotos da época e mesmo gravações de Travers durante os créditos finais, ignorando solenemente que – ao contrário do que mostra – a escritora detestou o filme produzido por Disney, recusando-se terminantemente a ceder os direitos de seus demais livros. Para piorar, este projeto do estúdio mostra-se tão determinado a santificar Walt que, para isso, demoniza P.L. Travers, unindo-se aos recentes Hitchcock e A Garota em um gênero que gosto de chamar de “cinema-tabloide”.

Não duvido que até como puro Cinema a versão erótica será melhor do que esta porcaria.

08 de Março de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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