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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/07/2014 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Fox Film

O Grande Hotel Budapeste
The Grand Budapest Hotel

Dirigido por Wes Anderson. Roteiro de Wes Anderson. Com: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jude Law, Saoirse Ronan, Léa Seydoux, Mathieu Amalric, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Edward Norton, Jason Schwartzman, Tilda Swinton, Owen Wilson, Tom Wilkinson, Giselda Volodi, Bob Balaban, Fisher Stevens e Bill Murray.

Não demora muito em O Grande Hotel Budapeste para que constatemos que o filme trará Wes Anderson mais Wes Anderson do que nunca: já nos primeiros segundos, quando vemos uma jovem usando uma boina e um sobretudo cujas lapelas encontram-se carregadas de broches, sabemos que o diretor acionou o botão turbo em sua autoralidade – e quando a moça exibe um livro de capa rosa que traz o título do longa e os letreiros que indicam o primeiro “capítulo” da projeção, podemos antecipar os orgasmos de qualquer fã do cineasta.

Escrito pelo próprio Anderson (“inspirado” nos escritos de Stefan Zweig), o roteiro tem início com um autor que, já idoso (Wilkinson), relembra como descobriu a história que conta em um de seus trabalhos mais famosos: décadas antes, ao hospedar-se no hotel-título e quando ainda tinha o rosto de Jude Law, ele conheceu o dono do estabelecimento, Zero Moustafa (Abraham), que, insistindo em dormir em um quarto minúsculo, tem uma ligação profunda com o lugar. A partir daí, acompanhamos a narração do sujeito enquanto explica como conheceu o antigo concierge do hotel, um certo monsieur Gustave (Fiennes), que levava suas funções extremamente a sério, satisfazendo sexualmente as clientes idosas que se hospedavam ali e mantendo os funcionários sempre atentos aos mínimos detalhes de suas obrigações. Jovem e inexperiente, Zero (Revolori) passa a ser educado por Gustave, que acaba herdando um famoso quadro depois da morte da idosa Madame D. (Swinton) – algo que desagrada imensamente o herdeiro da ricaça (Brody). Perseguido por um assassino profissional (Dafoe) e acusado de um crime que não cometeu, Gustave conta com a ajuda do aprendiz para provar a própria inocência e retornar ao hotel que serve como lar para ambos enquanto um movimento fascista ameaça tomar conta do país no qual vivem.

Trazendo todos os elementos que já identificamos automaticamente como parte do arsenal criativo de seu diretor, O Grande Hotel Budapeste seria uma desculpa perfeita para um daqueles drinking games: um quadro que traz um personagem bem em seu centro e falando para a câmera vale um gole de álcool; um travelling acompanhando o movimento lateral dos atores, cinco goles; planos revelando objetos organizados meticulosamente sobre uma mesa implicam em uma long neck virada de uma só vez e cada novo cenário carregado em cores chapadas acarreta em uma dose de uísque. Siga estas regras e entre em coma alcoólico antes que o longa chegue à metade. Neste aspecto, o novo trabalho do diretor parece quase flertar com um clichê de si mesmo, como se o realizador tivesse visto todos os vídeos amadores que o parodiavam e houvesse decidido superá-los.

E ainda bem que tomou esta decisão, já que sua estética particular é ideal para esta narrativa: criando sequências que empregam animação e investindo em um design de produção estilizado, Anderson confere um tom fabulesco a uma história que exige isto – e, assim, as cores marcantes dos cenários, os letreiros que dividem a projeção em capítulos e as lentes grandes angulares que conferem um aspecto de estranheza aos personagens e aos ambientes que os cercam levam o espectador a compreender rapidamente a proposta do filme, que usa o Cinema para flertar com a literatura (e, portanto, é natural que ouçamos o narrador dizer, em off, “ele perguntou” antes de ouvirmos a pergunta do personagem em si).

Da mesma maneira, o simples fato de trazer vários atores recorrentes na filmografia de Anderson confere um ar de trupe e, portanto, de teatralidade ao projeto – e ao vermos rostos como os de Bill Murray, Owen Wilson, Jason Schwartzman e Adrien Brody, constatamos não só a fidelidade dos atores ao seu diretor como também um traço comum à sua obra, como se cada um daqueles intérpretes trouxesse não só o personagem que vive brevemente, mas uma bagagem construída ao longo de vários filmes. Aliás, esta familiaridade também ajuda a estabelecer, por contraste, a identidade particular dos dois personagens principais, que são vividos por dois estreantes no universo de Anderson: Ralph Fiennes e Tony Revolori, que logo estabelecem uma dinâmica divertida e ágil, ancorando a plateia durante o filme.

Esta teatralidade, porém, diz respeito apenas à recorrência do elenco, já que O Grande Hotel Budapeste é tão cinematográfico quanto possível – das gags envolvendo o design de som (como a brincadeira com o ruído do portão gigantesco da prisão) até as constantes panorâmicas que, movendo-se num ângulo vertical reto, constantemente introduzem novos elementos em cena de maneira ágil e divertida. Além disso, Anderson e seu habitual diretor de fotografia Robert D. Yeoman empregam a própria razão de aspecto da projeção de maneira atípica, usando o Cinemascope nas sequências que se passam na década de 60, uma mais restrita (1.85:1)  naquelas que retratam o “presente” (década de 80) e um tradicional 1.37:1 nas sequências que ancoram o filme, concentrando-se no personagem de Fiennes – o que é perfeito, já que, de certo modo, O Grande Hotel Budapeste é uma homenagem ao próprio ato de se contar histórias, justificando um formato dentro de outro e dentro de outro.

Esteticamente fascinante (como é comum nas obras do diretor), o longa exibe um cuidado admirável na composição de cada plano, desde um plongé que se limita a mostrar uma escadaria até um geral que revela a paisagem tomada pela neve que serve de palco a uma perseguição. Além disso, as brincadeiras que Anderson faz com animação em silhueta se apresentam divertidas ao mesmo tempo em que fazem referência clara a As Aventuras do Príncipe Achmed, o longa de animação mais antigo do Cinema, o que não deixa de ser apropriado se considerarmos o respeito que, repito, o filme exibe diante do próprio ato de contar histórias ao ressaltar o fato de estarmos ouvindo um relato que atravessa gerações.

Ao final, porém, o excesso de estilização da abordagem de Wes Anderson acaba cobrando um preço: se em obras como Os Excêntricos Tenenbaums o diretor alcançava um resultado que oscilava entre o humor e a melancolia, provocando risos ao mesmo tempo em que nos fazia chorar por seus personagens, desta vez o peso na artificialidade impede um envolvimento emocional maior por parte do espectador, que se encanta com o universo e os personagens, mas é mantido à distância, como se anestesiado diante dos momentos que talvez pudessem provocar maior emoção.

Mas este é um pecadilho se comparado ao prazer estético provocado pelo filme – desde já, um dos mais belos do ano.

08 de Julho de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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