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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
18/09/2014 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora
Paris Filmes

Canibais
The Green Inferno

Dirigido por Eli Roth. Roteiro de Eli Roth e Guillermo Amoedo. Com: Lorenza Izzo, Ariel Levy, Aaron Burns, Daryl Sabara, Sky Ferreira, Nicolás Martínez, Kirby Bliss Blanton, Magda Apanowicz, Matías Lopez.

O ciclo do canibalismo italiano, que conquistou fãs do horror e do gore nas décadas de 70 e 80 e atingiu seu auge com Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato (que vi – e curti - aos 15 anos de idade, mas jamais senti vontade de revisitar), não só é a inspiração óbvia de Eli Roth neste seu The Green Inferno como, se pensarmos um segundo sobre o assunto, é também uma influência inevitável na obra de um diretor cuja carreira se baseia quase toda em xenofobia e misoginia. Não é segredo, para quem acompanha meu trabalho há algum tempo, que nutro profundo desprezo por Roth, que sente um prazer inequívoco em submeter suas personagens femininas a todo tipo de humilhação imaginável e que enxerga o mundo fora dos Estados Unidos como uma selva repleta de criaturas monstruosas - mas, como crítico de Cinema, não posso negar que (predileções temáticas à parte) este é seu trabalho mais eficaz como realizador.

Roteirizado pelo diretor ao lado de Guillermo Amoedo, o filme gira em torno de um grupo de universitários norte-americanos que decide viajar para a Amazônia peruana com o objetivo de realizar um protesto contra uma construtora que está derrubando a floresta e destruindo uma tribo local. Ao retornarem da ação, porém, os jovens sofrem um acidente de avião e descobrem que a tal tribo não é particularmente boa em demonstrar gratidão, já que os nativos decidem... vocês já sabem.

Surpreendendo ao retratar a ação do grupo diante dos seguranças da construtora de forma tensa e ágil, Eli Roth também consegue conferir urgência e pavor à sequência que traz a queda do avião – e, mesmo não sendo tão fabulosos assim, estes dois momentos se encontram entre os melhores da carreira do medíocre diretor (e é sempre prazeroso ver um artista melhorando com o tempo, mesmo que este seja Eli Roth). Demonstrando um senso de humor negro eficiente que, de certa maneira, consegue aliviar o impacto gráfico da primeira execução por parte dos selvagens (quando a vítima é vista até mesmo com um legume na boca), Roth faz jus à natureza gore de suas principais influências ao incluir efeitos de maquiagem e próteses que transformam o desmembramento e o estripamento em um espetáculo à parte – e nem vou discutir a composição dos índios (que chamei de “selvagens” por serem assim retratados pelo longa), já que isto seria inevitável neste subgênero.

Por outro lado, se Roth descartou o principal elemento estrutural de Cannibal Holocaust (a narrativa construída a partir de imagens encontradas e que inspirou filmes como A Bruxa de Blair), poderia também ter ignorado seus elementos misóginos – mas, se o fizesse, não seria Eli Roth, não é mesmo? Assim, o diretor logo expõe seu machismo ao retratar duas garotas que se antipatizam por terem interesse pelo mesmo homem e em seguida acrescenta doses cavalares de misoginia ao criar, do nada, sequências que trazem três garotas sendo violadas pela líder da tribo, que, no clímax, volta a protagonizar uma sugestão gratuita de estupro.

Patético também nas tentativas do diretor de tentar fazer comentários políticos (a gag que encerra a projeção é ridícula e reacionária), The Green Inferno tropeça na obviedade do roteiro (a apresentação do colar da avó da protagonista é uma daquelas pistas que praticamente gritam por atenção) e pelo humor adolescente, já que, aos 41 anos, Roth já é bem velhinho para achar graça em uma garota sofrendo crise de diarreia explosiva no meio da selva. Por outro lado, a vilania de determinado personagem é tão absurda que acaba sendo empregada como piada recorrente, revelando novas dimensões a cada cena.

Povoado por atores pavorosos – o que talvez seja proposital, fazendo referência aos filmes originais -, The Green Inferno é um longa de extremo mau gosto, é verdade, mas também divertido por se reconhecer como tal. E caso Eli Roth faça terapia e aprenda a respeitar o sexo feminino, talvez até possa vir a realizar algo relativamente memorável algum dia.

Eu sei, sou um eterno otimista.

Observação: os créditos finais trazem as contas no Twitter de vários integrantes do elenco e da equipe técnica. Não sei se isto é algo inédito, mas é algo que me chamou a atenção e que tem potencial para se transformar em tendência.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2013.

11 de Outubro de 2013

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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