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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/09/2013 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora
Sony

O Ataque
White House Down

Dirigido por Roland Emmerich. Com: Channing Tatum, Jamie Foxx, Joey King, Maggie Gyllenhaal, James Woods, Jason Clarke, Richard Jenkins, Nicolas Wright, Jimmi Simpson, Michael Murphy, Rachelle Lefevre, Lance Reddick, Matt Craven, Peter Jacobson, Kevin Rankin.

Preso em um edifício tomado por ladrões (ou seriam terroristas?), o herói John tem que se preocupar não só em salvar a própria vida, mas também a da amada que se encontra entre os reféns. Comunicando-se eventualmente com os vilões e com um aliado externo através de walkie-talkie, ele se esconde sobre elevadores, em tubos metálicos e é obrigado a testemunhar os bandidos disparando mísseis contra veículos blindados que tentam invadir o local. Usando uma camiseta branca, John é a única pessoa capaz de impedir o elaborado plano dos criminosos, que eventualmente descobrem seu parentesco com a refém. Neste meio tempo, alguém perde o sapato, uma composição clássica surge na trilha e...

... eu confesso minha incapacidade de compreender como os responsáveis por O Ataque não foram processados por plágio pela Fox, detentora dos direitos sobre o excepcional Duro de Matar, já que praticamente cada ponto relevante daquele longa ressurge aqui no roteiro de James Vanderbilt (um sujeito que, com exceção de Zodíaco, só escreveu mediocridades como Bem-vindo à Selva, Violação de Conduta e O Espetacular Homem-Aranha). Óbvio do início ao fim, o filme traz um protagonista que, logo descobrimos, “tem potencial, mas não respeita a autoridade”, vive uma situação complicada com a filha (que, claro, o chama pelo nome em vez de “pai”) e enfrenta um grupo que conta com a presença de alguém descrito como “o rei dos hackers”. Assim, quando certo personagem conversa com a esposa, que do nada lhe pergunta se ainda carrega consigo o relógio de bolso que lhe deu presente, já antecipamos a resposta (“Sim, junto ao coração.”) e o que isto significará antes mesmo que a cena chegue ao fim.

Dirigido pelo rei dos filmes-desastre (oh, não, fui contaminado!), o alemão Roland Emmerich, O Ataque reflete a idiotice do roteiro nas decisões do cineasta que, acreditem ou não, já elogiei algumas vezes ao escrever sobre O Patriota, O Dia Depois de Amanhã e mesmo 2012. Aqui, porém, Emmerich faz jus a todas as críticas que costuma receber, exibindo um nível de estupidez alarmante – desde o plano que traz a Torre Eiffel estrategicamente situada ao fundo para que tenhamos certeza de que a primeira-dama se encontra em Paris até o instante em que um dos vilões atira num retrato de George Washington para que tenhamos certeza de que é um vilão. Além disso, a apresentação do presidente vivido por Jamie Foxx inclui vários personagens se entreolhando e sorrindo alegres diante das falas do sujeito, como se estivessem diante de um messias cujas palavras revelam, sem exceção, presentes de sabedoria ou, no mínimo, uma bondade inigualável.

Acertando ocasionalmente nas tentativas de humor (mas bem ocasionalmente mesmo), o projeto conta com dois atores que já provaram ter talento para a comédia, Channing Tatum e Jamie Foxx (este último, humorista profissional), mas que aqui ficam presos a piadinhas e tiradas óbvias que se tornam piores em função do timing forçado da montagem – como na cena em que o presidente derruba um lança-mísseis e inspira um protesto exagerado do herói, que subitamente se esquece de estar num filme de ação e parece acreditar ter entrado numa comédia rasgada. Aliás, é justamente esta indefinição de tom por parte de Emmerich que ajuda a enterrar a narrativa: em um momento, quer criar drama com a pesada imagem de uma arma apontada para a cabeça de uma criança; em outro, quer despertar risos através de gags escrachadas e artificiais (qualquer uma envolvendo o guia turístico da Casa Branca). Como se não bastasse, fica difícil criar alguma identificação com o esforço do protagonista para salvar sua filha quando esta ganha uma composição tão antipática por parte da jovem atriz Joey King, que parece querer forçar o espectador a torcer pela morte de sua personagem.

Frustrante ao criar situações tensas que são resolvidas de maneira preguiçosa (como no instante em que um dos capangas ouve algo sobre o elevador, mas simplesmente deixa a questão para lá sem investigá-la), O Ataque ainda não vê problema em trazer o herói fugindo de balas na base da correria em várias cenas – e se isto é um clichê até aceitável (ou inevitável) em um ou dois instantes, a repetição da dinâmica apenas ressalta o absurdo da convenção. Para piorar, os efeitos visuais que percorrem a projeção são pouco mais do que adequados, especialmente nas sequências que envolvem ataques aéreos, caças e helicópteros, ao passo que o design de produção faz um bom trabalho ao recriar os vários ambientes da residência presidencial, diferenciando com eficiência os diversos aposentos e alas do edifício.

Pecando também em seu aspecto moral, O Ataque ainda se desdobra para agradar a todos os lados do espectro político: inicialmente, celebra a natureza pacifista do presidente, trazendo para o centro da trama sua proposta para um acordo de paz no Oriente Médio, mas hipocritamente celebra a imagem do sujeito com metade do corpo para fora de um carro e disparando mísseis como ícone do heroísmo – um instante que é comemorado, no filme, pelos jornalistas que cercam a Casa Branca.

Se O Ataque fosse uma obra minimamente inteligente, eu até lhe concederia o benefício da dúvida e sugeriria se tratar de uma crítica à glorificação da violência por parte da mídia, mas, considerando o nível do roteiro, só posso acreditar que esta glorificação cega e hipócrita parte dos próprios realizadores.

Perto deste longa, o similar Invasão à Casa Branca é um clássico moderno.

05 de Setembro de 2013

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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