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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
29/06/2012 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora
Paris Filmes
Duração do filme
104 minuto(s)

Para Roma, Com Amor
To Rome With Love

Dirigido por Woody Allen. Com: Woody Allen, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Alison Pill, Robert Benigni, Judy Davis, Alessandra Mastronardi, Ellen Page, Greta Gerwig, Penélope Cruz, Flavio Parenti, Fabio Armiliato, Alessandro Tiberi, Riccardo Scamarcio, Antonio Albanese, Ornella Muti.

Há três décadas que Woody Allen vem mantendo a inacreditável média de um filme lançado por ano – e o último que não contou com um novo longa foi 1981, quando o cineasta deixou uma raríssima lacuna entre seu excepcional Memórias e o bom Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão. Desde então, Allen vem demonstrando ser um realizador absurdamente prolífico – uma característica que, infelizmente, acabou resultando numa clara irregularidade nos projetos lançados de 2001 em diante (e até hoje seu O Escorpião de Jade representa, ao lado de Scoop – O Grande Furo, um de seus piores esforços). Adotando a Europa como palco de suas novas histórias depois de uma vida ambientada em Nova York, Allen cria, em Para Roma, com Amor, uma colagem de narrativas que, mesmo não sendo particularmente engraçadas ou tocantes, conseguem encantar ocasionalmente através da melancolia e do charme intelectualizado de seu autor. Não é, claro, um de seus grandes filmes – mas isto não impede que, aqui e ali, o diretor crie alguns belíssimos momentos que nos fazem lembrar por que jamais devemos subestimá-lo.

Depois de uma breve introdução cujo único papel é amarrar as pontas do filme com um narrador mutável, criando alguma estrutura para uma narrativa recortada, o roteiro de Allen nos apresenta à jovem Hayley (Pill), que, em viagem turística à Itália, conhece o advogado ativista Michelangelo (Parenti). Logo, os pais da moça, Jerry e Phyllis (Allen e Davis), viajam para Roma e Jerry, um diretor de ópera aposentado, fica encantado ao ouvir a voz de tenor de Giancarlo (Armiliato), pai de Michelangelo – até que percebe que o sujeito só consegue cantar sob o chuveiro. Enquanto isso, em outro ponto da cidade, o arquiteto Jack (Baldwin) despede-se da esposa para fazer um passeio solitário pelo bairro no qual morou quando jovem – e lá conhece John (Eisenberg), um estudante que o leva para conhecer sua namorada Sally (Gerwig), cuja amiga Monica (Page) acaba de chegar dos Estados Unidos, despertando o interesse do rapaz e levando Jack, cuja natureza discutirei adiante, a aconselhá-lo. Já numa terceira história, passamos a acompanhar o desinteressante Leopoldo (Benigni), que subitamente se vê alçado à fama sem compreender exatamente a razão, ao passo que, na última trama criada por Allen, vemos um jovem casal que, chegando a Roma, se separa momentaneamente levando a uma série de confusões: enquanto ele (Tiberi) recebe parentes que confundem a prostituta Anna (Cruz) com sua esposa, a moça (Mastronardi) se envolve com um renomado astro do cinema italiano.

Não é difícil perceber que muitas destas histórias soam como conceitos formulaicos, típicos de uma sitcom – e é bastante provável que a maioria destes tenha sido resgatada de uma gaveta de ideias descartadas pelo cineasta ao longo dos anos. Ainda assim, logo alguns temas recorrentes passam a ser identificados em Para Roma, com Amor: além de trazer pessoas comuns vivendo fantasias particulares (o encontro com um astro; a fama súbita; o reconhecimento nos palcos), o filme estabelece claros paralelos entre aqueles indivíduos ao retratar a entrega de muitos deles aos impulsos sexuais e o medo que sentem do arrependimento futuro tanto em relação ao que fizeram quanto ao que deixaram de fazer. Igualmente interessante é notar como, de alguma forma, todos (com exceção do personagem do próprio Allen) parecem aprender algo com as experiências vividas, surgindo mais amadurecidos ao final de suas trajetórias – o que não deixa de ser uma postura otimista do realizador.

Assim, é uma pena que várias das ideias apresentadas por Woody acabem soando mal desenvolvidas durante o filme: é interessante, por exemplo, perceber sua crítica a uma sociedade cada vez mais obcecada com a fama e que parece premiar a mediocridade de pessoas que se tornam célebres simplesmente em função da disposição de exporem a própria intimidade – uma discussão que Allen limita à repetição aborrecida do choque vivido pelo personagem de Benigni diante do escrutínio público e que, para piorar, decide soletrar em um monólogo óbvio e dispensável feito pelo motorista do sujeito. Como se não bastasse, a conclusão do cineasta é decepcionante em sua fragilidade e obviedade: a fama é algo bom – exceto quando não é.

Mas se não deixa de ser divertido reencontrar Roberto Benigni, um comediante com incrível talento para o humor físico, rever Woody Allen de volta à sua velha persona é um prazer difícil de ser superado: e aqui ele prova manter seu velho timing cômico enquanto dispara falas carregadas de neuroses e inseguranças, ganhando um contraponto divertido na secura da esposa vivida por Judy Davis. Enquanto isso, Penélope Cruz não se acanha em interpretar uma figura que depende apenas de sua atordoante beleza e sensualidade para funcionar – e, considerando sua figura capaz de encher como ninguém um vestido apertado, é espantoso que ainda assim seja apenas a segunda atriz mais bela do elenco, já que a italiana Alessandra Mastronardi, dona de um rosto irretocável, ainda seduz com a timidez da insegura Milly.

O que nos traz a Alec Baldwin e à melhor das narrativas presentes em Para Roma, com Amor, quando vemos seu personagem revisitando o passado e tentando aconselhar, com sua experiência acumulada ao longo de anos, sua versão jovem encarnada por Jesse Eisenberg – uma fantasia, creio, universal. Capaz de perceber de imediato os jogos de sedução promovidos por Monica e ciente de como estes afetam o rapaz, Jack parece ao mesmo tempo tentar alterar seu passado e celebrá-lo, já que foi graças a este que pôde amadurecer e se tornar o homem que é agora. (O que me faz lembrar de uma fala de A Chave do Enigma dita por Jake Gittes, personagem de Jack Nicholson: “Alterar o passado é tão impossível quanto esquecê-lo”, uma constatação óbvia, mas não por isso menos verdadeira.) E se há um grande momento neste longa é aquele que traz Monica expondo sua verdadeira natureza enquanto Allen enfoca, num breve plano, o olhar triste, mas sereno de Baldwin ao constatar aquilo que já sabia ser inevitável acontecer.

Conseguindo um resultado interessante, mesmo que falho, ao investir numa montagem que salta atrapalhadamente de uma história a outra ao mesmo tempo em que cria uma cronologia fluida que cobre passagens de tempo diferentes para cada uma delas, Para Roma, com Amor falha ao não explorar a capital italiana de maneira orgânica, usando-a apenas como cenário turístico para tramas que poderiam ser ambientadas em qualquer lugar (ao contrário do que ocorria em Match Point, Vicky Cristina Barcelona e Meia-Noite em Paris, por exemplo). Ainda assim, é admirável que Woody Allen se mostre capaz de amarrar tão bem narrativas de natureza tão díspares, oscilando entre a fantasia, a alegoria e o realismo com segurança absoluta.

Para você, a aposentadoria se equipara à morte!”, diz, em certo momento, a personagem de Judy Davis para o marido vivido por Allen – e é perfeitamente possível perceber que esta fala não só arma a piada que será disparada pelo sujeito, mas serve como uma confissão pessoal inquestionável. Se assim for, que o cineasta não se aposente jamais, pois, mesmo problemáticos, seus filmes ainda trazem um refinamento intelectual em seu humor cada vez mais raro em um universo de Tyler Perries, Adam Sandlers e, oh, Deus!, Rob Schneiders.

28 de Junho de 2012

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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