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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/11/2012 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Warner Bros.

Argo
Argo

Dirigido por Ben Affleck. Com: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Clea DuVall, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Tate Donovan, Victor Garber, Bob Gunton, Chris Messina, Philip Baker Hall, Michael Parks, Richard Kind.

Hollywood corroeu tanto a própria credibilidade ao produzir obras “inspiradas em fatos reais” que nada têm a ver com a realidade que, ao final deste Argo, o diretor Ben Affleck sente uma clara necessidade de exibir na tela parte do material de pesquisa utilizado para recriar os incidentes narrados em seu filme a fim de convencer o espectador de que tomou o menor número possível de liberdades criativas – e até mesmo um áudio do ex-presidente Jimmy Carter discutindo os acontecimentos é incluído pelo cineasta.

É compreensível. Além da já citada tendência do Cinema ao exagero (um eufemismo para “mentira”), a história recontada pelo roteiro de Chris Terrio a partir de um artigo de Joshuah Bearman traz elementos absurdos demais para que não duvidemos de sua veracidade: ambientado em 1979, quando manifestantes iranianos invadiram a embaixada norte-americana em Teerã (o que torna o longa atualíssimo, considerando os eventos recentes na Líbia), Argo acompanha os esforços do agente da CIA Tony Mendez (Affleck) para resgatar seis funcionários que escaparam durante os ataques, escondendo-se na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Garber). Ciente de que será apenas uma questão de tempo até que a inteligência iraniana descubra onde os foragidos se encontram, Mendez tem aquela que seria descrita como a “melhor má ideia” para resolver a situação, empregando a ajuda do maquiador John Chambers (Goodman) e do produtor Lester Siegel (Arkin) para simular a existência de uma produção de ficção científica interessada em usar o Irã como locação, o que justificaria sua entrada no país e a posterior fuga com os seis norte-americanos, que assumiriam os papéis de integrantes do projeto cinematográficos. O nome da tal produção? Argo.

Esforçando-se para evitar uma postura ufanista tão comum em produções do tipo (lembrem-se do repulsivo Falcão Negro em Perigo), o filme contextualiza a invasão à embaixada ao explicar o papel fundamental desempenhado pelos Estados Unidos na queda do presidente Mohammad Mosaddeq e sua substituição pelo sádico xá Reza Pahlevi, que prendia e torturava dissidentes e levou o país à miséria enquanto esnobava sua opulência – e o roteiro chega a exagerar ao trazer funcionários da CIA fazendo uma improvável autocrítica com relação às ações no Irã. A partir daí, o filme salta de Teerã a Los Angeles com fluidez enquanto acompanha os preparativos do protagonista, que ainda é obrigado a enfrentar não apenas disputas internas em sua própria agência, mas também a natureza implacável de Hollywood.

Neste sentido, Argo parece se dividir em dois filmes com atmosferas radicalmente diferentes: de um lado, há a urgência e a tensão das sequências no Irã, que lidam com as dúvidas e receios dos foragidos; de outro, a leveza e as piadas envolvendo as passagens em Los Angeles (uma diferença ressaltada pela boa fotografia de Rodrigo Prieto, que oscila entre a paleta dessaturada e fria de Teerã e as cores quentes e intensas da Califórnia). Aliás, é admirável observar a segurança com que Ben Affleck conduz a narrativa, continuando a se solidificar como um diretor excepcionalmente talentoso ao mesmo tempo em que expande seu universo, que até então se limitava a histórias ambientadas em sua Boston natal. Por outro lado, é inevitável que o longa perca um pouco de seu peso dramático em função do humor presente nas cenas em Hollywood, o que é uma pena.

Contando com um elenco coeso (e carregado de figuras vindas da televisão, como Bryan Cranston, Tate Donovan, Kyle Chandler e Richard Kind, entre outros) que Affleck explora com eficiência, Argo cria uma narrativa ambiciosa e complexa ao lidar com um grande número de personagens sem criar muita confusão na mente do espectador – e é lamentável, portanto, que algumas ideias acabem sendo mal exploradas, como o óbvio alcoolismo do protagonista ou a relação entre os personagens de Goodman e Arkin, que parecem apenas oferecer alívio cômico ao filme (algo que fazem admiravelmente bem).

Eventualmente se entregando aos exageros dramáticos que parece tão ansioso para negar, Argo tropeça também na artificialidade do clímax, que atira uma série de obstáculos improváveis no caminho do herói apenas para acentuar a tensão - mas quando isto ocorre, o filme já ofereceu tantos bons momentos que se torna fácil perdoar o equívoco de seu cada vez mais promissor realizador.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio de 2012.

3 de Outubro de 2012

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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