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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Marcelo Brennand

Porta a Porta - A Política em Dois Tempos
Porta a Porta - A Política em Dois Tempos

Dirigido por Marcelo Brennand.

Com uma população de 50 mil eleitores, a cidade de Gravatá, em Pernambuco, se transforma no palco de uma acirrada disputa política sempre que as urnas se preparam para receber os votos que definirão os representantes locais – uma briga que se torna ainda mais intensa durante as eleições para prefeito e vereador, já que esta envolve dois grupos rivais, os “azuis” e os “vermelhos”, que disputam ferrenhamente cada eleitor do município. Acompanhando a campanha ocorrida em 2008, quando 117 candidatos disputaram as dez vagas para a Câmara de Vereadores da cidade, o cineasta Marcelo Brennand ilustra, neste seu interessante Porta a Porta, um microcosmos dos grandes enfrentamentos políticos nacionais dos últimos anos.

Exibindo figuras locais pitorescas que não se acanham em fazer promessas como “uma festa por mês” e “levar o time da cidade para a segunda divisão do campeonato brasileiro”, o documentário logo de cara expõe o modo corrompido como todo o processo se desenvolve, já que, mesmo diante das câmeras, vários candidatos e eleitores surgem discutindo acertos que nada mais são do que uma descarada compra e venda de votos – desde a promessa de emprego na futura administração municipal até ajudas financeiras para a aquisição de materiais de construção. Aliás, a própria lógica da eleição já leva a uma distorção profunda de toda a campanha, que se converte em uma verdadeira indústria: basta considerar que, gerando nada menos do que 5.000 empregos diretos e indiretos na cidade, o processo eleitoral em Gravatá acaba se tornando fonte de renda de incríveis 10% do número total de votantes.

Beneficiado pelo acesso obtido junto a um dos principais concorrentes a uma vaga de vereador, o cineasta consegue observar com detalhes as negociações e estratégias da equipe que compõe as campanhas, desde os principais coordenadores até a militância que, supervisionada pelos cabos eleitorais, bate de porta em porta solicitando votos para seus candidatos/chefes – e quando alguém discursa dizendo que toda a multidão presente em um comício está ali por “vontade própria”, sem ter sido paga para isto, é difícil não constatar a contradição óbvia representada pelos “uniformes” usados pela maior parte dos participantes.

Aliás, outro ponto forte de Porta em Porta diz respeito ao esforço do diretor de ouvir um grande número de candidatos, sendo triste perceber a retórica vazia empregada pela maioria destes em suas apresentações (e igualmente deprimente é perceber como os humildes eleitores são facilmente manipulados por esta mesma retórica). Para completar, Brennand ainda ilustra a insatisfação da população local com o prefeito que se encontra há oito anos no poder e que deixou de realizar obras básicas de saneamento – mas que, ainda assim, aposta em eleger seu sucessor, chegando ao absurdo de inaugurar a viga de uma ponte a duas semanas do pleito (e é patético ver o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, participando de um comício e elogiando os “feitos” de um prefeito claramente tão incompetente).  

Infelizmente, porém, Brennand também tropeça bastante como diretor – e seu erro mais grave talvez resida na estrutura do documentário, que subitamente salta para um ano depois das eleições a fim de ilustrar o destino de alguns personagens, revelando, no processo, o resultado do pleito de maneira anti-climática. Assim, quando a narrativa retorna para antes do dia da votação, o espectador já conhece os dois desfechos principais, sabendo quem será o novo prefeito e também se o candidato acompanhado pelo filme conseguiu a vaga de vereador ou não – algo que diminui nosso interesse pela “historinha” que move o longa. Para piorar, o cineasta ainda introduz um personagem que considera importante, um certo Carlinhos, já quase no fim da projeção, quando já é tarde demais para que o público invista emocionalmente em novas figuras (e, com isso, Porta em Porta perde o ritmo justamente quando deveria estar em seu clímax).

Falhando também na questão mais óbvia do documentário, o diretor acaba se esquecendo de revelar, em seu desfecho, quem afinal, foram os dez vereadores eleitos na cidade – e teria sido irônico, por exemplo, constatar que o tal “Vagalume”, que surge contando vantagem em vários momentos ao considerar sua eleição como algo certo, ficou de fora da lista de vencedores.

Uma informação que só descobri posteriormente ao me deixar levar pela curiosidade e entrar no site oficial da Câmera de Vereadores de Gravatá. Um impulso que, apesar de seus problemas, foi inspirado por este bom documentário.

27 de Outubro de 2010

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de SP 2010.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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