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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 5 / 5 / 5
Distribuidora

O Atleta
Atletu

Dirigido por Davey Frankel, Rasselas Lakew. Com: Rasselas Lakew, Dag Malmberg, Ruta Gedmintas, Abba Waka Dessalegn.

A primeira coisa que chama a atenção em O Atleta, forte pré-candidato da Etiópia ao Oscar 2011, é sua estrutura narrativa, que flui com uma naturalidade admirável entre passado e presente e entre imagens de arquivo e encenações com atores. Dirigido por Davey Frankel e Rasselas Lakew (que também encarna o personagem-título em várias seqüências), o filme celebra a vida do maratonista etíope Abebe Bikila, que em 1960 se tornou o primeiro africano a ganhar a medalha de ouro na desgastante prova que serve como clímax das Olimpíadas ao enviar corredores de todo o mundo em uma corrida de 42 quilômetros. Correndo descalço em Roma e se tornando bicampeão em Tóquio, em 64, Bikila se converteu num ídolo em seu continente – e, assim, quando abandonou a corrida no México, em 68, certamente sentiu o peso da responsabilidade por supostamente desapontar seus admiradores.

Ao contrário da maior parte das cinebiografias, porém, O Atleta não se interessa em acompanhar a trajetória do corredor desde a juventude até sua coroação em um grande evento; em vez disso, o filme tem início depois que Bikila já venceu suas duas maiores disputas e sofreu sua maior frustração esportiva, passando a acompanhar o personagem enquanto este se prepara para uma tentativa de retorno nas olimpíadas de Munique, em 72 – um objetivo que acaba sendo destruído quando, ao retornar à sua cidade depois de mais uma sessão de treinamentos, o atleta sofre um acidente de carro e se torna paraplégico.

Empregando as interações de Bikila com as pessoas que cruzam seu caminho durante sua viagem e, posteriormente, no hospital, O Atleta oscila entre passado e presente de forma elegante e orgânica, muitas vezes criando interseções inesperadas entre épocas diferentes – como na seqüência em que o jovem corredor deixa a casa de um parente e desce um morro, revelando um pequeno carro que cruza a estrada à distância e que transporta justamente sua versão já adulta. Da mesma maneira, os cineastas criam transições belíssimas entre suas reencenações e as imagens de arquivo, destacando-se o momento em que Bikila, em 69 e vivido pelo ator-diretor Lakew, ultrapassa um ônibus que magicamente remete ao veículo similar visto na cena documental que traz o verdadeiro corredor em uma maratona anos antes.

Com uma fotografia soberba capturada por quatro profissionais e que explora ao máximo as imponentes paisagens da Etiópia, O Atleta é um filme que constantemente leva o espectador a prender a respiração em função das maravilhosas imagens que exibe, desde planos-detalhe que enfocam garrafas de mel ou mesmo os tênis de Bikila até quadros amplos que descortinam vales que se estendem por quilômetros sem fim. Enquanto isso, os dois montadores empregam uma lógica fascinante ao freqüentemente saltarem no tempo enquanto os diálogos da cena anterior continuam a ser ouvidos por vários segundos, convertendo-se, assim, numa narração em off orgânica que oferece explicações importantes para o espectador sem que isto soe expositivo ou artificial, numa estratégia econômica e elegante – e que, tematicamente, ainda remete ao fato do protagonista corredor estar sempre à frente de todos, já que as imagens não esperam nem mesmo o som que deveria acompanhá-las.

Homem de incrível determinação e com um espírito competitivo que o leva a se dedicar, por exemplo, ao arco-e-flecha mesmo sem ter força nos braços e nas mãos para segurar o equipamento (o que o obriga a improvisar luvas que o ajudem na tarefa), Abebe Bikila surge, em O Atleta, como um indivíduo cuja expressão sempre séria e concentrada talvez não faça jus à alma gentil que representa – e que se revela uma inspiração não só para o povo africano, mas para a raça humana de modo geral.

29 de Outubro de 2010

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de SP 2010.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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