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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Bloomington
Bloomington

Dirigido por Fernanda Cardoso. Com: Sarah Stouffer, Allison McAtee, Katherine Ann McGregor, Erika Heidewald.

Produção norte-americana escrita e dirigida pela brasileira Fernanda Cardoso, Bloomington é uma obra que, mesmo leve em sua atmosfera, constrói uma narrativa que nos apresenta a duas personagens intrigantes e complexas que, a partir de um relacionamento surpreendentemente doce em sua origem, acaba levando a um processo intenso e doloroso de auto-descoberta e amadurecimento.

Ex-estrela mirim de uma série de ficção de sucesso na TV, a atriz Jackie (Stouffer), agora iniciando sua fase adulta, decide deixar Hollywood em busca da realização pessoal e se matricula numa faculdade localizada o mais distante possível da Califórnia. Enquanto tenta se adaptar à vida de estudante, a moça acaba se envolvendo com uma de suas professoras, a rígida Catherine (McAtee), conhecida por seduzir jovens alunas da instituição e que vive num casarão que recebeu de herança ao perder toda a família num acidente de avião.

Vivida com personalidade pela estreante Sarah Stouffer, Jackie é uma garota que fascina pelas contradições: ao mesmo tempo em que obviamente ressente ser tratada como estrelinha ou mesmo ser observada como uma aberração naquele ambiente estudantil, não hesita em aproveitar a fama para conquistar privilégios (ou, no mínimo, em não recusá-los) como o quarto exclusivo e com banheiro que desperta a inveja de seus colegas.  Distante da mãe, com quem mantém um relacionamento sempre tenso e repleto de ressentimentos, e atormentada pela morte daquele que encarava como um protetor (seu agente), Jackie se torna um alvo fácil para a sedução de Catherine, que a princípio surge quase como uma fantasia erótica: bela, inteligente, bem-sucedida e independente, ela não hesita em abordar a aluna em público – mas se isto pode soar implausível ou abrupto inicialmente, Cardoso logo reequilibra a narrativa ao encenar a primeira transa do casal com sensibilidade e incrível delicadeza (e é sintomática, a maneira com que Catherine insiste em perguntar se Jackie “está bem”).

Aliás, a cineasta revela sua inteligência já através da escalação da dupla principal: obviamente contrastantes em altura, McAtee e Stouffer soam menos como amantes do que como mãe e filha – algo ressaltado também pela dinâmica que logo estabelecem, já que Catherine não apenas assume o controle da relação como ainda surge dando banho na aluna e mesmo cortando a carne em seu prato. Educando a garota não só na cama, mas em seu posicionamento diante daqueles que a confrontam, a professora chega a buscar a amante-pupila em sua casa depois de uma briga familiar, sendo reveladora a maneira com que a convida a “voltar à escola”.

Mas não é apenas graças às boas atuações e à dinâmica psicologicamente intrigante estabelecida entre as personagens que Bloomington se destaca: dirigido com discrição por Cardoso, que toma imenso cuidado para encenar as orgânicas cenas de sexo com bom gosto, o filme ainda conta com uma montagem eficiente que, embora exagere nos fades aqui e ali, se destaca especialmente graças a momentos como aquele em que alterna entre as entrevistas de Jackie na Califórnia e a crise vivida por Catherine na universidade, que se intercalam através de elegantes raccords que conferem uma agradável fluidez à seqüência.

Sem jamais perder de vista o foco de sua narrativa, Bloomington é, no final das contas, um estudo de personagens inteligente e maduro que investiga duas mulheres que, mesmo amando-se e ferindo-se mutuamente, acabam crescendo justamente por se abrirem à influência uma da outra – e se Catherine finalmente se fragiliza ao permitir-se tocar por outra pessoa, tornando-se mais humana e sensível, Jackie descobre a própria força ao constatar que sempre esteve no lugar ao qual pertencia de fato. O grande mérito de Cardoso, porém, reside não necessariamente nesta conclusão, mas na sensível jornada que a precede.

24 de Outubro de 2010

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de SP 2010.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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