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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/09/2012 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora
Fox

Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros
Abraham Lincoln: Vampire Hunter

Dirigido por Timur Bekmambetov. Com: Benjamin Walker, Dominic Cooper, Anthony Mackie, Mary Elizabeth Winstead, Rufus Sewell, Marton Csokas, Jimmi Simpson, Erin Wasson, Alan Tudyk.

Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros parte, a princípio, de um conceito divertido e com grande potencial – e o fato de a história ser tratada como algo sério, sem investir claramente na comédia, é intrigante o bastante para merecer aplausos. Infelizmente, não adianta ter uma boa ideia se esta é desperdiçada por um roteiro pavoroso que, por sua vez, é trucidado por uma direção assustadoramente ruim. E é exatamente isto que ocorre nesta bomba que traz o nome de Tim Burton como produtor.

Adaptado por Seth Grahame-Smith a partir de seu próprio livro, o roteiro tem início nos dias atuais, mas apenas por alguns segundos, já que logo retornarmos a 1865 e, logo em seguida, a 1818, indicando de cara uma insegurança fatal de Grahame-Smith com relação à estrutura da história. Apresentando o espectador a um Lincoln ainda criança que testemunha a morte da mãe nas mãos (ou melhor: nos caninos) de um vampiro local, o filme salta alguns anos à frente (sim, eu avisei) para acompanhar o herói, agora um jovem adulto, enquanto este se prepara para matar a criatura. Falhando miseravelmente, ele acaba se envolvendo com o misterioso Henry Sturges (Cooper), dono de um segredo cuja natureza só não será óbvia para os espectadores em estágio terciário de sífilis. Treinado por Henry para se tornar um matador de vampiros, Lincoln eventualmente acaba conhecendo a bela Mary Todd (Winstead) e se torna amigo de Joshua Speed (Simpson), que, ao lado de Will Johnson (Mackie), ajudará o futuro presidente a combater as terríveis criaturas.

Mas vampiros são apenas mitos!”, você poderia dizer, caso tivesse uma inclinação por diálogos ruins e aceitasse repetir a fala que o protagonista solta ao ser informado sobre a existência destes seres pela primeira vez – e estaria errado(a), já que aqui os sugadores de sangue parecem estar infiltrados em praticamente todas as cidades norte-americanas. Enviado por Henry para Springfield, em Illinois, o sujeito passa as noites caçando seus inimigos com a ajuda do machado com o qual é capaz de partir uma árvore com um único golpe – uma habilidade que adquiriu ao ouvir o mestre vivido por Dominic Cooper dizer que “o verdadeiro poder não vem do ódio, mas da verdade” (o tal personagem se comunica como um livro de autoajuda do início ao fim da projeção).

Aliás, não é preciso ter lido o livro (e não li) para perceber que o trabalho de adaptação de Grahame-Smith basicamente consiste em transferir para o filme as partes que o sujeito considera mais relevantes, saltando de uma para outra sem se preocupar muito com a lógica ou com a coesão da narrativa. Assim, de repente Lincoln surge num pequeno barco ao lado de Joshua e Will, agora seus parceiros, e subitamente vemos Abraham iniciar e avançar em sua carreira na política até que abruptamente testemunhamos um aparente gesto de traição que é desajeitadamente seguido por uma sequência de ação a bordo de um trem – e se os personagens mudam de comportamento sem qualquer explicação aparente, somos obrigados a aceitar que agora são assim e pronto.

É por esta razão, diga-se de passagem, que a performance de Benjamin Walker é tão surpreendente, já que, mesmo vivendo um personagem caricatural e mal desenvolvido pelo roteiro é capaz de conferir certo carisma e peso a Lincoln, sendo auxiliado em sua caracterização pelo ótimo trabalho de maquiagem de Greg Cannom. Já os demais integrantes do elenco são facilmente derrotados pelo péssimo roteiro – e quando a bela Mary Elizabeth Winstead solta um inacreditável “Esperei anos para ouvi-lo dizer isso!”, podemos quase perceber o constrangimento da atriz diante de um diálogo que soa aleatório na trajetória de sua personagem. E se Jimmi Simpson surge apenas como um genérico de Christian Slater, Rufus Sewell até que se esforça para conferir veneno ao vilão Adam, mas sem sucesso. Enquanto isso, Anthony Mackie permanece preso a uma figura inexpressiva, o que não o impede de se sair melhor do que Dominic Cooper, que, como de hábito, representa um vácuo na tela.

No entanto, nada disso se compara ao trabalho de direção cometido pelo russo Timur Bekmambetov: se em O Procurado o sujeito conseguia divertir com seus excessos estilísticos, aqui ele se entrega de vez a estes, não conseguindo se conter nem mesmo ao enfocar uma simples conversa entre Lincoln e Henry, que é apresentada ao público através de cortes rápidos e posicionamentos confusos de câmera que impedem até mesmo que compreendamos a geografia de uma pequena sala. Já em outros instantes, não só o espaço da cena torna-se incompreensível, mas também a própria ação – e basta testemunhar o confronto entre Abraham e um vampiro depois que o primeiro cai em um alçapão para percebermos que Bekmambetov não tem a menor preocupação (ou a capacidade) de ilustrar os gestos do herói com o mínimo de clareza. Para piorar, o sujeito se mostra mais interessado em criar planos que explorem o recurso artificial do 3D, com chicotes e balas que saem da tela, do que em criar uma narrativa minimamente coesa ou envolvente – e nem mesmo as criaturas demoníacas criadas por Cannom podem ser apreciadas pelo público, já que os cortes frequentes impedem a existência de planos que se detenham mais do que um segundo sobre elas.

Prejudicado por efeitos visuais aparentemente criados por estagiários (a batalha sobre cavalos é um exemplo particularmente triste) e mergulhado numa paleta sépia que busca ressaltar o aspecto histórico da trama, mas sem grande eficácia, Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros é mais do que uma oportunidade desperdiçada; é um teste de paciência e resistência atirado sobre o espectador. E quando vi o machado do presidente (uia) sendo atirado para fora da tela em mais uma utilização adolescente do 3D, por alguns segundos torci para que me acertasse e colocasse fim àquela tortura – e estou certo de que o próprio Abraham preferiria voltar ao teatro naquela noite de abril de 1865 do que ter de assistir a este longa, já que o que Timur Bekmambetov faz a Lincoln é, de certa forma, mais cruel do que o tiro desferido por John Wilkes Booth.

06 de Setembro de 2012

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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