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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/02/2011 01/01/1970 3 / 5 2 / 5
Distribuidora

Bruna Surfistinha
Bruna Surfistinha

Dirigido por Marcus Baldini. Com: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Cristina Lago, Fabiula Nascimento, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra, Sergio Guizé.

Há um momento, ao fim do primeiro ato de Bruna Surfistinha, que merece desde já figurar entre os melhores planos de 2011: ao atender seu primeiro cliente, a personagem-título (vivida por Deborah Secco) mal consegue ocultar a dor que está experimentando enquanto o sujeito entra em seu corpo com um desespero quase animal. Porém, enquanto a câmera se mantém próxima do rosto da garota em um extenso plano sem cortes, seu olhar gradualmente substitui a dor por um ar decidido e forte – até que, finalmente, ela olha diretamente para a lente e para o espectador como se nos desafiasse a julgá-la por aquilo. É um instante icônico para a protagonista e que surge como a promessa de que o filme se mostrará igualmente inabalável em suas intenções – uma promessa que, infelizmente, revela-se falsa quando os realizadores passam a fazer tentativas desesperadas de estabelecer uma estrutura narrativa artificial e desnecessária que converte o filme em um amontoado de convenções.

Inspirado no livro da ex-prostituta e ex-atriz pornô Raquel Pacheco, que se tornou famosa ao descrever em um blog os programas que fazia com os clientes do dia, Bruna Surfistinha acompanha a trajetória da protagonista desde o momento em que abandona sua família (mãe, pai e irmão) até a decisão, anos depois, de largar a prostituição. No caminho, ela mora um bom período numa casa comandada pela cafetina Larissa (Moraes), conhece um cliente impossivelmente generoso (Gabus Mendes), ganha a mídia com seu blog, torna-se viciada em cocaína e se estabelece como a garota de programa mais célebre do país. Aliás, assim como todo blog pessoal, o longa se revela episódico na maior parte do tempo, saltando de uma passagem a outra na trajetória da garota sem se preocupar em criar um arco dramático reconhecível – e é só quando decide forçar um arco na história da personagem que o filme se perde de fato.

Mas o pior é que, arco ou não, o roteiro de José de Carvalho, Homero Olivetto e Antônia Pellegrino jamais consegue responder perguntas importantes acerca das motivações da protagonista, começando por sua decisão fundamental de se prostituir. Sim, há uma frieza clara em sua relação com o pai e o irmão, além de uma agressividade constante por parte deste último, mas nada que sugira uma dinâmica familiar infernal a ponto de empurrá-la para fora de casa (e o fato de ser adotada é atirado de maneira tão gratuita na história que, mesmo correspondendo à verdade, tampouco é o bastante para se apresentar como possível base de seu desconforto). Em vez disso, os roteiristas preferem se concentrar no aspecto mais peculiar da vida de Bruna – seu “talento” como prostituta -, buscando explicar por que ela atingiu tamanho sucesso junto à clientela: sua paciência ao conversar com os clientes, demonstrando interesse pelo que têm a dizer, e a disposição absoluta de atender a qualquer pedido que estes façam. (Além disso, há o fato de que, aqui, ela ganha o corpo e o rosto de Deborah Secco, o que, convenhamos, é um diferencial considerável.)

Secco, aliás, apresenta-se como uma protagonista capaz de carregar o filme com facilidade nas costas: desde sua cena inicial, quando encarna Raquel como uma adolescente tentando desajeitadamente exibir sensualidade diante da webcam, até sua conversão em mulher independente que sente um óbvio prazer no efeito que provoca nos homens, a atriz atravessa a projeção com segurança – e é notável perceber a tristeza nos olhos da garota durante a maior parte do tempo, mesmo quando surge sorrindo ou tentando se apresentar como uma adulta bem resolvida. Exagerando apenas pontualmente em sua composição (como no hábito de sentar-se sempre com as pernas escancaradas), Secco se mostra especialmente competente ao retratar a insistência de Raquel em manter-se livre das amarras que – acredita a garota - seriam impostas por qualquer um que lhe oferecesse “proteção”, mostrando-se hábil também ao sugerir o esforço de sua personagem em fazer um discurso eloqüente durante uma festa mesmo limitando-se a lugares-comuns de auto-ajuda e a clichês de retórica. (O que torna as ambições literárias de Raquel ainda mais patéticas e, conseqüentemente, capazes de inspirar a compaixão do espectador.)

Contudo, por melhor que Deborah Secco se apresente, acaba sempre sendo sabotada pelo roteiro problemático, mesmo que compense a falta de motivações da protagonista através de uma intensidade de interpretação que quase despista o vazio sobre a qual é construída. Apelando para uma narração em off absolutamente dispensável (e que quase destrói a belíssima cena citada no início deste texto, por exemplo), os roteiristas buscam sempre contar para o espectador o que se passa na mente de Raquel/Bruna em vez de permitirem que a narrativa se encarregue de desenvolver estes elementos por conta própria – e, assim, quando a garota tenta explicar que talvez o que tenha a empurrado para a prostituição tenha sido o desejo de provocar alguma reação nos pais, em busca de uma demonstração qualquer de sentimento, isto soa não apenas como psicologia barata, mas também como uma exposição artificial e risível.

Mas é mesmo a partir do final do segundo ato que o roteiro desmorona de vez ao tentar construir às pressas um arco estrutural do tipo “apogeu-decadência-fundo do poço-redenção”, apelando, assim, para uma mudança de comportamento súbita por parte de Raquel, que de um momento para outro surge como uma moça deslumbrada com a própria fama, brigando com todos aqueles que lhe são próximos, gastando rios de dinheiro e, de repente, passando a ser ignorada por todos. Com isso, em uma cena temos a personagem comemorando o aniversário em alto estilo apenas para, minutos depois, surgir fazendo programa nas ruas e cobrando 20 reais por cliente – embora, reparem, aparentemente continue a morar no caríssimo flat alugado anteriormente (e cujo condomínio, por si só, se encarregaria de sugar os ganhos de uns 50 destes “programas a preço de custo”). Desta forma, a estratégia do roteiro fica clara e percebemos que estas transformações repentinas estão apenas armando o caminho para que uma história de auto-superação surja magicamente no terceiro ato – algo para o qual os 80 minutos iniciais não pareciam apontar. Como se não bastasse, o personagem de Cássio Gabus Mendes surge como um clichê do “anjo da guarda” ou do “amor que esteve sempre ali perto, embora não identificado”) – e se não se torna uma convenção completa, isto se deve apenas ao seu intérprete, um ator carismático e capaz de evocar sempre uma doçura natural admirável (com exceção, claro, de sua aparição assustadora no excepcional Batismo de Sangue).

Divertindo pontualmente ao se concentrar nas peculiaridades dos clientes de Surfistinha (algo que, claro, foi o elemento principal que levou seu blog a fazer tanto sucesso), o filme do estreante Marcus Baldini consegue ser divertido quando assim deseja (como na cena em que Bruna e as companheiras saem raivosas de um salão de beleza) e também agradavelmente econômico quando o roteiro permite (como ao expor a natureza babaca de um colega de Raquel simplesmente ao mostrá-lo recebendo a garota pela garagem da casa a fim de exibir seus carros). Além disso, o talento da protagonista para a auto-promoção – e que, afinal, resultaria neste filme – também fica claro na maneira com que a moça vai construindo a persona “Bruna Surfistinha”, algo que sua intérprete ilustra com competência.

É lamentável, portanto, que a fraquíssima meia hora final comprometa tanto o resultado do longa, que também peca pelo moralismo decepcionante ao se esforçar para retratar Raquel como uma garota que, afinal, precisa ser “resgatada” daquela vida tão lamentável – como se toda garota de programa fosse, no fim das contas, uma moça com problemas psicológicos ou um passado traumático à espera de um príncipe encantado que possa salvá-la (e talvez seja por isso que o filme opte por ignorar as incursões de Surfistinha pelo universos das produções pornográficas).

Apelando para um plano final tolo que tenta amarrar a narrativa através de um último olhar para o passado de uma Raquel ainda “inocente”, “pura”, Bruna Surfistinha é uma produção com muitas virtudes (como as atuações homogêneas inspiradas pelo preparador de elenco Sérgio Penna), mas também com grande parcela de problemas (como os letreiros finais redutivos e novamente com cores moralistas). Ainda assim, é um filme interessante com uma protagonista que, além de bela, não desperdiça a oportunidade de mostrar que tem imenso potencial para se estabelecer como um nome forte também nas telonas. E prometo até mesmo esquecer A Cartomante se isto se confirmar. Ou ao menos tentar.

25 de Fevereiro de 2011

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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