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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
28/01/2011 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
98 minuto(s)

Direção

Sofia Coppola

Elenco

Stephen Dorff , Elle Fanning , Michelle Monaghan , Chris Pontius , Ellie Kemper

Roteiro

Sofia Coppola

Produção

Sofia Coppola

Fotografia

Harris Savides

Música

Phoenix

Montagem

Sarah Flack

Design de Produção

Anne Ross

Figurino

Stacey Battat

Direção de Arte

Shane Valentino

Um Lugar Qualquer
Somewhere

Dirigido por Sofia Coppola. Com: Stephen Dorff, Elle Fanning, Michelle Monaghan, Chris Pontius, Ellie Kemper.

Sofia Coppola é um filhote de Hollywood. Nascida e criada entre atores, diretores e técnicos de cinema, é perfeitamente natural que se sinta mais à vontade ao abordar histórias e personagens que girem em torno daquele universo que lhe é tão familiar – e não é à toa, portanto, que seu melhor filme até hoje, Encontros e Desencontros, gire em torno do isolamento emocional de um astro em visita ao Japão. Aliás, este seu novo longa, Somewhere, é essencialmente um irmão de alma daquele trabalho e, mesmo que não chegue a alcançar a complexidade do parente mais velho, é uma produção delicada e sensível que traz Coppola mais uma vez em um bom momento depois do pavoroso Maria Antonieta.

Resgatando Stephen Dorff do limbo no qual se encontra há alguns anos ao trazê-lo novamente como protagonista em um projeto de peso, Somewhere acompanha o cotidiano de Johnny Marco (Dorff), um astro do gênero ação que leva uma existência absurda (supostamente como todos os companheiros de profissão, sugere o filme): guiado constantemente por assistentes, ele vai de um lugar a outro de acordo com o que lhe ordenam, viajando para a Itália para promover um novo projeto ou se submetendo a uma pesada sessão de maquiagem sem questionar a agenda que lhe é imposta - numa postura infantilizada que reflete sua personalidade imatura. Fumando, bebendo, dormindo mal e se alimentando de forma descuidada, Marco parece de fato um adolescente sem supervisão, parecendo incapaz de cuidar de si mesmo – e é natural, portanto, que ao perceber que o pneu de seu carro furou, ele simplesmente ligue para o reboque e aguarde, submisso e incapaz, até que alguém venha ajudá-lo.

Por um lado, não é fácil ter pena ou simpatia pelo sujeito: encarnando o estereótipo do “pobre menino rico”, Johnny Marco leva uma vida privilegiada. E daí que, ao chegar em casa, ele descobre que seu apartamento encontra-se repleto de convidados que ali acamparam para uma festa não em função de sua presença, mas apesar desta? E daí que é tratado como uma criança por todos, sendo recompensado com afagos e elogios apenas por posar para fotos ou comparecer a um compromisso profissional? E daí que ele não precisa se esforçar nem mesmo para encontrar parceiras sexuais, já que as mulheres se oferecem a ele sem qualquer relutância? Sim, é uma vida inquestionavelmente vazia e sem propósito (o que fica especialmente claro quando ele assiste a um programa de tevê sobre Gandhi), mas não deixa de ser fruto de suas próprias escolhas e, assim, não é como se estivéssemos acompanhando as atribulações de um mendigo ou de um paciente terminal.

E justamente por isso é tão notável que Coppola consiga levar o espectador a se identificar com o sujeito. Sempre sozinho – mesmo quando cercado por uma multidão – e monossilábico, Marco pode ter a admiração daqueles que o observam de longe, como as fãs que elogiam sua aparência, mas, com uma ou outra exceção, é visto com desprezo e raiva por aqueles que realmente o conhecem (como atestam as mensagens agressivas que ele recebe pelo celular ou a recusa de sua ex-esposa de visitá-lo num momento de particular vulnerabilidade). Ainda assim – ou justamente por isso -, o ator parece sempre disposto a estabelecer novas relações de natureza superficial, como no instante em que recebe o sorriso de uma garota no trânsito e sai de seu caminho para segui-la até em casa - um desvio absurdo que a cineasta ilustra com competência em uma longa seqüência.

Coppola, aliás, demonstra uma sensibilidade admirável na condução da narrativa ao usar longos planos (uma tendência cada vez mais óbvia no cinema fora de Hollywood, diga-se de passagem) para estabelecer o cotidiano vazio de seu protagonista. Além disso, ela é hábil ao estabelecer paralelos relevantes, por exemplo, ao trazer Marco admirando duas strippers em seu quarto e, pouco depois, observando a filha (Fanning) patinar no gelo: concebidas de maneira similar em sua lógica, as duas cenas servem para contrastar a postura do sujeito diante de relacionamentos radicalmente diferentes, mas que, de uma maneira ou de outra, são constantes em sua vida. Para completar, Coppola cria um quadro belíssimo que, de certa forma, sintetiza o filme ao retratar o astro flutuando sem controle ou propósito na bela piscina de seu hotel, num instante poético e dramaticamente relevante.

Curioso por revelar a visão crítica que a diretora tem da imprensa (e não injustamente, já que a entrevista coletiva envolvendo o ator, infelizmente, reflete com precisão a dinâmica real destes eventos), Somewhere freqüentemente desenvolve suas idéias de maneira silenciosa, confiando na sensibilidade do espectador para perceber as intenções temáticas da narrativa. Reparem, por exemplo, o belíssimo plano que traz Marco e a filha deitados sob o sol, felizes e tranqüilos, e percebam como, ao abrir o quadro revelando que se encontram na piscina do hotel, Coppola comenta a superficialidade daquela comunhão, já que, embora felizes, pai e filha continuam a experimentar uma intimidade compartilhada com estranhos. Da mesma forma, é interessante perceber como a cineasta usa as brincadeiras da dupla sob a água para criar uma das únicas seqüências realmente leves e alegres da projeção, num simbolismo de purificação claro e apropriado.

Usando a profissão de Johnny Marco como uma metáfora de seu vazio interior (afinal, ele salta de um personagem a outro exatamente como, em seu dia a dia, salta entre relacionamentos igualmente descartáveis), o filme de Sofia Coppola é melancólico como Encontros e Desencontros, mas peca – ao contrário daquele – em seu desfecho bobo e infantil que pode até funcionar do ponto de vista simbólico, mas, na prática, soa tão tolo quanto a decisão de um adolescente de queimar dinheiro para provar seu desapego material.

Mas este é um tropeço menor se comparado à eficácia do restante da bela narrativa criada por uma diretora que, por sua própria experiência pessoal, certamente sabe bem do que está falando.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.

06 de Outubro de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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