Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/01/2004 03/10/2003 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
102 minuto(s)

Direção

Sofia Coppola

Elenco

Bill Murray , Scarlett Johansson , Giovanni Ribisi , Anna Faris , Akiko Takeshita , Catherine Lambert

Roteiro

Sofia Coppola

Produção

Sofia Coppola

Fotografia

Lance Acord

Música

Kevin Shields

Montagem

Sarah Flack

Design de Produção

Anne Ross

Figurino

Nancy Steiner

Direção de Arte

Mayumi Tomita

Encontros e Desencontros
Lost in Translation

Dirigido por Sofia Coppola. Com: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris, Akiko Takeshita, Catherine Lambert.

Depois de fazer grande sucesso durante a década de 70, o astro de cinema Bob Harris encontra-se em declínio e, assim, aceita protagonizar um comercial de uísque que será rodado no Japão. Impressionado com a quantidade de luzes e anúncios em Tóquio, o ator procura se ambientar à cidade, mas as diferenças culturais tornam sua estadia bem mais complicada - e, para piorar, Harris não consegue se adaptar ao fuso horário, passando as noites em claro. É então que ele conhece Charlotte, cujo marido, John, está em Tóquio para fazer algumas fotografias e que passa os dias sozinha no hotel. Juntos, eles decidem passear pela cidade e começam a conversar sobre suas inseguranças e frustrações.

Retratando os estranhos (para nós, ocidentais) hábitos japoneses, a diretora e roteirista Sofia Coppola (filha de Francis) explora o humor da situação sem, com isso, soar preconceituosa ou alienada. A graça do filme não é fruto de uma ridicularização do Oriente, mas da simples observação de que somos, sim, muito diferentes e que este choque de culturas pode resultar em situações constrangedoras para ambos os lados. Em contrapartida, Coppola se mostra impiedosa com o culto às celebridades, utilizando a personagem de Anna Faris, uma atriz americana fútil e egocêntrica, para criticar, entre outras coisas, a superficialidade da cobertura que a mídia faz das superproduções, publicando entrevistas que nada trazem de novo ou interessante (`Eu adorei trabalhar com Fulano...`; `Beltrano é um diretor maravilhoso!`). Vale dizer, aliás, que a cineasta já confessou ter se inspirado em Cameron Diaz ao criar a personagem (ela conheceu Diaz durante as filmagens de Quero Ser John Malkovich, que foi dirigido por seu marido Spike Jonze).

Interpretando o decadente Bob Harris com seu delicioso cinismo habitual, o sempre divertido Bill Murray cria o retrato comovente de um homem amargurado que se envergonha por ser obrigado a utilizar seu talento para promover um produto: `Estou ganhando dois milhões de dólares para fazer propaganda de uísque quando poderia estar fazendo uma peça`, diz o sujeito, reconhecendo que o dinheiro se tornou mais importante para ele do que a Arte em si. Neste contexto, a ironia contida na performance de Murray funciona em uma dimensão adicional, como se o personagem utilizasse o cinismo como disfarce para sua auto-reprovação e seu desconforto com a situação.

Com o olhar geralmente desiludido, Bob Harris ressente o distanciamento emocional que surgiu entre ele e a esposa, já que as únicas conversas do casal parecem girar em torno da reforma que estão fazendo em sua casa. Casado há 25 anos, o ator lamenta a frieza de sua companheira - e, quando ela percebe a tristeza em sua voz e pergunta `se deveria se preocupar com ele`, a resposta de Harris é maravilhosa, contendo várias leituras diferentes:

- Só se você quiser.

Assim, quando conhece Charlotte, o protagonista naturalmente é contagiado pela juventude e pela vivacidade da garota - e, mesmo levando a sério os problemas de sua amiga, ele não deixa de reconhecer que estes são questionamentos comuns a qualquer jovem, e que provavelmente serão solucionados com a simples passagem do tempo. Enquanto isso, Charlotte, que é formada em Filosofia e despreza a superficialidade exibida pelos amigos de John, é atraída pela experiência de Bob e também por sua melancolia, tão diferente da energia - puramente profissional - do marido. Como não poderia deixar de ser, logo surge uma tensão sexual palpável entre os dois - e esta tensão jamais soa forçada, mesmo com a óbvia diferença de idade entre Bill Murray e Scarlett Johansson, já que percebemos que a química do casal não vem apenas da atração física, mas principalmente do elo que surge entre os dois.

Aliás, a dinâmica que surge entre Murray e Johansson é perfeita, indicando o talento e a dedicação de ambos. E Coppola, uma cineasta que se mostra madura já em seu segundo longa-metragem, demonstra sensibilidade ao perceber que, apesar de já se sentirem deslocados muito antes de chegarem ao Japão, Bob e Charlotte só percebem isto quando são obrigados a enfrentar uma cultura diferente que, por reflexo, evidencia o desconforto de cada um com sua própria realidade.

Mas o momento-chave de Encontros e Desencontros surge (e talvez você não queira ler o restante deste parágrafo antes de assistir ao filme) quando Bob sussurra algo no ouvido de Charlotte, e Coppola não permite que o espectador compreenda o que está sendo dito. A beleza desta escolha é resultado de vários fatores: para começar, nada que fosse dito em voz alta conseguiria superar a profundidade do que permanece em segredo, já que Bob pode ter sussurrado qualquer coisa - e cada espectador pode imaginar o que bem entender (enquanto alguns certamente optarão por acreditar que o ator pediu que a moça lhe telefonasse ao voltar para os Estados Unidos, outros concluirão que ele, parafraseando Casablanca, disse algo como: `Sempre teremos Tóquio`). Além disso, ao concluir o misterioso discurso com um simples `Ok?` (que é respondido com outro `Ok.`), o filme deixa claro que o casal encontrou uma resolução para seu envolvimento, mesmo que esta resolução não seja aquela que desejavam. Finalmente, Sofia Coppola compreende que aquela última conversa é um momento particular entre seus protagonistas, não devendo ser invadida por ela ou pelo público.

Na realidade, seria um verdadeiro desrespeito a Bob e Charlotte se recebêssemos permissão de participar daquele instante de privacidade. E a corajosa opção da cineasta demonstra que, em primeiro lugar, sua fidelidade é devotada a seus personagens, e não ao espectador. E esta é, mais uma vez, a decisão correta.

``

29 de Outubro de 2003

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!