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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/11/2009 01/01/1970 3 / 5 3 / 5
Distribuidora

2012
2012

Dirigido por Roland Emmerich. Com: John Cusack, Chiwetel Ejiofor, Amanda Peet, Danny Glover, Woody Harrelson, George Segal, Thandie Newton, Oliver Platt, Tom McCarthy, Liam James, Morgan Lily, Zlatko Buric, Beatrice Rosen, Johann Urb, Jimi Mistry, Blu Mankuma, Henry O.

Roland Emmerich aprendeu bem as lições deixadas pelo produtor Irwin Allen, que, estabelecendo-se como o mestre dos filmes-desastre na década de 70, poderia perfeitamente ser considerado uma espécie de “pai espiritual” do diretor responsável por longas como Independence Day, Godzilla e O Dia Depois de Amanhã. Em primeiro lugar, é fundamental, em projetos como estes, escalar um elenco dominado por rostos conhecidos, já que, sem muito tempo para desenvolver os personagens (o foco está na destruição), esta é uma maneira fácil de estabelecer uma rápida ligação entre o espectador e as figuras unidimensionais que estão correndo na tela. Além disso, se todas as tragédias que acontecerão ao longo das duas horas seguintes resultarem em algum tipo de vitória para os protagonistas, o público deixará a sala de exibição feliz, já que: 1) sentirá que algo positivo foi alcançado mesmo que isto tenha custado a vida de milhões (aqui, bilhões) de pessoas; e 2) tenderá, claro, a se identificar com os sobreviventes, não com a maioria da população que foi esmagada no processo – numa lógica clara de “Naquela situação, eu também teria sobrevivido!”.

Escrito por Emmerich ao lado do compositor Harald Kloser (sim, compositor), 2012 usa o velho mito sobre a “previsão” feita pelo fim abrupto do calendário maia como ponto de partida para aquele que certamente será seu filme-desastre definitivo (já que sua única alternativa a partir de agora seria começar a destruir outros planetas): desestabilizado pelas maiores radiações solares da História, o núcleo da Terra passa a sofrer transformações que levam as placas tectônicas a se moverem radicalmente, levando consigo a crosta terrestre – ou algo neste sentido, já que nem eu nem Emmerich somos físicos (algo que fica claro logo nos minutos iniciais da projeção, quando até mesmo os cientistas criados pelo diretor se espantam com sua cara-de-pau ao dizerem que tudo aquilo é “impossível!”). Seja como for, a partir desta constatação, as autoridades mundiais passam a se preparar para a destruição inevitável do planeta enquanto somos apresentados ao núcleo principal da narrativa: uma família em crise.

Substituindo os personagens de Randy Quaid e Dennis Quaid em Independence Day e O Dia Depois de Amanhã (ao que parece, Buddy Quaid estava indisponível), John Cusack assume o papel de pai de família que, afastado dos filhos, procura se reaproximar enquanto o mundo literalmente desaba ao seu redor. Escritor e motorista de limusine (exatamente como Hemingway e Shakespeare), Jackson Curtis parte em um fim-de-semana com as crianças mesmo sabendo que seu filho mais velho provavelmente preferiria ficar em casa com a mãe e o padrasto – algo que Emmerich ilustra sutilmente ao mostrar o garoto jogando videogame e revirando os olhos cinco vezes dentro das órbitas ao ouvir as brincadeiras do pai. No entanto, depois de conhecer um radialista maluco que afirma que o governo está ocultando o iminente fim do mundo (Harrelson, sempre divertido ao encarnar tipos excêntricos), Curtis parte em resgate da família, revelando-se, no processo, o melhor motorista da História da humanidade – o que demonstra, aliás, que sua ex-esposa (Peet) sabe escolher seus maridos, já que seu atual companheiro, um cirurgião plástico (McCarthy), se revela o melhor piloto de avião da História embora tenha tido apenas algumas lições. E isto é bastante conveniente, já que, ao longo da projeção, acompanharemos diversas vezes estes personagens fugindo da destruição em seus carros e aviões.

Felizmente para eles, Emmerich é um conservador: seus personagens principais geralmente chegam vivos ao fim da projeção ou, no mínimo, são os últimos a se despedirem do espectador, o que se aplica também aos cachorros - ao passo que os coadjuvantes raramente têm a mesma sorte, como prova a pobre figura que, trancada num compartimento situado entre dois outros nos quais os astros se encontram, é a única a se afogar, já que, misteriosamente, sua câmara é inundada mais rapidamente do que aquelas que a cercam. No entanto, que ninguém acuse o diretor de falta de coerência interna, já que igualmente esquemáticos são seus diálogos (“Eu tenho as provas! Amanhã contarei toda a verdade para a imprensa!”) e suas construções de cena (como no instante em que uma garota decide confrontar o pai e liga a tevê justamente no instante em que a notícia que quer mostrar está começando a ser exibida). Além disso, Emmerich não nega suas raízes e, como bom alemão nascido do lado de cá do Muro, pinta seus personagens russos com as tintas mais grosseiras e caricatas que encontra – e é preciso ver os dois garotos gêmeos de 2012 para acreditar na visão impossivelmente unidimensional do cineasta.

Menos clara, em contrapartida, é sua posição religiosa – e não estou sendo irônico, acreditem. Se por um lado Emmerich encarna a perfeita presunção cristã dos norte-americanos ao conceber suas “arcas” e ao batizar o filho de Curtis de “Noah” (Noé), por outro é interessante observar como ele parece obcecado em destruir símbolos desta mesma corrente religiosa, desde o teto da Capela Sistina (separando Deus e o Homem ao mesmo tempo em que transporta a pintura de Michelangelo para a Basílica de São Pedro) até nosso Cristo Redentor (numa narração em português hilária). O que o diretor pretende dizer, afinal? Que a religião é um conforto vazio e sem sentido? Ou que devemos nos apegar a Deus e a Cristo? Ou, ainda, que o Cristianismo, imperfeito como é, permanece melhor do que qualquer outra corrente? É possível, claro, que Emmerich simplesmente não tenha pensado em nada disso, mas tudo soa proposital demais para que eu realmente acredite nisso – ou seria possível que o diretor simplesmente não tenha percebido a ironia da arrogância ofensiva do Presidente dos Estados Unidos (Glover) ao dizer que compreende as diferenças entre as diversas Fés, mas que está certo de que suas palavras seguintes conseguirão confortar todas as Religiões – apenas para iniciar um inacreditável “O Senhor é meu Pastor e nada...”? Se o cineasta não percebeu o que estava fazendo aqui, passo a ter várias dúvidas não só sobre seu Q.I., mas sobre sua sanidade de modo geral.

E eis que chegamos ao principal de 2012 – e àquilo que, para mim, redime a maior parte dos problemas da narrativa: a destruição da maior parte do planeta. Pois Emmerich pode não saber criar personagens, arcos dramáticos ou não ter idéia do tipo de mensagem que quer defender, mas o fato é que é um mestre ao arquitetar seqüências que giram em torno do colapso de estruturas gigantescas. Empregando vários e longos planos aéreos que enfocam a dimensão dos estragos, o diretor foge da cartilha Michael Bay de montagem ao permitir que o espectador consiga enxergar o que está acontecendo na tela. Orgulhoso de seus ótimos efeitos visuais e da tragédia que estes criam, Emmerich parece determinado a exibir orgulhosamente sua criação – e é inacreditável (e triste) que, neste sentido, o cineasta surja como um símbolo de comedimento, já que a tendência dos longas do gênero é seguir o estilo “quinze planos por segundo” de Bay.

Sugerindo uma discussão interessante sobre o legado cultural da Humanidade ao apontar que o fracassado livro de Curtis poderia se tornar parte desta herança apenas por acidente, 2012 também abandona esta idéia rapidamente em prol daquilo que realmente interessa ao seu diretor (a ação), o que representa mais uma frustração entre tantas despertadas pelo longa. Ainda assim, é difícil condenar Emmerich com muito vigor, já que, embora mais longo do que o ideal, o filme é eficaz naquilo que se propõe a fazer.

E se realmente quisermos extrair uma mensagem de 2012, há uma inquestionavelmente relevante que poderá inspirar debates infindáveis em faculdades e projetos acadêmicos: se a morte de seis bilhões de pessoas ajudar uma criança a abandonar as fraldas, não terá tudo valido a pena?

13 de Novembro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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