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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/02/2009 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

O Leitor
The Reader

Dirigido por Stephen Daldry. Com: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross,Susanne Lothar, Lena Olin, Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz.

Como uma nação pode se recuperar de uma tragédia como o Holocausto? Como um país pode se esquecer de que, em função de um profundo desejo nacionalista de recuperar o brilho do passado, acabou viabilizando o crescimento de um monstro incontrolável como o nazismo e, conseqüentemente, o extermínio de mais de seis milhões de pessoas? Pois é este arraigado sentimento de vergonha por parte do povo alemão no pós-Guerra (que, como argumentava o magnífico Julgamento em Nuremberg, deveria ser compartilhado pelo restante do mundo)  que move a trama deste O Leitor, cujo protagonista, um melancólico advogado, encerra em si mesmo toda a dor de seus conterrâneos em função de suas própria ações (ou inações) do passado.


Jovem estudante na Alemanha Oriental em 1958, Michael Berg (Kross) conhece por acaso a enigmática Hanna Schmitz (Winslet) ao ser ajudado por esta quando passava mal em função da febre escarlatina. Depois de curado, ele procura a mulher para agradecer pelo auxílio e, quando se dá conta, já está na cama com sua benfeitora, que, bem mais velha, o apresenta às maravilhosas possibilidades do sexo. O contraste entre aquela nova relação e a frieza com que é tratado por sua própria família logo leva Michael a se descobrir apaixonado por Hanna, que, antes de cada sessão na cama, pede que o rapaz leia algo para seu divertimento – textos que vão desde O Amante de Lady Chatterley (que a escandaliza e excita) até As Aventuras de Tintim. No entanto, depois que Hanna subitamente desaparece de sua vida, Michael se torna um indivíduo solitário e triste – e, quando anos depois, ele (já como estudante de Direito) reencontra a antiga paixão, deve lidar com o choque de descobrir que ela, uma ex-nazista, está sendo julgada por um terrível crime de guerra cometido quando era responsável por 300 prisioneiras judias.

Surgindo como uma promissora revelação neste seu primeiro trabalho em Hollywood, o jovem ator alemão David Kross constrói Michael como um garoto que, inicialmente, mal parece acreditar em sua própria sorte ao encontrar uma mulher experiente e bonita que se entrega a ele sem reservas. Tornando-se visivelmente mais seguro de si com o passar do tempo, ele ainda assim não consegue se livrar de sua velha fragilidade emocional, permitindo que sua carência afetiva transforme Hanna numa figura extremamente importante em sua vida e se submetendo, com isso, a uma inevitável decepção amorosa. Desta maneira, quando reencontramos Michael já como universitário, compreendemos imediatamente a origem de seu temperamento introspectivo e solitário, o que, conseqüentemente, se revela fundamental para que nos identifiquemos também com sua versão já adulta (Fiennes).

Enquanto isso, Kate Winslet cria uma figura completamente diferente da bem cuidada April de Foi Apenas um Sonho – e apenas o contraste brutal entre estas duas personagens encarnadas no mesmo ano já é o suficiente para reforçar a posição da atriz como uma das melhores de sua geração. Entregando-se como de costume ao papel, Winslet abandona o glamour ao surgir com as axilas não depiladas e ao estabelecer Hanna como uma mulher ignorante que usa o sexo como principal forma de comunicação com seu jovem e estudado amante (e como já se tornou comum em sua carreira, a atriz não demonstra qualquer restrição a surgir nua em cena, o que é fundamental para estabelecer a profunda intimidade física entre os dois personagens). Contudo, é o segredo da miserável mulher que a torna tão fascinante do ponto de vista psicológico - e não me refiro ao seu passado nazista, mas sim à sua vergonha em função de uma deficiência particular. Curiosamente, ao ser confrontada com seu antigo crime, Hanna não hesita em usar a clássica justificativa de ter seguido ordens – o que, em seu caso, não parece apenas uma desculpa para isentar-se de responsabilidade, mas sim uma crença absoluta, inabalável e chocante de ter agido da maneira correta (não moralmente, mas profissionalmente). Aliás, ao não perceber a gravidade das conseqüências de seu “zelo” como carcereira justamente por falta de bagagem intelectual, Hanna se revela – aos olhos de Michael e do espectador – como uma criatura simultaneamente digna de repulsa e pena.

E isto remete diretamente ao imenso sentimento de culpa do próprio povo alemão no pós-guerra (mais uma vez: assistam a Julgamento em Nuremberg, de 1961 - provavelmente o melhor filme já produzido sobre a questão): embora a maioria absoluta dos peixes pequenos acusados de colaboração com o regime nazista tenha usado a defesa do “cumprimento do dever” ou “das leis vigentes na época”, o fato é que, como bem coloca o personagem de Bruno Ganz (cuja presença cria um eco forte com A Queda - As Últimas Horas de Hitler), há uma diferença fundamental entre a Lei e a moralidade. Assim, os julgamentos do pós-guerra simultaneamente serviam como uma purgação desta culpa interna e como uma dolorosa alfinetada no orgulho alemão – especialmente porque os mesmos países que agora atuavam como juízes e carrascos haviam cometido bárbaros crimes de guerra em Hiroshima e Nagasaki (isto para não citar os bombardeios em Tóquio e Dresden).

Mas, em última instância, o julgamento de figuras como Hanna era uma acusação contra todo o povo alemão, que, no mínimo, cometera o crime de omissão ao não se interessar pelo que ocorria nos campos de concentração. E é precisamente neste aspecto que a ação de Michael durante o julgamento da ex-amante reflete esta imensa responsabilidade: atordoado ao perceber que aquele misterioso romance do passado retornara como uma chocante realidade, o rapaz ainda se vê levado a processar a própria mágoa pelo abandono que experimentara – e sua decisão crucial no sentido de revelar ou não uma determinada evidência que poderia inocentar (ou, no mínimo, atenuar a culpa de) Hanna é uma questão que remete às atitudes da moça (e de tantos alemães) durante a Segunda Guerra.

Estes dilemas enfrentados pelos personagens de O Leitor, aliás, representam indubitavelmente o ponto forte do filme escrito por David Hare a partir do livro de Bernhard Schlink (que não li). Infelizmente, o cineasta Stephen Daldry, talvez não confiando na força de seu tema, emprega uma série de recursos narrativos que enfraquecem a discussão através da artificialidade e/ou do melodrama – como a longa seqüência que ilustra a visita de Michael a um campo de concentração e que, além de desnecessária, soa como exploração barata do terrível sofrimento experimentado pelas vítimas de Hitler. Além disso, a bela fotografia de Roger Deakins e de Chris Menges peca justamente pela admirável plasticidade, já que se esforça para glamourizar as cenas de sexo protagonizadas por Michael e Hanna quando, na realidade, estas nada têm de belas ou “cinematográficas”, já que, a rigor, representam momentos de tristeza, solidão e vergonha.

Convertendo-se num homem amargurado em função de seu primeiro e mais marcante relacionamento amoroso, Michael (também encarnado com sensibilidade por Fiennes) sofre por sua incapacidade de fazer aquilo que Hanna revela fazer tão bem: evitar pensar no passado. E, com isso, vive eternamente a angústia de saber que, como tantos alemães (e norte-americanos e britânicos e russos e...), cometeu o terrível pecado de saber e nada fazer a respeito, esquecendo-se de que a fronteira entre a omissão e a cumplicidade é perigosa e traiçoeiramente tênue.

07 de Fevereiro de 2009

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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