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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/04/2006 07/04/2006 2 / 5 / 5
Distribuidora

Irma Vap - O Retorno
Irma Vap - O Retorno

Dirigido por Carla Camurati. Com: Marco Nanini, Ney Latorraca, Fernando Caruso, Thiago Fragoso, Marcos Caruso, Leandro Hassum, Arlete Salles, Carvalhinho, Francisco Milani, Miguel Magno, Pedro Henrique, Marieta Severo, Paulo Betti, Diogo Vilela, Louise Cardoso, Pedro Bial.

 

O Mistério de Irma Vap, espetáculo teatral com texto de Charles Ludlam e estrelado por Marco Nanini e Ney Latorraca, permaneceu 11 anos em cartaz e foi visto por mais de 3 milhões de pessoas em todo o país. Sucesso indiscutível, conta com algo raro entre as produções do teatro brasileiro: uma enorme base de fãs que certamente teriam imenso prazer em assistir a uma adaptação para o Cinema (além, é claro, daqueles que não tiveram a oportunidade de ver o espetáculo, mas conhecem sua fama). Infelizmente, não é isto que Irma Vap – o Retorno oferece: em vez de levar o divertido e despretensioso trabalho de Ludlam para as telas, o filme investe numa trama sem graça e presunçosa que, sob a desculpa de servir como homenagem ao teatro, esquece de ser Cinema.

           

Escrito pela diretora Carla Camurati, Adriana Falcão (A Máquina) e Melanie Dimantas (O Outro Lado da Rua), Irma Vap – O Retorno já abre com uma desajeitada brincadeira metalingüística que, apesar de bobinha, não incomoda tanto quanto deveria, já que ainda não sabemos que ela é um prenúncio da bagunça que virá a seguir: nesta breve abertura, vemos a cineasta ao lado dos dois protagonistas agradecendo os patrocinadores do filme e, em seguida, ouvimos os três sinais que anunciam o início do “espetáculo”. A partir daí, somos apresentados ao produtor teatral Otávio Gonçalves (Marcos Caruso) que, ao lado de Lula (Hassum), filho de seu falecido sócio, decide remontar O Mistério de Irma Vap. O problema é que os direitos da peça pertencem a Tony Albuquerque (Nanini), que protagonizou a versão original durante vários anos ao lado de Darci (Latorraca), mas que agora se encontra “temporariamente paralítico” em função de um misterioso acidente de carro. Os produtores, no entanto, convencem a irmã de Tony, Cleide (Nanini) a ceder os direitos – algo que ela faz falsificando a assinatura do irmão e com a condição de que possa participar dos ensaios, que serão dirigidos justamente por Darci. O que ninguém sabe é que Cleide mantém Tony isolado do mundo e o maltrata constantemente e...

           

Hein? Sim, se você disse O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, acertou em cheio: o relacionamento entre Tony e Cleide, que representa a maior parte de Irma Vap – O Retorno, é escancaradamente inspirado no filme estrelado por Joan Crawford e Bette Davis – algo que o próprio Tony admite em certo momento. A pergunta é: o plágio deve ser perdoado apenas porque foi admitido por quem o praticou? Seja como for, a estratégia resulta equivocada, pois se a trama já não funciona muito bem nem no original (que não envelheceu nada bem), aqui, então, torna-se um desastre: Cleide é patética e trágica demais para que possamos rir de suas ações, mas, ao mesmo tempo, fica difícil levar seu amor pelo jovem Leonardo (Fragoso) a sério, já que sabemos que ela é interpretada por um homem (e, afinal, não estamos lidando com um romance homossexual).

           

Por outro lado, é admirável que Marco Nanini consiga transformar Cleide em uma figura interessante, considerando-se as questões discutidas acima – o fracasso pertence ao filme, que não se ajusta ao absurdo da personagem, e não à brilhante performance do ator. Aliás, as caracterizações de Nanini e Latorraca, que vivem vários personagens ao longo da projeção (incluindo aqueles da peça de Ludlam), são quase sempre convincentes – a exceção fica por conta de Dona Odete, mãe de Darci, que parece apenas um Barbosa de peruca; funcionaria bem na televisão, mas não no Cinema.

           

Mas excelentes atuações não são um consolo muito grande quando o tom da narrativa parece atirar para todos os lados, buscando a comédia, o drama, o suspense, mas resultando apenas em uma farsa chata e esgotada – algo que o compositor Guto Graça Mello tenta disfarçar através de uma trilha cômica excessiva e, conseqüentemente, irritante. Enquanto isso, Carla Camurati assume uma abordagem teatral incômoda, já que, em vez da câmera mergulhar na ação, é a ação que é forçada a se adequar ao olhar da câmera, o que resulta em momentos que ferem a lógica interna do próprio filme: durante os ensaios da peça, por exemplo, há instantes em que Thiago Fragoso e Fernando Caruso surgem dizendo suas falas não em direção à platéia, mas para a “coxia”, onde encontra-se a câmera (se esta fosse realmente a marcação do espetáculo, Darci seria um péssimo diretor, já que um ator cobriria o outro, impedindo que o público o visse). Como se não bastasse, Camurati segue a escola Daniel Filho de merchandising: além dos agradecimentos iniciais, ela inclui os logotipos de todas as empresas nos créditos iniciais (a opção padrão, que deveria ter sido a única adotada) e, para tornar tudo ainda mais constrangedor, ainda inclui uma cena pavorosa e intrusiva na qual Cleide mantém um diálogo com o funcionário de um dos patrocinadores.

           

Soando mais como um projeto autocongratulatório, Irma Vap – O Retorno pode até ser moderadamente divertido para quem assistiu à peça, mas, ainda assim, é impossível deixar de constatar que as cenas em que partes do espetáculo são apresentadas se tornam os melhores momentos do filme. Assim, por que não abandonar a fraca trama envolvendo os bastidores de uma possível remontagem e partir para uma adaptação direta do texto de Charles Ludlam? Medo de que a teatralidade da montagem não se traduza bem para o Cinema? Ora, se fosse assim, por que deveríamos assumir que o resultado seria diferente apenas porque Nanini e Latorraca, ainda travestidos, agora vivem personagens diferentes daqueles vistos na peça? A teatralidade, afinal, mantém-se presente – e, de fato, compromete o longa.

 

E se parte da graça do espetáculo residia na rapidez com que os atores mudavam de roupa para assumirem outros personagens, talvez a solução para Irma Vap – O Retorno fosse adotar uma abordagem similar à de Mike Figgis em Timecode ou Sokurov em Arca Russa e rodar o filme em um único plano. No mínimo, Camurati ganharia pontos extras pela coragem.
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07 de Abril de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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