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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/08/2005 13/07/2006 5 / 5 / 5
Distribuidora

2 Filhos de Francisco
2 Filhos de Francisco

Dirigido por Breno Silveira. Com: Ângelo Antônio, Dira Paes, Dablio Moreira, Marcos Henrique, Márcio Kieling, Thiago Mendonça, Paloma Duarte, Natália Lage, Jackson Antunes, Lima Duarte e José Dumont.

Normalmente, quando uma celebridade cuja área de atuação nada tem a ver com Cinema resolve protagonizar ou produzir um filme, o projeto acaba por revelar-se como: a) fruto da vaidade (Sandy & Júnior, Angélica; b) um caça-níqueis (Xuxa, Elvis Presley; ou c) um esforço de catequização ou propaganda (Padre Marcelo). Assim, quando descobri que 2 Filhos de Francisco tinha a frase `A História de Zezé di Camargo e Luciano` como subtítulo, esperei o pior – e, quando as luzes da sala de exibição se apagaram, dei um suspiro longo e desanimado. Duas horas depois, ao sair do cinema, eu havia rido, chorado e torcido desesperadamente pelos protagonistas: posso até não ser fã das músicas da dupla, mas certamente passei a admirar sua trajetória profissional. E o mais importante: sou obrigado a reconhecer que este é, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes do ano.

Escrito por Patrícia Andrade e Carolina Kotscho, o roteiro acompanha os esforços de seu Francisco, um humilde agricultor que cultiva um terreno cedido pelo sogro, para oferecer um futuro melhor para os vários filhos de seu casamento com a paciente Helena. Fã incondicional da música caipira de raiz, Francisco conclui que a opção mais promissora para seus garotos reside na formação de uma dupla sertaneja – e, para realizar este sonho, faz inúmeros sacrifícios pessoais para comprar instrumentos, ensaiar os filhos e levar a família para a `cidade grande`.

Apesar de abordar um longo período da vida de seus heróis, 2 Filhos de Francisco conta com uma narrativa fluida, jamais soando episódico – uma verdadeira proeza em um projeto desta dimensão. Retratando aqueles que parecem ser os momentos mais marcantes da jornada daquela família, o roteiro foge do melodrama mesmo quando a oportunidade se apresenta (e há vários incidentes ao longo da história que certamente se prestariam a isso). Sensíveis e competentes, Andrade e Kotscho compreendem que os percalços enfrentados pelos personagens são dramáticos por natureza, não precisando de um reforço artificial para alcançarem um efeito maior.

Enquanto isso, o diretor estreante Breno Silveira demonstra uma enorme segurança ao conduzir a narrativa, empregando os recursos técnicos à sua disposição com inteligência e discernimento: percebam, por exemplo, como ele contrasta o silêncio e a calma das cenas ambientadas no interior com o som ensurdecedor e a câmera nervosa que atordoam o espectador quando a família Camargo se muda para a cidade (aliás, o trabalho de mixagem da produção é impecável, evitando, entre outras coisas, que as vozes dos atores durante as seqüências musicais pareçam ter sido gravadas em estúdio, o que as tornaria artificiais). Além disso, a fotografia adota, na primeira metade da projeção, cores de tons arenosos, ressaltando a ligação dos protagonistas com a terra, com o campo, tornando-se mais frias a partir do momento em que estes passam a morar em Goiânia.

Mas Silveira também se revela um excelente diretor de atores, já que as atuações vistas em 2 Filhos de Francisco são uniformemente eficazes, dos figurantes aos principais, passando pelo elenco secundário (Jackson Antunes dá um show à parte em sua única cena). Aliás, fiquei particularmente encantado com as performances dos jovens Dablio Moreira e Marcos Henrique, que interpretam Zezé e Emival na infância: demonstrando uma imensa naturalidade, eles possuem uma química invejável, estabelecendo uma dinâmica que acaba se tornando o centro do filme. E não é à toa que, a partir do momento em que os atores mais velhos assumem os papéis, a produção acaba sofrendo um pouco em função da saída da dupla. (Márcio Kieling e Thiago Mendonça, que vivem Zezé e Luciano na fase adulta, também são competentes – embora o sotaque carioca do primeiro escape ocasionalmente – e se parecem muito com os `originais`, mas não contam com a mesma química de Moreira e Henrique.)

Mas o elenco veterano também não decepciona: Dira Paes está encantadora como de costume como Helena e Lima Duarte dá o seu recado mesmo com poucos minutos em cena. Porém, o destaque entre os atores adultos fica mesmo por conta de José Dumont e Ângelo Antônio. Com relação ao primeiro, nem preciso falar muito, pois já disse em algumas ocasiões e faço questão de repetir: Dumont é um dos melhores atores da história de nosso Cinema. Aqui, por exemplo, ele cria uma figura que, ao mesmo tempo em que desperta desconfiança, conquista inegavelmente nossa simpatia. Cínico e picareta, Miranda é um personagem que se torna tridimensional graças ao carisma e ao talento de José Dumont, que também responde por alguns dos momentos mais divertidos do longa (ao mostrar uma foto de revista na qual supostamente aparece, ele explica: `Eu sou esse que está atrás, em primeiro plano.`).

Ângelo Antônio, por sua vez, encarna Francisco de forma extremamente calorosa e verdadeira, demonstrando que `rígido` e `carinhoso` são dois adjetivos que podem conviver harmoniosamente. Aliás, o ator já mereceria todos os prêmios do mundo apenas pela belíssima cena em que, mesmo morando em um barracão com chão de terra batida e repleto de goteiras, Francisco consegue encantar os filhos ao brincar com algo que, para eles, é pura novidade: uma lâmpada elétrica. 2 Filhos de Francisco, vale dizer, é recheado de momentos como este, nos quais sutis detalhes de interpretação constroem todo um significado na mente do espectador (observem, por exemplo, a primeira conversa entre Zezé e Zilu e percebam como, nervosos, os dois surgem ofegantes em função da mera presença um do outro).

Sim, o filme tem seus errinhos: o merchandising de um certo banco, em particular, constrange pela ostentação; e é frustrante perceber que um determinado plano em que vemos Zezé gravando em um estúdio foi reutilizado em uma montagem que, cronologicamente, não justifica sua presença (ele usa as mesmas roupas ao gravar seu disco solo e, mais tarde, ao produzir um álbum ao lado do irmão – um descuido irritante por parte do ótimo montador Vicente Kubrusly). Além disso, há momentos, ao longo do terceiro ato, em que a narrativa escorrega no melodrama que evitara com tanto cuidado até então (como na cena em que Luciano diz: `Esta é pra você, Emival!`).

Ainda assim, vou relevar estes tropeços, já que 2 Filhos de Francisco tem duas coisas que faltam à maioria dos filmes produzidos atualmente: coração e alma. A humanidade de sua história é tamanha que, quando os verdadeiros Zezé di Camargo e Luciano surgem na tela, o espectador se sente recompensado mesmo que não seja fã da dupla. Depois de toda aquela jornada, nós queremos... melhor, precisamos vê-los e ouvi-los ao lado da família e dos fãs. Eles se tornaram merecedores de nossa atenção, de nosso carinho e, principalmente, de nosso respeito.
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18 de Agosto de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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