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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/02/2006 03/02/2006 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Capote
Capote

Dirigido por Bennett Miller. Com: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Bruce Greenwood, Bob Balaban, Amy Ryan, Mark Pellegrino, Allie Mickelson.

 

Em certo momento de Capote, o personagem-título, que está trabalhando em um livro que relatará o massacre de uma família numa cidadezinha do Kansas, afirma que sua obra será considerada o melhor trabalho de não-ficção da década – uma declaração megalomaníaca que já seria questionável caso o livro estivesse pronto, mas que se torna ainda mais espantosa se considerarmos que, naquele momento, ele ainda não havia escrito uma única página. No entanto, nada poderia ser mais típico de Truman Capote do que aquele ato de irrestrita auto-confiança e presunção: prestigiado pelo sucesso de seu Breakfast at Tiffany’s (logo adaptado para o Cinema), o escritor se transformara em figurinha fácil nos altos círculos da sociedade nova-iorquina, tornando-se ainda mais requisitado graças aos seus modos excêntricos e à língua ferina. E a verdade é que ele não apenas estava correto como, de certa forma, subestimou o alcance que seu livro teria: lançado em 1965, A Sangue Frio alterou radicalmente o formato do gênero, levando o próprio Capote (como não poderia deixar de ser) a alegar que inaugurara um novo estilo, o “romance de não-ficção”. Exagero ou não, o fato é que A Sangue Frio tornou-se um clássico instantâneo, originando, dois anos depois, um filme espetacular dirigido por Richard Brooks e protagonizado por um genial Robert Blake.

           

No entanto, se o drama narrado por Truman Capote em seu livro tem uma força inquestionável, o processo de realização do trabalho não fica para trás: levando seis anos para finalizar a obra, o escritor se entregou totalmente ao projeto, tornando-se próximo do policial designado para investigar o assassinato da família Clutter, Alvin Dewey (aqui vivido por Chris Cooper), e, posteriormente, estabelecendo um relacionamento íntimo com os próprios assassinos, Perry Smith (Collins Jr.) e Richard Hickock (Pellegrino) – especialmente com o primeiro, com quem criara uma identificação profunda, já que ambos tiveram infâncias particularmente difíceis. Envolvendo-se até mesmo na defesa dos criminosos, Capote fez freqüentes visitas ao corredor da morte a fim de entrevistá-los – uma experiência que viria a alterar dramaticamente o curso de sua vida e que é retratada com sensibilidade por este filme.

           

Pois o roteiro de Capote (escrito por Dan Futterman a partir do livro de Gerald Clarke) não se preocupa particularmente com o crime bárbaro cometido por Smith e Hickock, mas sim com o envolvimento entre o personagem-título e os dois homens e, é claro, com o processo de criação da obra-prima, que exigiria um alto preço de seu autor. Inicialmente interessado apenas em escrever um relato sobre o impacto que o massacre teria sobre a pequena comunidade de Holcomb, Truman Capote viu seus planos se alterarem assim que conheceu Perry Smith, concluindo que havia uma história muito mais interessante por trás da existência trágica do sujeito: “É como se tivéssemos crescido na mesma casa e, um dia, ele tivesse saído pela porta de trás e eu, pela da frente”, explica o escritor em certo momento, evidenciando a irresistível atração que nutria pelo assassino.

           

No entanto, um indivíduo racional e cínico como Capote jamais dedicaria tanto tempo e esforço a um projeto apenas em função de uma “simpatia”: mesmo genuinamente interessado em Perry, Truman não hesita em descrevê-lo como sendo uma “mina de ouro”, um objeto de estudo que certamente lhe renderia um ótimo material. “Quando penso em como meu livro pode ser bom, quase perco o fôlego”, admite o autor, consciente do que tem em mãos e disposto a enfrentar qualquer obstáculo que cruze seu caminho, como, por exemplo, a imensa reserva (aliás, uma quase hostilidade) com que é recebido na pequena cidadezinha do conservador Sul norte-americano, onde sua afetação (ele era homossexual assumido numa época em que isto era visto como escandaloso) lhe rendia inimigos instantâneos – e sua grande sorte foi poder contar com o auxílio providencial da amiga Harper Lee, que logo publicaria seu próprio clássico literário (e futura obra-prima cinematográfica), O Sol é Para Todos.

           

Magnificamente interpretado pelo sempre ótimo Philip Seymour Hoffman, habitué dos filmes de Paul Thomas Anderson, Truman Capote revela-se uma figura muito mais complexa e interessante do que poderiam sugerir seus maneirismos absurdos, sua voz inacreditável e sua dicção característica. Extremamente inteligente e culto, Truman possui uma sensibilidade artística proporcional somente ao seu ego gigantesco - e mesmo se esforçando para capturar a essência de Perry Smith a fim de retratá-lo não como um monstro, mas como fruto inevitável de uma vida recheada de infortúnios, o protagonista jamais perde de vista seus próprios interesses: quando percebe que o sujeito não está disposto a contar o que realmente aconteceu na casa dos Clutter naquela noite fatídica, por exemplo, Truman o ataca em seu ponto mais vulnerável:  o orgulho que Perry tem de sua própria inteligência e de seu vocabulário. Já em outro momento, Capote confidencia suas frustrações da juventude a uma garota, levando Harper Lee a fazer um leve aceno desaprovador com a cabeça: ela sabe que o amigo está sendo sincero quanto ao que diz, mas não quanto às razões para dizê-lo, já que quer apenas ganhar a confiança da moça a fim de levá-la a lhe fornecer informações – e Philip Seymour Hoffman encarna estas várias facetas do personagem com delicadeza exemplar.

           

Enquanto isso, Clifton Collins Jr. retrata Perry Smith com igual intensidade, transformando-o na figura trágica tão bem descrita pelo livro de 65: cantor frustrado e desenhista talentoso, Smith compensa sua baixa estatura e a fragilidade das pernas (gravemente feridas em um antigo acidente) com um temperamento explosivo e imprevisível, além de manifestar um orgulho desmedido por sua formação cultural, sem perceber (e como poderia?) que seu vocabulário acima da média não consegue disfarçar uma visão terrivelmente simplória do mundo – e seu discurso final, que resgata uma passagem de seu diário, é simultaneamente patético e comovente. Aliás, Collins Jr. oferece uma performance que nada deixa a desejar com relação à de Seymour Hoffman, destacando-se particularmente na cena que culmina naquela que é a fala mais arrepiante do livro, do filme de 67 e, mais uma vez, desta produção, quando descreve sua opinião acerca do sr. Clutter: “Eu achei que ele era um senhor gentil; e continuei a pensar assim até o momento em que cortei sua garganta”. Por outro lado, Catherine Keener, embora eficiente como Harper Lee, é eclipsada pelos dois colegas de elenco, além de ter pouco tempo em cena (sua indicação ao Oscar é, portanto, injustificada; Robin Wright Penn merecia a vaga por sua cena em Nove Vidas).

           

Em seu segundo trabalho como diretor, Bennett Miller assume uma postura discreta, concentrando-se nas atuações e procurando estabelecer um tom constantemente (e corretamente) frio e melancólico: além dos vários planos gerais nos quais explora (ao lado do diretor de fotografia Adam Kimmel) o isolamento da cidade de Holcomb, o cineasta mantém as vozes de seus atores sempre numa modulação baixa e reservada. Além disso, Miller dedica atenção especial à recriação de detalhes da história, como a notória sessão de fotos organizada por Capote e a presença, no corredor da morte, do estudante de Medicina que matara toda sua família. Neste sentido, Capote falha apenas ao evitar a questão delicada do envolvimento sexual entre o protagonista e Perry Smith, já que é praticamente certo que Truman subornou vários carcereiros para poder ficar a sós em diversas ocasiões com seu amante-entrevistado. Em contrapartida, o filme acerta ao estabelecer o envolvimento emocional entre os dois homens, que encontra seu ápice na última conversa que mantém, quando Miller finalmente (e, mais uma vez, acertadamente) adota uma câmera inquieta que reflete a intensidade do momento (e Seymour Hoffman já mereceria o Oscar apenas por sua atuação nesta cena).

           

A grande tragédia da experiência de Truman Capote ao escrever A Sangue Frio encontra, ali, sua explicação definitiva: embora apaixonado por Perry Smith, o escritor era ainda mais apaixonado por si mesmo e, assim, sabia que precisava sacrificar o outro a fim de chegar a uma conclusão apropriada para seu relato, já que os constantes adiamentos da execução de Smith e Hickcock eram um inconveniente irritante. Mas, em sua arrogância inconseqüente, Truman se esqueceu de que estava sujeito, como qualquer outra pessoa, a se tornar vítima de um sentimento poderoso: a culpa. Para imortalizar-se com A Sangue Frio, ele paradoxalmente destruiu a si mesmo, jamais se recuperando dos anos que dedicou ao livro.

           

Durante a introdução de seu relato, Capote explica que narrará uma tragédia que custou a vida não apenas dos quatro membros da família Clutter, mas também de seus dois assassinos. O que ele não imaginava, na época, era que a soma chegaria a sete, sendo que ele próprio, Truman Capote, se tornaria a vítima final da cadeia de acontecimentos originada pelos quatro tiros disparados na fria madrugada de 15 de novembro de 1959.
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19 de Fevereiro de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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