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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
21/01/2005 17/12/2004 3 / 5 3 / 5
Distribuidora

Desventuras em Série
Lemony Snicket`s A Series of Unfortunate Events

Dirigido por Brad Silberling. Com: Jim Carrey, Emily Browning, Liam Aiken, Kara Hoffman, Shelby Hoffman, Timothy Spall, Billy Connolly, Meryl Streep, Catherine O’Hara, Luiz Guzmán, Jennifer Coolidge, Jane Adams, Craig Ferguson, Jude Law, Cedric the Entertainer, Jane Lynch, Dustin Hoffman.

A primeira coisa que Lemony Snicket explica para o espectador, em sua narração de abertura de Desventuras em Série, é a natureza `desagradável` da história, que, segundo ele, seria intensa demais para aqueles que querem apenas ouvir aventuras bonitinhas como O Mais Feliz dos Elfos. Infelizmente, o longa não faz jus às expectativas criadas por seu narrador: Desventuras em Série é interessante e funciona como um bom passatempo, mas não está muito longe de ser tão `bonitinho` quanto o tal filme do elfinho cantarolante que abre a projeção. Em nenhum momento sentimos que há uma ameaça real pairando sobre o destino dos protagonistas, ao contrário do que ocorre, por exemplo, na série Harry Potter (em especial, A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban).

Aliás, a comparação com a franquia protagonizada pelo bruxinho é mais do que apropriada, considerando-se que as aventuras dos irmãos Violet, Klaus e Sunny também já deram origem a uma série bem-sucedida de livros (até agora, são 11 – dos quais, confesso, não li nenhum) que investem em um universo fantástico e em personagens absurdos, mas simpáticos. Além disso, os irmãos Baudelaire também são órfãos cujos pais foram mortos em circunstâncias misteriosas e que acabam sofrendo nas mãos de parentes cruéis – neste caso, o sombrio Conde Olaf. Percebendo que o tal vilão quer matá-los para ficar com a fortuna que herdaram dos pais, os jovens Baudelaire utilizam suas habilidades para enfrentar os planos do sujeito: Violet é uma inventora talentosa, Klaus é um leitor ávido que tem a capacidade de se lembrar de tudo que aprendeu nos livros e Sunny... bom, Sunny adora morder as coisas.

Como não poderia deixar de ser em uma superprodução ambientada em um mundo fantasioso, Desventuras em Série é irrepreensível do ponto de vista técnico: a fotografia é belíssima, os figurinos são impecáveis e os cenários tiram o fôlego do espectador com sua grandiosidade (o destaque fica por conta da casa de tia Josephine, que se ergue a centenas de metros sobre o mar apoiada apenas em frágeis pilares). Misturando elementos de época e contemporâneos, Desventuras em Série parece se passar em um universo atemporal, o que confere um charme adicional ao projeto.

É lamentável, portanto, que o filme apresente um grave problema de tom: apesar de insistir em afirmar sua natureza sinistra (o narrador frisa este aspecto diversas vezes), a história é recheada de personagens engraçadinhos cujas excentricidades buscam mais o riso do que o arrepio – para constatar este fato, basta acompanhar as legendas que traduzem os sons feitos por Sunny, e que são tão bobinhas que não chegam sequer a ser engraçadas, revelando-se totalmente dispensáveis, já que não desempenham função alguma (nem mesmo cômica, como expliquei). Outros exemplos desta condição essencialmente simpática de Desventuras em Série residem nos personagens vividos por Billy Connolly e Meryl Streep, cujas manias e paranóias, que à primeira vista poderiam gerar momentos mais sérios, logo se revelam inofensivos e – sim - divertidos.

O que falta ao projeto, portanto, é um sentimento de ameaça real, algo que nos faça temer pela segurança dos protagonistas – função que deveria ter sido desempenhada pelo vilão de Jim Carrey. Infelizmente, o ator (que admiro imensamente) e o diretor Brad Silberling erram na composição do personagem, investindo excessivamente em seu lado cômico e esquecendo-se de que, com isso, estavam eliminando todo e qualquer sentimento de urgência que a história poderia – e deveria – despertar no público (no único momento mais sério da trama, o sujeito desfere um tapa no rosto de Klaus, mas só). Fã de Lon Chaney, um dos primeiros mestres da maquiagem para Cinema (em certo instante, ele aparece lendo uma revista que traz o rosto do ator estampado na capa), Conde Olaf é um intérprete canastrão que utiliza vários disfarces em suas tentativas de enganar os irmãos Baudelaire – que sempre o identificam imediatamente, para sua grande frustração. Assim, rapidamente percebemos que Olaf é tão ameaçador quanto o Coiote que insiste em perseguir o Papa-Léguas; é um vilão cartunesco, um Dick Vigarista mais ambicioso.

Mas não é só um vilão que falta ao longa; os heróis também se distanciam demais do espectador para que possam criar algum tipo de ligação com o público. Sempre entregues à melancolia, Violet e Klaus são tão introspectivos que jamais permitem que os conheçamos um pouco melhor – e a única cena em que os dois expressam seus sentimentos é breve demais para corrigir este problema. É claro que torcemos pelos três irmãos, mas apenas porque reconhecemos racionalmente que eles merecem derrotar seus inimigos; porém, não investimos nossos sentimentos na trajetória dos protagonistas, e isto cria um vácuo emocional na experiência de acompanhá-la.

A verdade é que Desventuras em Série precisava de um diretor capaz de criar um clima autenticamente sombrio. Brad Silberling é hábil em simular o tom gótico e bizarro de filmes como Edward Mãos-de-Tesoura e O Estranho Mundo de Jack, mas, por mais autêntica que uma cópia da Mona Lisa possa parecer, haverá sempre algo faltando – o toque especial do artista. Aqui está um projeto que praticamente implorava para ser comandado por Tim Burton. E, por mais que goste de Jim Carrey, devo admitir que o Conde Olaf seria muito mais eficaz (embora talvez não tão engraçado) se fosse vivido por um ator que reconhecesse a necessidade de salientar o lado grotesco do personagem.

Em outras palavras: a dupla Tim Burton-Johnny Depp se sentiria em casa nesta franquia.

Observação: Não deixe de conferir os créditos finais do filme, que são fabulosos.
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21 de Janeiro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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