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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/09/2003 22/05/2002 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Irreversível
Irréversible

Dirigido por Gaspar Noé. Com: Vincent Cassel, Albert Dupontel, Monica Bellucci, Jo Prestia, Philippe Nahon e Stéphane Drouot.

Irreversível é um filme que incomoda desde o início – ou eu deveria dizer `final`? A primeira coisa que surge na tela são os créditos de encerramento, que, como se não bastasse, vão gradualmente `entortando`, o que cria uma forte sensação de desconforto no espectador. Além disso, durante boa parte do primeiro ato, a câmera parece girar incontrolavelmente, impedindo que vejamos claramente o que está acontecendo. Não é à toa que, em todas as exibições desta produção, várias pessoas acabam abandonando a sala antes da metade da projeção.

E isto é uma pena, já que Irreversível é absolutamente genial. Apesar de contar uma história bastante simples (mulher é estuprada e seu namorado parte em busca de vingança), o filme se torna fascinante ao usar o mesmo recurso utilizado em Traição (1983) e Amnésia, narrando a trama em cronologia inversa, ou seja: começando na vingança e terminando em um período anterior ao estupro. Assim, quando encontramos Marcus (Vincent Cassel) pela primeira vez, somos levados a acreditar que o sujeito é um indivíduo animalesco, tamanho seu ódio. Porém, à medida em que vemos a raiva do personagem ser gradualmente `desconstruída`, percebemos que ele é uma pessoa comum, e que sua ira é fruto de uma tragédia - o que nos leva à inevitável conclusão de que, conforme as circunstâncias, qualquer um de nós poderia exibir aquele tipo de comportamento. E o cineasta Gaspar Noé é hábil ao ilustrar a confusão mental de seus protagonistas justamente através da movimentação de sua câmera – e, com isso, os quadros vão ficando mais estáveis à medida em que Marcus e seu amigo Pierre (Albert Dupontel) vão se `acalmando` (o que se revela um recurso inteligentíssimo).

Mas a fluidez da câmera não funciona apenas como `termômetro` do estado psicológico dos personagens; a intensa movimentação dos quadros permite, também, que Noé crie belas transições no tempo e no espaço: no tempo, em função do retorno cronológico da narrativa, que é muitas vezes realizado através de cortes ocultados pela constante movimentação; e, no espaço, graças às fusões que se tornam imperceptíveis também através do movimento intenso (em certo momento, por exemplo, a câmera mergulha no interior de uma ambulância, passando, em seguida, para um camburão – e somos levados a acreditar que tudo foi feito em uma tomada contínua, o que não é verdade). Aliás, Irreversível é repleto de planos-seqüência (longas tomadas sem cortes) memoráveis, como aquela em que a câmera, inicialmente situada no banco dianteiro de um automóvel, parece sair do carro (que se encontra em alta velocidade) e focalizar os passageiros no banco traseiro, voltando a entrar pela janela dianteira momentos depois.

No entanto, este longa não é apenas um prodígio técnico, já que o cineasta utiliza a trama para fazer curiosas indagações morais e sociais: logo no início da projeção, por exemplo, entramos em uma boate gay que chega a assustar pela depravação ali promovida (e percebam que costumo me considerar um sujeito liberal). Enquanto busca informações, Marcus interroga vários clientes do estabelecimento (cuja decoração remete ao Inferno) e é recebido com respostas como `Enfia o punho em mim que eu digo!` e `Me bate que eu conto!`. Porém, em vez de julgar, Noé mostra, posteriormente, uma festa promovida por burgueses heterossexuais e que também se assemelha a uma orgia. É como se o filme perguntasse: existe uma diferença real entre os dois lugares? Por que condenamos um e tendemos a aceitar o outro?

Ao mesmo tempo, Irreversível promove um fascinante estudo – não de personagem, mas sim sobre o comportamento humano. Quando assistimos a uma conversa entre Marcus, Pierre e Alex (Monica Bellucci), que discutem o orgasmo, o assunto abordado é totalmente irrelevante, já que Gaspar Noé quer, na realidade, que compreendamos a dinâmica entre estas três pessoas, que as observemos em um ambiente de normalidade – e, a partir daí, percebamos como um homem carinhoso e gentil pode se converter em um assassino em questão de minutos (não estou revelando nada de importante, já que o crime em questão acontece nos primeiros minutos da história).

E já que citei o assassinato, devo avisar que Irreversível não faz concessões ao espectador: enquanto outros diretores desviariam a câmera para evitar que a platéia visse os resultados dos golpes de um extintor de incêndio na cabeça de um homem, Noé faz a mais absoluta questão de manter o foco no rosto da vítima, que é gradualmente destruído diante de nossos olhos (o efeito foi obtido através de computação gráfica). Da mesma forma, a já famosa seqüência do estupro é realizada em uma única tomada, transformando-nos em testemunhas impotentes do drama de Alex (a performance de Bellucci nesta cena é estupenda).

Defendendo a cruel teoria de que o `tempo destrói tudo`, Irreversível realça a dimensão da tragédia de seus três protagonistas ao levar o espectador a conhecer, primeiramente, o terrível destino que os aguarda. Assim, quando vemos aquelas pessoas em uma época ainda feliz, o peso do futuro confere um ar sombrio a tudo o que vemos – e a `revelação` feita nos minutos finais da projeção intensifica este sentimento. Quando o filme chegou ao fim, confesso que chorei – não pelo que havia acontecido, mas sim em função do que ainda iria acontecer.
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23 de Agosto de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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