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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
08/10/2004 01/10/2004 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

O Espanta Tubarões
Shark Tale

Dirigido por Vicky Jenson, Bibo Bergeron, Rob Letterman. Com as vozes de Will Smith, Robert De Niro, Martin Scorsese, Renée Zellweger, Angelina Jolie, Jack Black, Michael Imperioli, Peter Falk, Ziggy Marley, Doug E. Doug.

É curioso observar as similaridades entre as produções realizadas pela Pixar e pela PDI (Pacific Data Images) ao longo dos anos: em 1998, ambas lançaram filmes protagonizados por formigas (o correto Vida de Inseto e o excepcional Formiguinhaz, respectivamente; três anos depois, duelaram com monstros (os igualmente ótimos Monstros S.A. e Shrek). Agora, é a vez de O Espanta Tubarões (mesmo com um ano de atraso) juntar-se a Procurando Nemo nesta lista de coincidências. Porém, se antes a balança – em termos de qualidade – pendia para o lado da PDI, agora o jogo volta a empatar, já que, mesmo com seus problemas narrativos, Nemo (da Pixar) é indubitavelmente superior a esta animação sobre um peixe que, graças um equívoco, ganha a fama de ser um matador de tubarões, tornando-se um herói em sua cidade situada no fundo do mar.

Dirigido por Vicky Jenson (Shrek), Bibo Bergeron (A Estrada para El Dorado) e pelo estreante Rob Letterman, O Espanta Tubarões diferencia-se de seu `primo` ao retratar o mundo submarino de forma bem mais fantasiosa do que aquele visto em Procurando Nemo, que apostava numa abordagem quase realista. Aliás, ao mergulharmos (com o perdão do trocadilho) na metrópole habitada pelos peixes deste filme, é impossível não lembrarmos do impressionante formigueiro de Formiguinhaz, o que revela uma interessante consistência na forma com que a PDI desenvolve seus projetos.

Tecnicamente, aliás, este longa não deixa nada a desejar com relação às animações em 3D mais recentes: do design de produção ao próprio visual dos personagens, O Espanta Tubarões é simplesmente impecável – e é impossível não admirar a belíssima (e complexa) iluminação do filme, desde a cena no balcão de um apartamento até a contraluz empregada no momento em que Don Lino (De Niro) e Don Feinberg (Falk) conversam em frente a uma das janelas do Titanic. Além disso, como todos os demais projetos da PDI, a trilha sonora deste longa traz novas versões de antigos sucessos pontuando incidentes retratados pela trama, como Car Wash e Got to be Real – e, mesmo que nem todas funcionem, o resultado é suficientemente agradável aos ouvidos.

Enquanto isso, o elenco reunido pela produção é dos mais invejáveis, merecendo destaque Will Smith, que confere a Oscar uma personalidade jovial e irreverente; Robert De Niro, que, ao repetir o tipo caricato do recente A Máfia Volta ao Divã, estabelece imediatamente a ameaça representada por Don Lino; e, é claro, Martin Scorsese, que transforma Sykes numa das surpresas mais divertidas do filme (aliás, é uma pena que o cineasta não apareça diante da câmera com mais freqüência; suas participações em Taxi Driver e Culpado por Suspeita são memoráveis, e o timing cômico que demonstrou aqui e no ótimo comercial do cartão American Express é perfeito). Além disso, é sempre uma atração a mais perceber como os animadores acrescentam características dos dubladores em seus personagens, como a famosa pinta de De Niro (e algumas de suas expressões faciais inconfundíveis), as sobrancelhas de Scorsese e os lábios de Angelina Jolie. Da mesma forma, transformar as águas-vivas em rastafaris foi uma sacada absolutamente genial.

É uma pena, portanto, que o roteiro se leve tão a sério e exagere na quantidade de diálogos, que se tornam mais importantes até mesmo do que os elementos visuais da produção, o que pode incomodar algumas das crianças mais jovens – e a tentativa de criar uma transformação melodramática na personalidade de Oscar, que passa a `valorizar o que perdeu`, torna O Espanta Tubarões artificial e piegas (além de repetir – sem a mesma competência - a mensagem básica de Formiguinhaz). Já os adultos provavelmente se divertirão um pouco mais com alguns dos subtextos da história, como a natureza `homossexual` (digo: vegetariana) do tubarão Lenny.

Finalmente, o filme aposta na velha brincadeira de fazer referências a outras produções (como Jerry Maguire e Questão de Honra), tendência perigosa que eu já havia mencionado ao escrever sobre Shrek 2. O problema é que, aqui, as citações soam ainda mais gratuitas do que naquele longa; a exceção ficando por conta, é claro, da `tomada do porta-malas` extraída de Cães de Aluguel e de uma ou outra piadinha envolvendo O Poderoso Chefão.

Engraçadinho, mas descartável, é até possível que O Espanta Tubarões esteja entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme de Animação em 2005, ao lado de Shrek 2 e Os Incríveis – não por merecer esta distinção, mas por pura falta de outras opções. Afinal, sua ótima qualidade técnica merecia ser aproveitada por um roteiro melhor.

Observação (em 27/05/05): Como pai de um garoto de 2 anos, assisti ao DVD deste filme umas 320.000 vezes e devo apontar que a dublagem brasileira feita pelo péssimo Paulo Vilhena quase destrói a experiência de vez. Quando é que os responsáveis pelas versões nacionais vão compreender que devem valorizar o trabalho de dubladores profissionais e não de subcelebridades sem talento como Vilhena e Bussunda?
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9 de Outubro de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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