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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/07/2004 19/03/2004 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
108 minuto(s)

Direção

Michel Gondry

Elenco

Jim Carrey , Kate Winslet , Kirsten Dunst , Mark Ruffalo , Tom Wilkinson , Elijah Wood , David Cross , Jane Adams

Roteiro

Charlie Kaufman

Produção

Anthony Bregman , Steve Golin

Fotografia

Ellen Kuras

Música

Jon Brion

Montagem

Valdís Óskarsdóttir

Design de Produção

Dan Leigh

Figurino

Melissa Toth

Direção de Arte

David Stein

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Dirigido por Michel Gondry. Com: Jim Carrey, Kate Winslet, Tom Wilkinson, Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo, David Cross, Jane Adams, Ellen Pompeo.

`É assim que uma pessoa apaixonada fica.` (personagem comentando sobre a própria aparência de sofrimento)

`O amor nada mais é do que um agrupamento bagunçado de carência, desespero, medo da morte, insegurança sobre o tamanho do pênis e a necessidade egoísta de colecionar o coração de outras pessoas.`

`Eu faria qualquer coisa por uma mulher que visse andando na rua. Eu nem preciso conhecê-la. Ninguém jamais me amará desta maneira.`

`O amor romântico é apenas uma ilusão.`

Todas as citações acima têm algo em comum: foram retiradas de roteiros escritos por Charlie Kaufman (respectivamente: Quero Ser John Malkovich, Natureza Quase Humana, Adaptação e Confissões de uma Mente Perigosa). Assim, não é de se espantar que seu mais novo trabalho, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, seja protagonizado por personagens que estão constantemente sofrendo por amor. Espantosa, sim, é a maneira brilhante com que o roteirista conta uma história que não apenas ilustra com perfeição a dor de um relacionamento fracassado como também reconhece que, no fundo, todo ser humano está mais do que disposto a submeter-se a este sofrimento desde que haja uma chance de, no processo, encontrar alguém que o ame (mesmo que temporariamente).

Inseguro e carente, Joel Barish (Carrey) é o típico herói kaufmaniano: ao estabelecer contato visual com a bela Clementine Kruczynski (Winslet) em uma praia, ele pensa: `Por que me apaixono por toda mulher que me dá qualquer tipo de atenção?`. Porém, logo depois de testemunharmos o simpático encontro dos dois personagens, a narrativa salta no tempo para nos mostrar que as diferenças gritantes entre as personalidade de Joel e Clementine condenaram o relacionamento – e, para se livrar das memórias dolorosas, a garota se submete a uma `cirurgia`, recém-desenvolvida por um certo dr. Howard Mierzwiak (Wilkinson), capaz de apagar seletivamente as lembranças de seu malfadado casamento com Joel. Ao descobrir o que a ex-esposa fez, o sujeito decide seguir o mesmo procedimento, mas, durante a cirurgia, percebe que quer manter as memórias e faz de tudo para evitar que estas sejam removidas de seu cérebro.

Superando, em inventividade e inteligência, a seqüência de Quero Ser John Malkovich em que uma perseguição acontecia no subconsciente do personagem-título, os esforços de Joel para manter viva a lembrança de Clementine são o grande atrativo de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças: em primeiro lugar, as tais memórias são `apagadas` em ordem cronológica inversa, e, assim, vemos os últimos momentos do relacionamento do casal em primeiro lugar – e, à medida em que o filme avança, retrocedemos no tempo e descobrimos o encanto que inicialmente existia naquele casamento. Além disso, ao reviver os momentos mais marcantes de sua vida com Clementine, Joel conclui o óbvio: só conseguimos evoluir graças às nossas experiências (boas ou ruins), e perder este referencial é um preço alto demais a se pagar pelo conforto de evitar sofrer por algum tempo. A partir daí, Kaufman prova mais uma vez seu talento ao mostrar que não se limita apenas a criar conceitos interessantes, sendo também um mestre em explorá-los ao máximo, e transforma nosso `passeio` pela mente de Joel em uma jornada que beira o surreal: às memórias do rapaz juntam-se sua imaginação, suas reflexões sobre os acontecimentos do passado e até mesmo os conhecimentos adquiridos durante a cirurgia, já que ele ainda é capaz de ouvir (mesmo inconsciente) o que os assistentes do dr. Howard estão falando.

Demonstrando ter evoluído como diretor de longas-metragens desde sua estréia na função (justamente em Natureza Quase Humana), Michel Gondry conduz o filme com segurança, jamais permitindo que o espectador se sinta perdido – o que é admirável, já que, além das seqüências que se passam na mente de Joel, somos apresentados ainda a duas outras tramas: uma envolvendo Patrick (Wood) e Clementine; e outra abordando o interesse de Mary (Dunst) pelo dr. Howard. E o que é melhor: ao contrário de bobagens como Van Helsing e Mansão Mal-Assombrada, que giram em torno dos efeitos visuais e ignoram a história, Brilho Eterno usa os efeitos em função das necessidades do roteiro, o que é admirável.

Enriquecendo ainda mais a obra de Kaufman, Kate Winslet e Jim Carrey conferem verdade ao relacionamento entre Joel e Clementine, exibindo uma ótima química. Ao mesmo tempo em que encarna com perfeição o temperamento amalucado e espontâneo de sua personagem, Winslet retrata as ambigüidades da moça, que, apesar de se mostrar direta e nada `poética` ao abordar o namorado pela primeira vez, lamenta a falta de romantismo com que este parece tratá-la. Por sua vez, Carrey oferece aquela que é, sem dúvida, a melhor performance de sua carreira até o momento (ultrapassando até mesmo o fenomenal desempenho em O Mundo de Andy): mantendo a voz em tons sempre baixos, o ator mostra-se contido e jamais exibe qualquer traço de seu histrionismo habitual, transformando Joel em uma figura melancólica e real. Enquanto isso, Wilkinson, Dunst, Wood e Ruffalo exploram ao máximo seus personagens, que, mesmo recebendo um destaque menor, se revelam multidimensionais e interessantes.

Combinando drama e romance (com toques precisos do humor particular de Charlie Kaufman aqui e ali), Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças é, desde já, um dos melhores lançamentos de 2004 – e, ao contrário da técnica que apresenta em sua trama, certamente será lembrado por muito tempo.
``

11 de Maio de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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