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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
29/10/2001 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Lavoura Arcaica
LavourArcaica

Dirigido por Luiz Fernando Carvalho. Com: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Caio Blat, Renata Rizek, Christiana Kalache, Mônica Nassif, Pablo César Câncio e Leonardo Medeiros.

Lavoura Arcaica é uma belíssima poesia de 2 horas e 45 minutos de duração. Dirigido com magistral sensibilidade por Luiz Fernando Carvalho, este é um filme que consegue ser corajoso e inovador sem tornar-se hermético. Ao contrário: como toda boa poesia, ele permite várias leituras diferentes, apostando na inteligência do público, que é levado a fugir da postura de espectador passivo e a assumir uma atitude mais ativa, participativa.


Adaptação fiel do livro homônimo do paulista Raduan Nassar, Lavoura Arcaica gira em torno de André (Mello), que, esmagado pelos próprios impulsos sexuais e ambições de liberdade (condenados pela conservadora comunidade em que vive), mergulha em um implacável cotidiano de auto-flagelação espiritual, renegando a própria `impureza`, mas ciente, de alguma forma, de que tem o direito de exprimir seus desejos – o que o leva a fugir de casa. Aliás, o filme já começa com uma cena forte em que vemos o protagonista aparentemente se masturbando (digo `aparentemente` porque, pouco mais tarde, descobrimos que ele também poderia estar sofrendo convulsões resultantes de um ataque epiléptico – o que já ilustra um dos temas do filme: a tríade `prazer-pecado-castigo`).

Para contar esta história, Luiz Fernando Carvalho utiliza sua câmera de maneira diligente, mergulhando na psique dos personagens e ilustrando o estado emocional em que estes se encontram (através de distorções na imagem, por exemplo). Ainda seguindo esta estratégia, o talentoso cineasta abusa dos closes fechadíssimos, como se procurasse investigar, através da proximidade com o rosto dos protagonistas, a própria alma destes. Além disso, Carvalho se revela um verdadeiro pintor, criando composições de quadro maravilhosas – sendo auxiliado, nesta tarefa, pela ótima fotografia de Walter Carvalho.

Apesar de seu ritmo pausado, calmo, Lavoura Arcaica jamais deixa de surpreender o espectador graças às inúmeras maneiras que encontra para expressar, através de imagens, todos os sentimentos e intensos conflitos morais/psicológicos experimentados por seu trágico herói. Um belo exemplo pode ser encontrado na cena em que o rapaz se entrega a uma prostituta: em primeiro plano, vemos a sensual e serpenteante fumaça de um cigarro que se queima, enquanto, ao fundo (e fora de foco), o casal de amantes se entrega ao sexo. A riqueza desta tomada impressiona por sua simplicidade, já que ilustra, simultaneamente, a ânsia sexual de André (o fogo do desejo) e seu castigo por fugir do que pregam seus valores (o fogo do inferno).

Até mesmo a paixão desmedida do protagonista pela Natureza revela-se, com o tempo (e logicamente), como um símbolo de sua própria natureza pessoal, de seus próprios impulsos – não é à toa que, embevecido pela visão da dança de Ana (Spoladore), ele tira os sapatos e mergulha os pés na terra fofa (gesto que se repete em diversas ocasiões). A metáfora de sua comunhão com a N(n)atureza, aliás, também é brilhantemente representada na seqüência em que vemos, em ações paralelas, o André-criança capturar uma pomba, enquanto o André-adolescente consuma sua obsessão por Ana (o que ocorre, apropriadamente, em um aposento cujas janelas são bloqueadas por grades). E concluir a representação deste ato sexual proibido com a forte imagem de um arado cortando impetuosamente a terra é a decisão perfeita. (Antes que alguém critique meu `liberalismo` com relação ao incesto cometido pelo casal, devo dizer que, em minha opinião, este é meramente um recurso dramático que Nassar utilizou para frisar seu ponto de vista: massacrado pelo extremo da repressão, André obviamente se rebela através do extremo da profanidade).

Esta polarização entre liberdade e repressão, simbolizada pelo conflito Natureza-Religião, acaba resultando na cena mais importante de todo o filme, quando André, desesperado pela rejeição, profere um violento discurso em frente a um pequeno altar, postando-se entre a imagem de uma santa (Religião) e um vaso de flores (Natureza) – num retrato vivo de seu conflito interior (o mais interessante, no decorrer da cena, é observar o destino do vaso). Igualmente curiosa é a frase que o rapaz diz ao confrontar a amada: `O teu amor, pra mim, é o princípio do mundo` – que também representa este dilema ao substituir a Gênese (Religião) por seu amor (Natureza).

Representações gráficas à parte, o fato é que o roteiro, escrito pelo próprio Luiz Fernando Carvalho, também conta com diálogos fortes e igualmente poéticos, como a explicação de André sobre a disposição, à mesa, dos membros de sua família (`O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava, fosse uma protuberância mórbida pela carga de afeto`). Destaca-se, também o amargurado confronto entre pai e filho que ocorre no ato final do filme – único momento em que o conflito é claramente vocalizado (e soberbamente interpretado por Selton Mello e Raul Cortez, numa cena repleta de cuspe e lágrimas).

Por incrível que pareça, até mesmo o título deste filme se presta a interpretações: no início da projeção (e no cartaz), ele é grafado como LavourArcaica, ou seja: entre a `lavoura` (Natureza) e o `arcaico` (o Conservadorismo, a Repressão), espreme-se o protagonista da história (cujo nome, André, se inicia com a letra `a`). Talvez eu esteja apenas divagando, é verdade, mas Lavoura Arcaica é uma obra que nos obriga a refletir, que nos impele a estudá-la. E, como eu disse em meu artigo sobre o belo Magnólia, não é maravilhoso quando um filme nos provoca desta maneira?

 

P.S.: Alguns críticos defenderam a exclusão de Lavoura Arcaica como candidato brasileiro ao Oscar 2002, alegando que seu ritmo lento afastaria os votos dos membros da Academia, diminuindo suas chances de vencer o prêmio. Minha opinião? Deveríamos pensar menos no que os americanos `gostariam` de ver e mais no que nosso Cinema tem de bom a oferecer. Talvez Lavoura Arcaica realmente não recebesse a indicação, mas, ao menos, poderíamos sentir um profundo orgulho de provar, de uma vez por todas, que nossa `indústria` é capaz de produzir verdadeiras obras-primas.
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21 de Novembro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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