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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
21/11/2019 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Sony/Vitrine Filmes

A Vida Invisível
A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Dirigido por Karim Aïnouz. Roteiro de Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Karim Aïnouz. Com: Julia Stockler, Carol Duarte, Flávia Gusmão, Antônio Fonseca, Nikolas Antunes, Maria Manoella, Flavio Bauraqui, Cristina Pereira, Marcio Vito, Gillray Coutinho, Gregório Duvivier e Fernanda Montenegro.

Um dos prazeres resultantes da imersão completa em festivais como o de Cannes é a conexão inesperada que por vezes surge entre filmes que não poderiam ser mais diferentes um do outro. Enquanto assistia ao brasileiro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, por exemplo, pensei várias vezes no maravilhoso francês Retrato de uma Jovem em Chamas, que, além de também contar com um título evocativo, é irmão de espírito do primeiro, já que ambos são ancorados pela forte relação de cumplicidade entre duas mulheres diante de um mundo patriarcal que insiste em sufocar suas aspirações.

Baseado no livro de Martha Batalha e dirigido por Karim Aïnouz, o longa gira em torno de Eurídice (Duarte) e sua irmã Guida (Stockler), filhas de um conservador casal de portugueses que moram no Rio de Janeiro do início da década de 50. Próximas e dedicadas uma a outra, elas acabam se separando quando Guida se apaixona por um marinheiro grego e foge com a intenção de se casar, despertando a ira do pai e deixando Eurídice sozinha com seu sonho de se tornar uma pianista profissional. Algum tempo depois, ao retornar ao Brasil grávida e desiludida, Guida é rejeitada pelo pai ainda enfurecido, que, como se não bastasse, mente ao afirmar que Eurídice foi aceita em um conservatório em Viena e saiu do país – uma mentira duplamente cruel, já que joga com a frustração da filha mais nova (que na realidade se casou com Antenor, vivido por Gregório Duvivier) enquanto planta na mais velha a sugestão de ter sido abandonada pela irmã bem-sucedida.

A arbitrariedade com que as irmãs são separadas, aliás, poderia ser vista como uma das opções mais arriscadas do roteiro, já que depende de uma quase (e pouco razoável) conspiração para justificar o distanciamento forçado das duas mulheres; por outro lado, o fato é que este é o impulso central da trama e, assim, um compromisso necessário. Mais problemáticos são os diálogos expositivos que surgem pontualmente na narrativa e que trazem uma artificialidade que na maior parte do tempo Aïnouz consegue evitar apesar dos elementos novelescos da história (“Já juntei metade do dinheiro para ir procurar minha irmã em Viena” e “Já esqueceu que fui policial?” são dois exemplos que me incomodaram em especial). Em contrapartida, os toques de melodrama – e há bastante disso na obra – se encaixam bem na abordagem do diretor, que torna os ingredientes novelescos (troca de identidades, encontros frustrados por uma questão de segundos) sempre eficazes.

Enquanto isso, o ótimo elenco cria uma galeria de personagens multidimensionais que forjam relações complexas uns com os outros: a estreante Júlia Stockler, como Guida, é um achado particular, emprestando resiliência tocante a uma mulher forçada a pagar contínua e excessivamente por um erro de julgamento típico da juventude. Aprendendo precocemente a se defender dos homens, ela faz um cálculo rápido, por exemplo, ao se arrepender de ficar com um desconhecido em um bar e optar por masturbá-lo até levá-lo ao gozo por perceber que seria a forma mais rápida (e tristemente mais segura) de se livrar deste. Já em outro instante, ao ouvir um pedido doloroso feito por uma pessoa amada, a garota esboça um sorriso de compreensão apenas para se entregar ao choro em outro cômodo a fim de evitar perturbá-la com seu próprio sofrimento, exibindo um estoicismo admirável. E se Bárbara Santos traz vivacidade, calor humano e empatia a Filomena, Gregório Duvivier evita que Antenor se torne uma caricatura machista ao encarná-lo com instantes pontuais de vulnerabilidade, empregando também seu ótimo timing cômico para suavizar o personagem, o que torna sua falta de companheirismo para com a esposa ainda mais frustrante (gosto sobretudo da cena em que o sujeito faz questão de chamar a atenção de Eurídice para cada mínima contribuição que dá ao montar o quarto da filha).

E há, obviamente, Carol Duarte como Eurídice – e aqui preciso fazer uma observação com relação ao título do projeto, ressaltando, contudo, que não li o livro no qual se baseia: ao trazer o nome da pianista para o centro das atenções, o título cria expectativas claras com relação ao foco da narrativa, que, esperamos, será naturalmente a personagem-título. Porém, na prática é Guida quem comanda dramaticamente o filme – e por mais que ver Eurídice se anulando como pessoa em função do machismo estrutural seja trágico, é inegável que a trajetória de sua irmã conta com obstáculos bem mais robustos (e, a rigor, esta se torna muito mais “invisível” do que a caçula). Seja como for, Duarte confere intensidade a Eurídice em uma performance que ganha mais peso à medida que se torna mais sufocada, sendo reveladora a frequência com que a mulher surge se olhando no espelho, como se fosse a única a notar suas expressões de tristeza, desolamento, alegria e dor (e de certo modo é).

Ecoando Retrato de uma Jovem em Chamas também na forma como estabelece os homens como ameaças constantes à integridade feminina (e as estatísticas provam que somos), A Vida Invisível de Eurídice Gusmão incute um tom animalesco ao gozo masculino e uma cumplicidade maldosa contra as mulheres (como na concordância frequente entre Antenor e o sogro ou na indiscrição intencional do médico da protagonista ao quebrar o sigilo profissional). Já o sexo é, em sua versão mais benevolente, uma mera inconveniência, posto que a ideia de oferecer prazer é algo que quase nunca ocorre aos homens que cruzam o caminho das personagens, sendo a noite de núpcias de Antenor e Eurídice um exemplo típico, surgindo violenta não por agressividade, mas por falta de afeto.

Esteticamente impecável na utilização de cores quentes e saturadas que equilibram o horror daquelas vidas com uma beleza exterior que sugere a possibilidade de deleites que jamais se concretizam (créditos à diretora de fotografia Hélène Louvart), este novo filme de Karim Aïnouz representa uma experiência tocante e envolvente em seus dois primeiros atos.

Já no terceiro se torna sublime, pois é aí que surge a magia chamada Fernanda Montenegro.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019.

20 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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