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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora

Dr. Fantástico ou Como Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar
Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love

Dirigido por Stanley Kubrick. Com : Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, KeenanWynn, Slim Pickens, Peter Bull, Tracy Reed, James Earl Jones e Jack Creley.

É interessante ver o mundo e as pessoas através das lentes de Stanley Kubrick. Não importa o gênero ou a história que ele escolha: seu modo de enxergar a humanidade é peculiar e extremamente inteligente - além de constantemente crítico. Em Dr. Fantástico, Kubrick nos presenteia com uma pérola de humor negro que critica acidamente as guerras e a mediocridade dos homens por trás destas.

Aqui, a ironia já começa nos nomes dos personagens: o General Jack D. Ripper (referência a Jack, o Estripador) é um homem paranóico. Ele acredita em uma conspiração comunista que visa a adição de flúor às águas americanas. Por isso, ele toma extremo cuidado com o que bebe, a fim de preservar seus `preciosos fluidos corporais`. Cada vez mais perturbado, o sujeito ordena um ataque nuclear à União Soviética - ataque este que só pode ser cancelado usando-se um determinado código que só o próprio General conhece.

Quando o Presidente Muffley (Sellers), dos EUA, fica sabendo do ocorrido, procura entrar em contato imediatamente com o Premier russo, a fim de pedir que este abata os aviões americanos antes do bombardeio. Enquanto isso, o Capitão Lionel Mandrake (Sellers, mais uma vez) tenta convencer o General Ripper a revelar o código. O Presidente tem a assessoria de vários militares e cientistas, destacando-se o estranho Dr. Fantástico (também Sellers). Outro integrante do Conselho de Guerra é o General Turgidson (que tem esse nome devido à sua libido sempre `exaltada`), um militar que acha que a solução para a crise é bombardear a União Soviética de verdade, antes que esta possa revidar o ataque.

É então que o embaixador de Sadesky (alusão a Sade) revela que seu país construiu uma máquina do Juízo Final, que irá ser disparada automaticamente caso uma bomba sequer caia em solo soviético. E, para completar, o piloto de um dos aviões que receberam ordem de ataque é um texano determinado a cumprir suas ordens a qualquer custo, nem que para isso tenha que cavalgar uma bomba como faria com um cavalo selvagem.

A partir daí, Kubrick conta sua história alternando estes três cenários: a Sala de Guerra; a base na qual o General Ripper se isolou com o Capitão Mandrake; e o bombardeiro pilotado pelo texano. Aliás, os cenários deste filme, idealizados por Ken Adam, são magníficos. A Sala de Guerra é colossal, imensa, contrastando de forma curiosa com o interior apertado e sufocante do avião que carrega as bombas nucleares.

As atuações em Dr. Fantástico também são geniais: Peter Sellers, em papel triplo, consegue criar pequenas nuanças em cada um de seus personagens, capazes de fazer com que o espectador se esqueça de que o mesmo ator está por trás daqueles três homens. Tomem, como exemplo, o Dr. Fantástico: ele é um misterioso cientista alemão cuja mão biônica insiste em realizar um cumprimento nazista, contra sua vontade. Seu sotaque e seus maneirismos em nada lembram o jeito controlado, porém tenso, do Presidente Muffley.

Outro que tem uma excelente atuação é George C. Scott, como o General Turgidson, um militar que nutre verdadeiro ódio pelos comunistas. Tentando convencer o Presidente que os `vermelhos` são um perigo à nação, ele oscila entre o nervosismo controlado (como quando informa a Muffley o que está acontecendo, no início da crise) e a raiva histérica (que começa quando o embaixador soviético é convidado a entrar na Sala de Guerra).

O roteiro, escrito pelo próprio Kubrick em parceria com Terry Southern, é repleto de diálogos hilários, como na cena em que o Presidente interrompe uma briga entre Turgidson e o embaixador de Sadesky, dizendo: `Vocês não podem brigar aqui! Isto é a Sala de Guerra!`. Além disso, as cenas em que Muffley conversa com o Premier russo por telefone também são inspiradíssimas.

Mas Dr. Fantástico não é apenas um libelo contra a guerra. O filme também analisa/critica/ilustra a libido masculina com freqüência. Algumas vezes a referência é óbvia, como na cena em que um piloto folheia uma `Playboy` (cuja capa mostra, justamente, a secretária/amante do General Turgidson). Em outras, ela é mais sutil, quando o General Ripper diz que `nega sua essência às mulheres`. O clímax desta análise/crítica acontece quando o próprio Dr. Fantástico explica sua idéia de construir imensas cavernas que serão habitadas por homens e mulheres, na proporção de dez mulheres para cada homem - idéia esta que é imediatamente aprovada pelo General Turgidson, que até então olhara de forma desconfiada para o cientista.

Outra coisa curiosa é a maneira como Kubrick enxerga a relação homem-máquina, tema que ele voltaria a abordar em 2001: Uma Odisséia no Espaço. Em Dr. Fantástico a falha é humana, deixando o planeta à mercê da perfeição tecnológica que é a `Máquina do Juízo Final`, que não pode ser desligada.

São tantas as interpretações que podemos extrair deste filme que é surpreendente que ele ainda consiga nos fazer rir - e consegue. Só mesmo Kubrick seria capaz de dirigir uma comédia realmente engraçada e, ao mesmo tempo, verdadeiramente complexa. Talvez seja ele o Dr. Fantástico do título em português. Eu não duvidaria.
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23 de Junho de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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