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Casa de Dinamite

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Kathryn Bigelow. Roteiro de Noah Oppenheim. Com: Rebecca Ferguson, Idris Elba, Jared Harris, Tracy Letts, Gabriel Basso, Anthony Ramos, Jonah Hauer-King, Moses Ingram, Greta Lee, Jason Clarke, Malachi Beasley, Gbenga Akinnagbe, Renée Elise Goldsberry, Kaitlyn Dever.

Quando criança e pré-adolescente, eu experimentava um terror recorrente relacionado à possibilidade de que o mundo chegasse ao fim em uma gigantesca explosão que deixaria, em seu rastro, uma nuvem em forma de cogumelo. A ameaça, claro, havia sido plantada em minha imaginação não apenas pelos telejornais entreouvidos perto da hora de dormir, mas por filmes como Jogos de Guerra, Herança Nuclear, Catástrofe Nuclear, Quando o Vento Sopra e – o que me rendeu mais pesadelos – O Dia Seguinte. Felizmente, ao fim da década de 80 algum bom senso pareceu ter tomado conta das principais potências nucleares – e mesmo que seus arsenais seguissem capazes de destruir o planeta múltiplas vezes, um esforço genuíno para evitar que isto se concretizasse se tornou parte das relações entre os países graças aos alertas de cientistas, ativistas e intelectuais, que de algum modo influenciaram a opinião pública para pressionar com sucesso a classe política.

Porém, sempre podemos contar com a estupidez humana e nossa infindável capacidade de ignorar as lições do passado. Assim, na última década, ameaças de utilização de bombas atômicas se tornaram uma constante em conflitos regionais, o que, somado a um anti-intelectualismo crescente, devolveu o mundo à lógica da Guerra Fria, mas desta vez com líderes políticos que, por comparação, fazem Reagan e Thatcher soar como grandes pensadores e humanistas.

O que nos traz a Casa de Dinamite, escrito por Noah Oppenheim, ex-presidente do departamento jornalístico da NBC: essencialmente acompanhando incidentes que ocorrem dentro de uma janela de 19 minutos de duração a partir de pontos de vista diferentes, o longa tem início com a chegada da capitã Olivia Walker (Ferguson) ao seu turno na Sala de Crise da Casa Branca e com a detecção de um míssil nuclear disparado a partir de algum ponto desconhecido do Pacífico. Inicialmente acreditando se tratar apenas de mais um teste feito provavelmente pela Coreia do Norte, Walker e seus colegas logo percebem que a ameaça é real e deverá ser neutralizada em menos de 20 minutos, ao fim dos quais uma grande metrópole norte-americana será destruída. Coordenando a comunicação entre o presidente (Elba), o Secretário de Defesa (Harris), o general responsável por planejar uma resposta (Letts) e outros conselheiros, a capitã ainda deve monitorar a tentativa de interceptação do míssil por parte dos jovens militares liderados pelo major Daniel Gonzalez (Ramos) – o que ocorre ao mesmo tempo em que os escalões superiores buscam definir como reagir ao ataque (e contra quem).

Dividido em três partes que se concentram em grupos distintos de personagens, Casa de Dinamite não é, de fato, um filme sobre aquelas pessoas em particular, mas sobre a situação impossível que enfrentam. Retornando ao início da contagem regressiva de 19 minutos sempre que esta chega ao fim, o interesse da narrativa reside na estrutura hierárquica concebida para lidar com possíveis ataques, com os procedimentos envolvidos nesta resposta e com a própria natureza humana, já que mesmo as estratégias mais afinadas devem ser colocadas em prática por indivíduos que se encontram sob imensa pressão. Assim, quando por motivos diversos o presidente só consegue participar das discussões por voz enquanto sua tela permanece escura, a ausência de sua imagem acaba por representar um elemento adicional de incerteza e cada tremor em sua voz contribui para a aflição geral. De modo similar, os vazamentos ocasionais de comentários ao fundo das conversas, quando todos escutam as reações viscerais de figuras que não se encontram diretamente na discussão, são reveladores pela insistência com que são ignorados pelos participantes da chamada, como se qualquer reação a eles fosse capaz de romper a ilusão de controle.

Mas como acreditar na possibilidade de remediar ou conter uma situação quando a mera possibilidade de que dez milhões de pessoas morram instantaneamente é algo que se torna aceitável diante de alternativas ainda piores? Como reagir quando as opções são a rendição ou o suicídio? E mais: como esperar um raciocínio lúcido por parte de alguém que está lidando com o término súbito de um relacionamento? Ou com a paternidade iminente? Ou com a preocupação com a segurança do filho pequeno? Em um cotidiano no qual fazer pedidos de preparo rápido na lanchonete do trabalho é algo essencial para evitar que os demais percam qualquer segundo na fila, como garantir que cada decisão e cada instrução será tomada e comunicada com clareza absoluta?

Pois uma das principais virtudes da cineasta Kathryn Bigelow (que não lançava um trabalho há sete anos) é sua compreensão de como isto seria impossível. Assim, aos poucos vemos aqueles profissionais sendo tomados pela ansiedade, respirando pesadamente e tentando conter as lágrimas e os tremores de suas mãos, já que têm consciência de como o pânico é contagioso e perigoso. Como se não bastasse, há, claro, os contratempos quase inevitáveis: chamadas de voz que não podem ser agrupadas com rapidez, indivíduos que se encontram fora de alcance por motivos diversos e a arrogância de bilionários que lançam seus satélites sem as devidas notificações.

Adotando a estética documental que já se mostrou tão eficaz em alguns de seus trabalhos anteriores, Bigelow emprega zooms, movimentos constantes de câmera e a perda ocasional do foco como forma de incutir urgência e verossimilhança à narrativa – principalmente por utilizar estes recursos não para construir sequências de ação, mas para retratar procedimentos que envolvem, em sua essência, ordens enviadas por telefone, informações extraídas de telas gigantescas e discussões repletas de termos técnicos. Além disso, os planos aéreos recorrentes que trazem o céu dourado do início do dia, monumentos históricos ou paisagens imponentes (mar, montanhas, o horizonte de uma grande cidade) remetem a um estilo consagrado não só pela própria diretora como por nomes como Tony Scott, John McTiernan e por várias das melhores produções de Don Simpson e Jerry Bruckheimer, o que, de um ponto de vista puramente cinéfilo, confere uma nostalgia bem-vinda à experiência. Ao mesmo tempo, a obra não perde de vista o elemento humano – e talvez seu momento mais poderoso seja aquele que retrata uma situação de pesadelos, quando alguém liga para uma pessoa querida sabendo que esta possivelmente tem poucos minutos de vida restantes e tenta manter uma conversa que servirá como despedida sem que a outra perceba o que está para acontecer. (De que adiantaria alertá-la se não há salvação?)

Há, contudo, algo além da tensão crescente entre os objetivos de Bigelow e do roteiro de Oppenheim: ao trazer uma das muitas recriações da Batalha de Gettysburg sendo acompanhada por um público repleto de empolgação, Casa de Dinamite comenta, mesmo que tangencialmente, a obsessão norte-americana pela violência, pela guerra e pela utilização da força bruta como elemento definidor do temperamento do país ao longo da História – o que obviamente desempenhou um papel central no desenvolvimento de armamentos tão poderosos que se tornaram uma ameaça aos próprios criadores. Tampouco é acaso que, em certo momento, o longa se detenha em um quadro que traz o ex-presidente Eisenhower, já que este, em seu discurso de saída do cargo, fez um alerta poderoso acerca da influência crescente do complexo militar-industrial sobre o governo.

Porém, apesar de todas as suas virtudes, há algo que impede o filme de alcançar a força prometida por suas ambições: a constatação de que a competência daquelas pessoas, que por si só já seria quase irrelevante naquelas circunstâncias, em nada reflete a capacidade das figuras que ocupam suas posições na realidade. Imaginar Donald Trump e seu Secretário de Defesa (ou melhor: da Guerra, como foi rebatizado em sua nova gestão) no lugar dos personagens de Idris Elba e Jared Harris é algo que transforma o longa em uma farsa sem qualquer graça – e talvez tenha sido por esta razão (por ter uma visão mais clara acerca dos líderes norte-americano) que Kubrick concebeu Doutor Fantástico como uma sátira. Embora, claro, nem ali tenha sido capaz de antecipar como o futuro traria criaturas que se apresentariam como caricaturas maiores que o presidente Merkin Muffley, o general Turgidson e o brigadeiro Ripper.

E o fato de Doutor Fantástico surgir como referência inevitável pela segunda vez em poucas semanas ao discutir produções contemporâneas é, por si só, um péssimo sinal sobre a condição do mundo atual.

24 de Outubro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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