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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/04/1998 20/11/1998 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
113 minuto(s)

Central Do Brasil
Central Do Brasil

Dirigido por Walter Salles. Com: Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Othon Baston, Sôia Lira, Matheus Nachtergaele, Stella Freitas, Otávio Augusto.

Central do Brasil tem a simplicidade dos grandes filmes. Tem um início que impressiona e prende a atenção do espectador. Quando nos damos conta, o filme está caminhando para seu final e, neste meio-tempo, já rimos, choramos e torcemos para nossos - reparem o `nossos` - personagens.


Sim, este é um daqueles filmes que conseguem a proeza de praticamente transformar os personagens em nossos amigos pessoais. Nos importamos com eles, choramos por eles, queremos ajudá-los. Se dizem algo de terrível (como Fernanda Montenegro faz, em alguns momentos), tendemos a perdoá-los, a relevar a ofensa. Eles são `de casa`.

O filme conta a história de Dora (Montenegro), uma mulher que ganha dinheiro escrevendo cartas para analfabetos na Central do Brasil. Depois de escritas, as cartas passam pelo crivo da `censura` de Irene (Pêra) e da própria Dora, que julgam quais deverão ser enviadas ou não. É quando a mulher se vê envolvida com o triste destino de Josué (Vinícius de Oliveira), um garoto de 9 anos cuja mãe é atropelada e morta em frente à estação onde Dora trabalha. Agora, Dora se vê irremediavelmente `presa` ao menino, com quem - e em função de quem - irá vivenciar uma bela transformação.

A parte técnica do filme é impecável. A belíssima fotografia de Walter Carvalho, que nos leva do cinzento e angustiante ambiente de uma grande cidade até os claros e refrescantes horizontes das estradas, é um dos fundamentos de Central do Brasil. Associado à comovente (e, em certos momentos, sufocante) trilha sonora composta por Antônio Pinto e Jaques Morelembaum, o efeito visual do filme é realçado, ainda mais enriquecido.

Mas falar da parte técnica de Central do Brasil é como tentar dissecar um quadro que nos comove: o crítico acaba soando frio, pois estamos falando de sentimentos e não apenas de matizes. O trabalho dos Diretores de Arte e Fotografia, além da trilha sonora, apenas realçam este sentimento, mas não o criam.

O roteiro, de João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, conta uma história pungente, onde a maior riqueza está nos motivos que impulsionam os personagens. O fato é que Dora se vê, em parte, no lugar de Josué, transferindo suas próprias frustrações em relação a seu pai para o garoto. Ela é uma cínica, descrente. Para esta mulher, a vida nada mais é do que uma sucessão de dias. Não existe amor ou nobreza no mundo. Todas as pessoas que lhe ditam cartas possuem, em sua visão, algo de podre ou obscuro. Dora perdeu, em parte, sua própria humanidade.

Porém, durante sua viagem ao lado de Josué, ela é obrigada a enxergar o mundo e não apenas vê-lo. São coisas miúdas, como a generosidade de um itinerante que lhe oferece um pouco de sua parca refeição, ou a gentileza de um caminhoneiro que - o que é raro - consegue penetrar através de sua armadura. E, além disso, o fato de que Josué precisa dela. Talvez o garoto seja a primeira pessoa que depende de Dora em toda sua vida - e ela gosta de se sentir responsável por alguém. Não a princípio, é claro, mas gradualmente ela passa a gostar.

Até que, finalmente, ela se vê reconciliada com seu próprio pai - e com o de Josué. Ela consegue admitir que houve bons momentos, como aqueles em que seu pai permitia que ela acionasse o apito da locomotiva que dirigia. Pode existir amor no mundo, afinal de contas.

Fernanda Montenegro tem uma atuação simplesmente absoluta neste filme. O `aprendizado` de sua personagem é transmitido de uma maneira tão inteligente que não há como deixarmos de comemorar cada nova vitória, cada pequena alteração em seu comportamento. Nós crescemos com Dora. Além disso, temos as belas atuações de Marília Pêra, que cria uma personagem curiosamente ingênua em meio ao caos e à amargura que imperam em Central do Brasil; e de Othon Bastos, que consegue, durante o pouco tempo em que aparece na tela, deixar uma impressão profunda na mente da platéia graças a seu carisma e à sua gentileza. Mas não posso deixar de destacar o brilhante trabalho de Vinícius de Oliveira. É impressionante o talento deste garoto. Basta citar o momento em que ele vê um homem, que acredita ser seu pai, se aproximar. Ele engole em seco, arqueja quase imperceptivelmente e se cola à parede. São detalhes muito sutis, mas que recheiam toda a atuação do menino.

Walter Salles realiza, enfim, mais um grande trabalho. Sua direção é sincera e hábil ao mostrar um Brasil feio, pobre, mas rico em sentimentos. Os vários rostos marcados pela vida que narram as cartas neste filme são um retrato vivo de um país que deixa seu povo sofrer - mas que não consegue impedir que este expresse profundamente suas paixões ou que sorria de seus infortúnios. E isso, por si só, já uma maravilhosa mensagem.

3 de Maio de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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