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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
31/08/2001 16/03/2001 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Amnésia
Memento

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26 de Agosto de 2001



Em outras palavras: vá correndo (mesmo que de costas) para o cinema. Você não vai se arrepender.

Amnésia é, em suma, um grande exercício de lógica e técnica narrativa. O resultado alcançado por Nolan não é apenas surpreendente, mas também digno de aplausos, já que contraria a tendência atual de Hollywood, que parece subestimar cada vez mais a inteligência de seu público, e aposta na capacidade do espectador em acompanhar sua deliciosa experiência.

Este potencial dramático é realçado pela magnífica montagem do filme (um excepcional trabalho de Dody Dorn), que inova ao inverter as expectativas da platéia, que fica cada vez mais ansiosa para descobrir como tudo irá começar. Assim, além de criar uma tensão crescente (o que é uma verdadeira proeza, já que todos sabem como a história termina), o filme ainda brinda o espectador com um final (ou início) surpreendente – que, além de tudo, pode ser interpretado de duas maneiras totalmente diferentes, mas igualmente satisfatórias. Aliás, acredito que a verdadeira natureza do personagem de Guy Pearce ainda renderá empolgadas discussões no estilo `Capitu traiu Casmurro?` (sem revelar fatos importantes, eu pergunto: qual é a verdadeira ligação – se é que existe alguma – entre Leonard e Sammy Jankis?).

Este cruzamento de tramas resulta em uma rebuscada `carpintaria` narrativa – e, como se não bastasse, o roteiro de Amnésia também oferece ao espectador alguns momentos de necessário alívio cômico, como na cena em que Leonard se vê correndo paralelamente a um sujeito armado e não consegue se lembrar se o está perseguindo ou se está sendo perseguido por ele. Por outro lado, Nolan também aproveita ao máximo o potencial dramático do personagem ao questionar, entre outras coisas, qual seria o valor da vingança almejada por Leonard já que este sequer conseguirá se lembrar de tê-la realizado.

Para tornar a `brincadeira` mais interessante, o roteiro de Christopher Nolan (inspirado em um conto escrito por seu irmão) também narra a história de um certo Sammy Jankis, que sofre de um problema similar ao de Leonard. O curioso é que esta subtrama é narrada em cronologia normal, `encontrando-se` com a história do próprio Leonard nos momentos decisivos do filme.

Com exceção deste detalhe sobre as `tatuagens`, a trama de Amnésia lembra bastante a história da divertida comédia Memória Curta, protagonizada por Dana Carvey em 1994 – o que poderia tirar um pouco de seu impacto. Porém, o que o torna tão interessante e o coloca entre os melhores lançamentos do ano é a forma que Nolan encontrou de fazer com que o espectador `experimentasse` a frustração constante de Leonard, já que a história começa no que deveria ser a última cena e termina na seqüência que, normalmente, deveria aparecer no início do filme. Assim, cada cena de Amnésia se inicia (atenção!) com o final da cena seguinte. Com isso, o espectador sabe o que acontecerá a seguir (assim como Leonard sabe o que fará no momento seguinte), mas não tem a menor idéia do que ocorreu momentos antes, como se também fosse incapaz de formar novas memórias. Esta estratégia pode confundir a platéia momentaneamente, mas acaba ficando mais clara à medida que a trama se desenrola.

Quando digo `quebra-cabeças`, porém, não me refiro especificamente ao roteiro do filme, que não é particularmente complexo ou intrincado (como o de Los Angeles – Cidade Proibida, por exemplo). Na verdade, a trama é relativamente simples: Leonard Shelby (Pearce) é um ex-investigador que, depois de ser atacado por um marginal, sofre um trauma neurológico que o impede de formar novas memórias. Sua última recordação é, justamente, a de ter sido atacado enquanto tentava salvar (em vão) a vida de sua esposa. Vivendo em constante sofrimento (já que, para ele, sua esposa acabou de morrer), Leonard tenta descobrir a identidade do assassino – o que, obviamente, não é uma tarefa fácil, já que ele é incapaz de se lembrar de coisas que aconteceram há mais de 15 minutos. Para solucionar este problema, ele tatua em seu corpo as informações mais importantes de sua investigação – o que pode não impedir que outras pessoas se aproveitem de sua condição para manipulá-lo.

Ocasionalmente, tenho a sensação de que uma crítica redigida de forma `convencional` não é a melhor maneira de falar sobre determinado filme. Quando isso acontece, deixo a cautela de lado e permito que o instinto me guie – e o resultado, positivo ou negativo, pode ser encontrado nos artigos sobre As Loucas Aventuras de James West, Alta Fidelidade e Magnólia. Portanto, peço desculpas de antemão por minha decisão de homenagear este excelente Amnésia com uma crítica redigida `de trás para a frente`. A leitura poderá ficar um pouco confusa, mas, ao menos, lhe dará uma ligeira idéia do instigante quebra-cabeças criado pelo diretor Christopher Nolan.

Dirigido por Christopher Nolan. Com: Guy Pearce, Joe Pantoliano, Carrie-Anne Moss, Mark Boone Junior, Jorja Fox, Harriet Sansom Harris, Larry Holden, Callum Keith Rennie e Stephen Tobolowsky.

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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