Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/11/2003 27/10/2003 3 / 5 4 / 5
Distribuidora

Matrix Revolutions
The Matrix Revolutions

Dirigido por Andy e Larry Wachowski. Com: Keanu Reeves, Carrie-Anne Moss, Laurence Fishburne, Hugo Weaving, Jada Pinkett Smith, Mary Alice, Nona Gaye, Harry Lennix, Harold Perrineau, Lambert Wilson, Monica Bellucci, Anthony Zerbe.

Quando escrevi sobre Matrix Reloaded, há pouco mais de 5 meses, elogiei o fato de que o filme deixava muitas perguntas sem respostas, já que sabia que ainda haveria uma terceira parte para amarrar todas as pontas. Infelizmente, o que eu julgava como uma `preparação de tabuleiro`, que seria seguida por uma partida emocionante e repleta de reviravoltas, acabou revelando-se como uma grande decepção: ao que parece, os irmãos Andy e Larry Wachowski, diretores e roteiristas da trilogia, conheciam apenas a disposição inicial das peças, mas não tinham a menor idéia de como movimentá-las. Em outras palavras: hábeis em criar idéias interessantes, os criadores de Matrix se acomodaram e decidiram ser desnecessário explorá-las até o fim.

Ao final do segundo capítulo, por exemplo, o espectador era surpreendido por uma revelação bombástica: Neo havia se tornado capaz de utilizar seus poderes no `mundo real`. Ora, é de se imaginar que um dado importante como este (tão relevante que serviu para fechar o filme) seria esclarecido na parte seguinte, não é mesmo? Pois não é isso que acontece, já que o Oráculo se limita a estabelecer o óbvio: o poder do Escolhido pode se manifestar em vários mundos. E o que é pior: para evitar que o público perceba que nenhum enigma está sendo solucionado, os Wachowski criam novos mistérios, ou seja: propõem mais perguntas quando deveriam se preocupar em responder àquelas já feitas. Assim, em vez de insinuarem um relacionamento antigo - e completamente dispensável - entre Seraph e Merovingian, os cineastas deveriam se preocupar em esclarecer quem (ou o quê) é este último. Aliás, eles sequer procuraram manter a coerência entre as duas últimas partes da trilogia: em Reloaded, o Capitão Lock afirmava que precisaria `de todas as naves para sobreviver ao ataque` das sentinelas, criticando o fato da Nabucodonosor ter sido liberada para partir. O curioso é que, no capítulo final, nenhuma nave é utilizada durante a batalha contra as máquinas. E, afinal de contas, o que aconteceu aos Gêmeos que trabalhavam para Merovingian, e que tiveram tanto destaque no filme anterior?

Por outro lado, Matrix Revolutions comprova a riqueza do universo concebido pelos dois irmãos ao apresentar novas camadas da realidade virtual que serve como cenário para a ação: a estação de metrô, por exemplo, revela-se como uma espécie de `lixeira` daquele complexo sistema operacional (e seu nome, `Mobil Ave`, é um óbvio anagrama de `Limbo`; enquanto o elevador da boate visitada por Morpheus e Trinity contém um botão vermelho que, em vez de indicar um andar, traz apenas a palavra `Help`. Além disso, o filme introduz o curioso conceito de que os programas também seriam capazes de amar (ao descobrir isso, Neo questiona: `Mas esta é uma emoção humana!`, e ouve a ótima resposta: `Não, é uma palavra`).

Aliás, `amor` é um tema recorrente em Revolutions: além do romance entre Neo e Trinity, há, ainda, o envolvimento (já sugerido em Reloaded) entre Morpheus e Niobe, e, é claro, aquele entre Zee e Link – numa indicação de que, para os Wachowski, a maior diferença entre humanos e máquinas reside na capacidade dos primeiros em `sentir` (o que, ao mesmo tempo, torna-os frágeis e falhos). E, a partir do momento em um programa, uma `entidade` puramente racional, cruza esta fronteira e passa a ter sentimentos, a própria Matrix tem sua estabilidade ameaçada por esta característica que a tornaria passível de erros de lógica.

Do ponto de vista dramático, a única vantagem de Revolutions com relação ao capítulo anterior reside na vulnerabilidade de Neo, que finalmente volta a despertar nossa preocupação com relação ao seu destino (e é ótimo poder vê-lo protagonizando uma luta no `mundo real`, com direito a socos `comuns` e golpes que nada lembram aqueles desferidos na Matrix). Em contrapartida, esta nova condição de Neo exige mais de Keanu Reeves, que continua a ser um ator limitado – o que compromete um importante momento da projeção. E se Reeves é fraco, a garotinha Tanveer Atwal, como Sati, é um verdadeiro desastre (e, como ela recebe grande atenção ao longo da história, acaba prejudicando o filme). Já Ian Bliss (que interpreta Bane) se destaca ao imitar com perfeição os maneirismos e as inconfundíveis inflexões do Agente Smith – que, por sinal, se transforma no melhor elemento da produção graças à performance exagerada, mas divertida, de Hugo Weaving.

Contando com uma trilha sonora grandiosa, quase épica, Matrix Revolutions deposita suas forças nos ótimos efeitos visuais, mantendo a atenção do espectador com as imagens espetaculares de centenas de milhares de Sentinelas invadindo Zion. E, mais uma vez, Andy e Larry Wachowski se revelam mestres na condução de seqüências de ação – já que, neste quesito, o filme não decepciona. Infelizmente, eles não demonstram possuir a mesma sensibilidade no que diz respeito aos diálogos, que novamente soam pretensioso e, em vários momentos, simplesmente risíveis (`Esperança é uma indulgência para a qual não tenho tempo`).

Como se não bastasse, os irmãos não conseguem encontrar uma justificativa plausível para a mudança da atriz que interpreta o Oráculo (a original, Gloria Foster, morreu depois de concluir os trabalhos em Reloaded): depois de dizer que `não há explicação fácil` para a alteração em sua aparência, a personagem diz que `teve que pagar o preço` por determinada escolha. Ora, se o novo visual é uma espécie de `punição`, de conseqüência por certa atitude, por que ela continua parecida com seu antigo `eu`? Por que não radicalizar e transformar o Oráculo em um homem deformado ou em uma mulher bastante idosa (como se seu `esforço` tivesse lhe roubado anos de vida)?

Mas o aspecto mais frustrante de Revolutions é mesmo a negligência dos Wachowski na condução do desfecho da trama – e não me refiro apenas à falta de respostas para questões importantes (Como Smith entrou no corpo de Bane? O que Merovingian quer?), mas também à solução para o conflito entre Neo e Smith: o que, exatamente, aconteceu ali? Eu posso pensar em algumas teorias, mas o filme deveria, no mínimo, oferecer suas próprias explicações – afinal, este não é mais o `capítulo do meio`, mas sim o desfecho de uma trilogia. Alguns fãs mais radicais de Matrix podem até alegar que o espectador deveria elaborar suas próprias teorias (algo que se aplicava a Reloaded), mas isto seria como culpar o público pelas falhas do roteiro, o que é impensável.

Finalmente, Matrix Revolutions ainda peca por não nos envolver nos dramas de seus personagens: em nenhum momento me importei com os destinos de Zee, do Capitão Mifune ou do Garoto. Aliás, confesso que nem mesmo o destino dos protagonistas foi capaz de provocar qualquer impacto emocional, o que é terrível – principalmente se considerarmos que convivi com Neo, Trinity e Morpheus durante três filmes ao longo dos últimos quatro anos. E o motivo para esta frieza da trilogia é óbvia: lamentavelmente, os Wachowski encaram seus personagens como o Arquiteto encara os humanos: como simples peças de um jogo, e não como indivíduos.

Parte 2 – Tudo que tem um início tem um fim?
(Leia apenas se já assistiu aos três filmes)

Não vou desperdiçar seu tempo (nem o meu) com longas teorias sobre a verdadeira natureza da Matrix. Tudo o que escrevi sobre Reloaded continua a se aplicar ao universo concebido pelos irmãos Wachowski: o `mundo real` pode, de fato, ser apenas um outro nível da Matrix; Neo pode ser um programa concebido pelo Arquiteto para controlar as crescentes instabilidades do sistema; Merovingian pode ter sido o primeiro Escolhido; e assim por diante (para saber mais, clique aqui e leia a `Parte 2` de minha análise).

O problema é que os cineastas tiveram nada menos do que dois filmes para desenvolver suas idéias e ainda deixaram o trabalho pela metade. Com isso, a riqueza dos novos conceitos prometida por Reloaded tornou-se uma triste promessa não cumprida – e dizer que as respostas virão num possível Matrix 4 (ou no jogo que será lançado em breve) é uma total falta de respeito para com o espectador, que, afinal, investiu seu tempo e seu dinheiro em uma experiência que, depois de se anunciar como completa (`Tudo que tem um início tem um fim`, apregoava o cartaz), revelou-se inconclusa.

Ainda acredito que Zion é uma cidade virtual - e o leitor Marco Aurélio Ribeiro, em email recente, chegou a apontar a curiosa semelhança fonética entre `Záion` e `Zero One`, em mais uma indicação da possível natureza `binária` do lugar. Ainda acredito que Neo é um programa - e é por esta razão que ele consegue `enxergar` o código do `mundo real` – que, em contraste com o verde da Matrix, revela-se alaranjado (e também é por isso que somos apresentados ao tema do `programa que sabe amar`, num reflexo do próprio sentimento de Neo por Trinity). Ainda acredito que Merovingian foi o primeiro Escolhido – e seu ódio pelo Oráculo pode ser fruto da manipulação à qual foi submetido pela personagem.

Infelizmente, jamais saberemos ao certo, já que a trilogia não se importa com o que sabemos ou com o que acreditamos saber. Caso encerrassem sua história de maneira ambígua, os Wachowski mereceriam aplausos, mas o fato é que eles simplesmente não encerram a história de forma alguma – e isto, como já disse, é um descaso imperdoável para com o próprio universo que construíram. (Até mesmo o objetivo dos heróis foi alterado: inicialmente, Morpheus anunciava sua intenção de libertar os humanos aprisionados na Matrix, mas, ao final, agradeceu a Neo por este ter firmado a `paz` com as Máquinas!).

Em minha análise sobre Matrix Reloaded, comentei: `(...) Caso continue a caminhar na direção sugerida por esta segunda parte, Matrix Revolutions [confirmará] o potencial desta trilogia em se firmar como um dos projetos mais ambiciosos de ficção científica que o Cinema já produziu`. Pois esta expectativa não se confirmou: Revolutions não caminhou em direção alguma e, conseqüentemente, encerrou de maneira melancólica uma saga que teve início de forma inteligente e promissora.
``

06 de Novembro de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!