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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/08/2003 02/07/2003 3 / 5 3 / 5
Distribuidora

O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas
Terminator 3: Rise of the Machines

Dirigido por Jonathan Mostow. Com: Arnold Schwarzenegger, Nick Stahl, Claire Danes, Kristanna Loken, David Andrews, Mark Famiglietti e Earl Boen.

 


Responsável por deslanchar a carreira de James Cameron em 1984, O Exterminador do Futuro era muito mais do que um simples filme de ação: era uma ficção científica inteligente que, emprestando elementos do gênero terror, trazia um personagem assustador como poucos. Sete anos depois, Cameron realizou uma continuação que conseguia ser ainda melhor do que o original ao inverter nossas expectativas e transformar o vilão do primeiro capítulo em herói – e seu novo inimigo, constituído de metal líquido, era uma criatura indubitavelmente letal. Em ambos os filmes, tínhamos a nítida impressão de que a vitória era algo impossível para os protagonistas – que, por sua vez, eram personagens complexos e interessantes. Infelizmente, O Exterminador do Futuro 3 representa uma clara queda no padrão de qualidade da série, já que, apesar de contar com boas seqüências de ação, acaba se complicando sempre que o roteiro tenta desenvolver a história.

Para início de conversa, desta vez o T-800 interpretado por Schwarzenegger deve proteger não apenas John Connor (Stahl), mas também uma certa Katherine Brewster (Danes). O motivo? Ela será esposa de Connor e os filhos do casal `serão importantes`. Ora, mas se o líder dos humanos no futuro já havia derrotado as máquinas, que importância (`historicamente` falando) poderiam ter seus filhos? E se ele ainda não venceu a revolução, como seus descendentes podem ter importância para o Futuro se ainda são apenas crianças? A resposta é óbvia: esta foi apenas uma desculpa encontrada pelos roteiristas para envolver a personagem de Danes na trama e apresentá-la como interesse romântico do herói. Até aí, tudo bem: apesar de medíocre, a `revelação` não compromete a lógica dos filmes anteriores. Lamentavelmente, no entanto, T3 não pára por aí e acaba introduzindo uma série de novos conceitos a respeito da Skynet que contradizem radicalmente os elementos principais dos dois primeiros capítulos – e isso é imperdoável, já que, em retrospecto, acaba prejudicando seus antecessores (por que devemos nos importar com os esforços feitos por Sarah, John e o Exterminador para destruir o prédio da Cyberdine, em O Exterminador do Futuro 2, se agora sabemos que suas ações são inúteis e equivocadas?).

E mais: incapazes de apresentarem argumentos convincentes para suas `revelações`, os roteiristas John D. Brancato e Michael Ferris limitam-se a fazer com que John Connor diga algo como `Agora compreendo. O [blábláblá] sempre foi a chave de tudo!`. Infelizmente, seu raciocínio não possui a menor lógica – e, mesmo que fizesse sentido, por que Reese (vivido por Michael Biehn) ou o T-800 nada disseram a respeito disso no primeiro ou no segundo filme, respectivamente? Aliás, o roteiro não consegue sequer explorar suas poucas idéias inspiradas, como a reviravolta envolvendo a programação do Exterminador e a reação de John ao descobrir como o andróide foi parar nas mãos dos rebeldes do futuro (pense bem: não deveria haver ao menos uma certa tensão entre o jovem e a máquina?).

Mas a grande decepção de O Exterminador do Futuro 3 diz respeito ao personagem-título: depois de se transformar em uma figura complexa e comovente no filme anterior, o T-800 (agora T-850) vira um mero acessório nesta terceira parte, praticamente se tornando um coadjuvante. Não há, aqui, o menor sinal da química e da relação dinâmica entre o andróide e seus protegidos – elementos que fizeram de O Julgamento Final uma produção tão memorável. Como se não bastasse, o Exterminador age de maneira contraditória: em certo momento, por exemplo, ele esclarece não ser o mesmo andróide visto anteriormente, mas apenas um outro exemplar da mesma linha (algo lógico): porém, ele evita matar humanos e, em determinada cena, abre o quebra-sol de um carro para procurar as chaves do veículo – duas coisas que ele havia aprendido no segundo filme! Por outro lado, é inevitável reconhecer que Schwarzenegger confere grande carisma ao personagem, arrancando risadas com suas piadinhas e dominando a tela sempre que aparece (e sua forma física, aos 56 anos de idade, é admirável).

Em contrapartida, Kristanna Loken provoca pouco impacto como a Terminatrix: embora possua muito mais recursos que os vilões anteriores (sendo capaz de acessar a Internet, realizar exames de DNA e transformar seus braços em armas poderosas), a andróide não age com a mesma determinação implacável do T-1000 e jamais chega a ameaçar realmente a vida dos heróis. Além disso, a atriz falha ao procurar manifestar algumas reações, abandonando a impassividade assustadora que um robô deveria ter (a título de comparação, observe como o olhar sempre `inexpressivo` de Robert Patrick, em O Julgamento Final, transforma seu personagem em uma figura ainda mais assustadora). Fechando o elenco feminino, Claire Danes até funciona como Kate Brewster, personificando o único elemento passional da história: como Sarah Connor no original, a garota nada sabe sobre o futuro, apavorando-se com suas descobertas e com as ameaças à sua vida.

Finalmente, chegamos a John Connor – o principal motivo que faz O Exterminador do Futuro 3 ficar acima da média: traumatizado e deprimido, o rapaz é um personagem fascinante, já que o peso de seu destino (e a glória associada à sua futura liderança) simplesmente o impede de aproveitar o presente. Não é à toa que o sobrenome `Connor` possui o mesmo número de letras que o de Jesus Cristo, com quem o herói também divide a inicial do primeiro nome – John é um Salvador, um Messias: quando pergunta porque recebeu a tarefa de liderar os humanos, ele ouve a seguinte resposta: `Porque você é John Connor`. Em outras palavras: ele deve carregar o peso de ser alguém que ainda não é; deve viver à espera de que seu destino se realize, contentando-se com a mediocridade do anonimato enquanto o futuro não chega. E o que é mais doloroso: para cumprir seu glorioso destino, John deve testemunhar o fim do mundo, o que não deixa de representar uma trágica ironia do destino. O sujeito é, enfim, o veterano ansioso e triste que sua mãe foi no filme anterior – e aí reside a principal força deste novo capítulo.

Comandando com competência as cenas de ação, Jonathan Mostow procura desviar a atenção do espectador para que este não note as falhas no roteiro – e, de certa forma, consegue. Não é à toa que estou conferindo 3 estrelas a um filme tão equivocado. Ainda assim, não deixa de ser lamentável que a melhor seqüência seja a perseguição que acontece no início da história, já que o restante da projeção jamais consegue se igualar em ritmo ou tensão.

Lamentável, também, é ver a filosofia dos dois primeiros capítulos (`Não há destino - exceto o que fazemos`) ser descartada em prol de uma visão de `predestinação`, de inevitabilidade dos acontecimentos, pois isso, mais uma vez, nos leva a encarar as ações da valente Sarah Connor como um simples desperdício de suor. E este é o maior pecado do terceiro filme.
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02 de Julho de 2003

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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