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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
18/11/2015 20/11/2015 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Paris

Jogos Vorazes: A Esperança - O Final
The Hunger Games: Mockingjay - Part 2

Dirigido por Francis Lawrence. Roteiro de Peter Craig e Danny Strong. Com: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Julianne Moore, Sam Claflin, Elizabeth Banks, Willow Shields, Mahershala Ali, Jena Malone, Jeffrey Wright, Natalie Dormer, Michelle Forbes, Elden Henson, Wes Chatham, Patina Miller, Stanley Tucci, Donald Sutherland e Philip Seymour Hoffman.

Ao longo dos três primeiros filmes da série Jogos Vorazes, passei a ser um admirador de Katniss Everdeen (Lawrence): jovem forte, segura (mesmo que compreensivelmente sujeita a momentos de fraqueza) e que jamais transforma os homens em prioridade por mais que seja disputada por dois valorosos pretendentes, a personagem surgiu em um momento no qual o Cinema parecia encarar, como protótipo de protagonista feminina, uma garota submissa como Bella Swann, que sacrificava tudo por seu amado (e insuportável) Edward. Adaptados a partir dos livros de Suzanne Collins, os longas usavam a distópica Panem como uma clara alegoria política – e mesmo que a falta de foco temático do original tenha me incomodado, os seguintes certamente se mostraram bem mais seguros em sua discussão não só sobre insurreições populares, mas também sobre o papel da mídia em qualquer conflito.


Mais uma vez escrito por Peter Craig e Danny Strong, o roteiro deste desfecho retoma a história a partir do instante em que Katniss descobre, chocada, os efeitos da tortura sofrida por Peeta (Hutcherson) enquanto aprisionado por Snow (Sutherland) e que levaram o rapaz a aparentemente odiá-la. Determinada a matar o ditador, a heroína inicia uma jornada como parte do pelotão 451 (cof-Bradbury-cof) rumo à mansão de Snow, sendo acompanhada por Gale (Hemsworth), pelo próprio Peeta (ainda instável) e por diversos soldados escalados pela presidente Coin (Moore) para a realização de vídeos de propaganda, que se mostram tão ou mais importantes que as batalhas em si.

Rodado pelo diretor Francis Lawrence e pelo diretor de fotografia Jo Willems como um filme de guerra ambientado em paisagens urbanas (a influência das produções que enfocam o conflito no Iraque é esteticamente óbvia), A Esperança – O Final usa a câmera na mão como forma de criar tensão e urgência, sendo também dominado (especialmente no primeiro ato) por uma atmosfera sombria que usa a escuridão como estratégia para expor a angústia de Katniss diante da situação que enfrenta. A partir daí, à medida que a narrativa se concentra na trajetória dos rebeldes pelas ruas da Capital, o filme vai da melancolia à ação, empregando o conceito dos “casulos” (minas que podem assumir qualquer característica) para manter a inventividade dos obstáculos vistos na arena dos jogos que dão título à série.

Abandonando de vez as cores que surgiam ao retratar os habitantes da Capital e abraçando o cinza e o bege poeirento das ruínas dos distritos de Panem, o longa traz ao menos duas ótimas sequências de ação: aquela que envolve uma inundação de uma espécie de óleo e outra que, acompanhando o pelotão pelos túneis claustrofóbicos situados sob a cidade, remetem curiosamente a Aliens, o Resgate ao empregarem um aparelho capaz de detectar ameaças (anunciadas por bips em ritmo crescente) e monstros que, surgindo da escuridão, têm cabeças enormes, peles pegajosas e dentes afiados, saltando sobre os heróis sem qualquer aviso. Assim, é uma pena que, no auge deste último confronto, o cineasta perca o controle da mise-en-scène, construindo a sequência de forma tão confusa que, para sabermos quem está lutando com quem, é preciso que Katniss grite os nomes dos envolvidos.

E por falar em Katniss, é notável como Jennifer Lawrence consegue conferir tridimensionalidade à heroína desde o princípio, como ao adotar uma voz rouca e cansada ao reagir à lavagem cerebral sofrida por Peeta ou ao sugerir impaciência diante da insistência de Cressida (Dormer) em registrar todas as suas ações. No entanto, o mais admirável é perceber como, a partir de certo ponto da narrativa, quando a jovem testemunha algo particularmente trágico (não, não revelarei nada), Lawrence adota um olhar inexpressivo, distante, como se Katniss houvesse finalmente se partido por dentro – e a recuperação gradual de alguma vida ainda possível é ilustrada também através de seus olhos, o que comprova seu talento e sua sensibilidade como intérprete. Enquanto isso, Donald Sutherland volta a fazer aquilo no qual se especializou ao longo de sua brilhante carreira, tornando Snow fascinante não graças a histrionismos, mas sim através do cinismo do sujeito, que parece mais letal ao sorrir do que ao exibir algum sinal de raiva. E se Philip Seymour Hoffman (suspiro) ilustra a inteligência e a percepção de Plutarco ao olhar com curiosidade para a presidente Coin enquanto esta faz um discurso, Julianne Moore também explora o arco de sua personagem de maneira eficiente, embora o roteiro acabe por tornar um pouco óbvia sua transição.

Fechando o elenco, Josh Hutcherson e Liam Hemsworth continuam a criar uma dinâmica complexa relacionada aos sentimentos de seus personagens por Katniss, evitando soluções fáceis e maniqueístas para o triângulo amoroso (embora certa atitude de um deles ajude nisso), ao passo em que Sam Claflin, como Finnick, parece ter o destino de seu personagem tatuado na testa desde o primeiro segundo de projeção graças aos clichês do roteiro e à falta de sutileza da direção de Francis Lawrence. Para finalizar, Jogos Vorazes, como série, comete um erro grosseiro ao apresentar tão tardiamente uma personagem tão importante para o desfecho quanto a Comandante Paylor de Patina Miller, introduzindo-a apenas em A Esperança – Parte 1 e, mesmo assim, de forma tão desleixada que eu mal me lembrava da personagem.

De todo modo, o ritmo irregular deste último capítulo e mesmo seus problemas estruturais acabam sendo compensados, em parte, por sua ambição temática, já que resiste à tentação de encerrar a história com uma derrota simplista do vilão, enfocando também as consequências que uma revolução como a retratada aqui teria na realidade (e ecos da Primavera Árabe certamente podem ser ouvidos no filme).

E é justamente a abordagem adulta da saga que torna a cena que a encerra tão decepcionante, artificial e infantil, desperdiçando a oportunidade de um desfecho orgânico que, se viesse um fade out antes, tornaria a experiência bem mais coesa e impactante, fazendo jus à inteligência e à complexidade de sua excepcional protagonista.

19 de Novembro de 2015

Textos sobre os longas anteriores: Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança – Parte 1.

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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