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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/12/2018 21/12/2018 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Warner

Aquaman
Aquaman

Dirigido por James Wan. Roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall. Com: Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Dolph Lundgren, Yahya Abdul-Mateen II, Temuera Morrison, Michael Beach, Ludi Lin, Randall Park, Graham McTavish, Leigh Whannell, Otis Dhanji, Kekoa Kekumano, Nicole Kidman e as vozes de John Rhys-Davies, Djimon Hounsou e Julie Andrews.

“Ah, não, o Aquaman não!”

Invariavelmente, era isso que me vinha à mente quando, ainda criança, assistia aos desenhos dos “Super Amigos” na tevê e percebia que o herói aquático faria parte do episódio. Com uma personalidade nula, superpoderes tolos (falar com peixes? Sério?) e um visual desinteressante, ele conseguia ser o integrante mais aborrecido da Liga da Justiça, superando até mesmo o macaco azul dos Super Gêmeos. Assim, a ideia de assistir a um longa protagonizado pelo personagem não me parecia tentadora – especialmente considerando que seria interpretado por Jason Momoa, um ator cuja limitação havia parecido evidente em sua performance dolorosa em Conan, o Bárbaro. Por outro lado, depois de me surpreender com a composição de bad boy que conferiu a Aquaman em Liga da Justiça, percebi que havia uma esperança de que seu filme solo se revelasse no mínimo divertido.

O que não apenas se confirmou como ainda veio com o bônus de uma obra visualmente ambiciosa.

E isto é algo que o Universo Expandido da DC precisava desesperadamente, já que, sob o comando de Zack Snyder e inspirados pela atmosfera sombria estabelecida por Christopher Nolan em sua soberba trilogia, estes longas estavam se tornando cada vez mais entediantes de um ponto de vista estético, dando sinais de vida apenas em Mulher-Maravilha. Aliás, esta seria uma escolha desastrosa em um projeto como Aquaman, que, em sua essência, exige uma leveza que se adeque à tolice inerente ao seu conceito básico, que envolve indivíduos cavalgando tubarões, crustáceos (ou similares) gigantescos, polvos batucando tambores e um homem que se comunica com os peixes – além de elementos clássicos como príncipes bastardos, disputas de trono e amores proibidos.

O tom da narrativa, contudo, pode ser resumido pela abordagem de Jason Momoa, que, ao contrário do Super-Homem de Henry Cavill e do Batman de Ben Affleck, vive Arthur (que outro nome o herdeiro de Atlântida poderia ter?) como um super-herói que gosta de sê-lo, que sente prazer ao utilizar seus poderes e que não é definido por traumas, inseguranças e medos. Exibindo carisma e um físico imponente, Momoa usa o visual cabeludo, barbado, para conferir um ar de rebeldia bem-vindo ao personagem, o que compensa até o exagero no número de planos nos quais surge olhando por cima dos ombros (algo sempre acompanhado por acordes de guitarra) ou por sua postura hilária na cena em que conversa com Vulko (Dafoe) e Mera (Heard) nos escombros de um barco, quando mantém as pernas tão afastadas uma da outra que me atrevo a dizer que se tornou o primeiro humano a conseguir fazer abertura mesmo permanecendo em pé. E já que mencionei Mera, é importante apontar que a dinâmica entre Momoa e Amber Heard funciona mesmo que o roteiro abuse do clichê do casal-que-vive-discutindo-porque-no-fundo-se-ama, o que é importante para manter o espectador interessado na subtrama romântica.

O elenco da produção, diga-se de passagem, é notável: além de trazer Willem Dafoe, Dolph Lundgren (pois é!) e Temuera Morrison em participações significativas e eficazes, o filme ainda permite que o sempre subestimado Patrick Wilson (em mais uma parceria com o diretor James Wan) crie um vilão tridimensional que hesita em eliminar seus inimigos, exibe compaixão (ainda que pontualmente) e, mais importante, tem motivações com as quais podemos nos identificar – particularmente ao apontar como os humanos caminham rumo à autodestruição em seus impulsos belicistas e poluentes. Em contrapartida, Yahya Abdul-Mateen II pouco pode fazer com seu Arraia Negra que, além de inexpressivo, ainda é prejudicado pelo design ridículo de sua armadura, já que seu imenso capacete lhe confere um ar inadvertidamente cômico que remete ao Dark Helmet de Rick Moranis em S.O.S.- Tem um Louco Solto no Espaço (e sei que é bobagem reclamar disso em uma produção como esta, mas é difícil aceitar que o sujeito seja capaz de resistir a tantas quedas e pancadas, já que, ao contrário dos demais, não tem superpoderes reais). Para finalizar, Nicole Kidman traz elegância e força à Rainha Atlanna, surpreendendo também em uma excelente cena de luta no primeiro ato – mesmo que auxiliada por efeitos visuais.

A ação, por sinal, é um elemento obviamente importante de Aquaman e que é conduzida com competência por James Wan: a passagem citada acima, por exemplo, deixa de ser um simples confronto físico graças à decisão do cineasta de encená-la sem cortes aparentes e com uma câmera que traz vigor à coreografia, circulando os personagens, aproximando-se ou subindo e descendo de acordo com os golpes desferidos. Ágil ao também manter a narrativa sempre em movimento, saltando entre locações e cenários diversos, Wan é especialmente brilhante na sequência que se passa na Sicília e que inclui um plano impressionante no qual acompanhamos um vilão enquanto este arrebenta várias paredes em sucessão, quando então o deixamos em um movimento fluido e observamos Mera em sua corrida sobre vários telhados, culminando em um travelling que nos leva até o personagem-título que se encontra em sua própria batalha – uma tomada que me lembrou de outra similar (mas ainda mais ambiciosa, já que a animação assim o permitia) de As Aventuras de Tintim.

E se há certo exagero na repetição de cenas nas quais explosões súbitas interrompem conversas entre os personagens, o diretor compensa estes tropeços ao também aproveitar sua experiência no gênero Terror (Jogos Mortais, Invocação do Mal 2) para criar uma sequência tensa em alto-mar, à noite, quando Aquaman e Mera são atacados por criaturas do Reino do Fosso e que culmina numa das imagens mais belas do longa: aquela em que o casal mergulha segurando um sinalizador que emite uma forte chama e, então, testemunhamos a sombra vermelha resultante enquanto afundam perseguidos pelos monstros. Do mesmo modo, o design de produção de Bill Brzeski impressiona ao conceber os diversos reinos submarinos com identidades próprias e escalas grandiosas, criando cataratas submersas, prédios reluzentes que se erguem sobre ruínas cobertas de musgos e naves que remetem a criaturas marinhas em suas formas e movimentos sinuosos. . Enquanto isso, os figurinos de Kym Barrett empregam as cores de maneira expressiva, desde as armaduras do exército real (é divertido como os soldados de branco são facilmente derrotados, cedendo lugar a outros vestidos de vermelho, mais perigosos) até aquelas usadas pelo Rei Orm, que inicialmente surge coberto de dourado, sugerindo seu poder, até eventualmente substituí-la pelo roxo que denuncia o perigo mortal que representa. Além disso, é interessante constatar o contraste entre o vestido de festa de Mera, que traz elementos similares a águas-vivas, e sua roupa habitual coberta de escamas.

Eficaz também em sua montagem, que evita que os flashbacks pontuais quebrem o ritmo da narrativa ao usarem transições interessantes entre presente e passado, Aquaman peca apenas na montagem que acompanha o Arraia Negra enquanto este estuda a tecnologia atlante, passa a dominá-la, combinando-a com sua própria, e encontra tempo até mesmo para pintar sua nova armadura no reduzido espaço de tempo em que os heróis caminham pelo deserto.

Bem-intencionado ao incluir a importância da preservação ambiental entre seus temas – notem como o povo de Atlântida convive bem com a natureza que o cerca, dividindo seu espaço harmoniosamente com os animais marinhos -, Aquaman é irreverente mesmo que, ao longo da projeção, faça questão de criar imagens icônicas centralizadas em seu protagonista, destacando-se aquela em que o vemos, ainda criança, diante de um imenso aquário e, claro, a que encerra o filme.

E se há algo que eu realmente não esperava era sair da sessão admirando o personagem que tanto detestei na infância e desejando vê-lo em novas aventuras solo em vez de dividindo espaço na tela com super-heróis amargurados, torturados e incrivelmente aborrecidos.

Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais.

13 de Dezembro de 2018

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Assista também ao videocast sobre o filme:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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