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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/05/2019 15/05/2019 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Paris

John Wick 3: Parabellum
John Wick: Chapter 3 - Parabellum

Dirigido por Chad Stahelski. Roteiro de Derek Kolstad, Shay Hatten, Chris Collins e Marc Abrams. Com: Keanu Reeves, Ian McShane, Laurence Fishburne, Mark Dacascos, Asia Kate Dillon, Lance Reddick, Tobias Segal, Saïd Taghmaoui, Jerome Flynn, Randall Duk Kim, Margaret Daly, Jason Mantzoukas, Halle Berry e Anjelica Huston.

Lançado em 2014, De Volta ao Jogo partia de uma premissa tão simples que parecia destinada ao escárnio: um ex-assassino profissional, inconformado diante da execução do cãozinho que havia recebido de presente da falecida esposa, se lançava em uma jornada de vingança que acabava por colocá-lo no caminho de uma poderosa organização. No entanto, o que tinha tudo para se tornar uma daquelas produções lançadas diretamente em DVD acabou se revelando um dos melhores filmes de ação do ano, superando facilmente – não nas bilheterias, mas junto à crítica – superproduções como Transformers: A Era da Extinção, O Espetacular Homem-Aranha 2, Godzilla e as partes 3 de O Hobbit e Jogos Vorazes.

Marcando a estreia na direção do ex-dublê Chad Stahelski, que começou a trabalhar com Keanu Reeves em Matrix e repetiu a parceria em suas continuações e em O Dom da Premonição, Constantine e diversos outros projetos, De Volta ao Jogo trazia a violência gráfica como princípio estético e fonte de catarse, preocupando-se apenas perifericamente em estabelecer o universo habitado pelo (anti-?)herói. Isto mudou de modo considerável na continuação, Um Novo Dia para Matar, que expandiu o conceito da Cúpula, organização secreta e poderosa que comandava assassinos em todo o mundo e que, neste Parabellum, anuncia um prêmio de 14 milhões de dólares pela cabeça de John Wick (Reeves) depois que este cometeu a imperdoável infração de matar alguém dentro do Hotel Continental de Nova York, propriedade do grupo.

A rigor, este ponto de partida deveria ser mais do que suficiente para carregar o filme; no entanto, o roteiro escrito a oito mãos insiste em ampliar a mitologia da série a fim de incluir mais hotéis, outros grupos de criminosos (como aquele comandado pela Diretora vivida por Anjelica Huston) e até mesmo uma espécie de “Casa da Moeda” da Cúpula sediada em – por que não? – Casablanca, onde Wick busca passagem segura (remetendo ao clássico de 1942) enquanto tenta encontrar o líder da organização. Infelizmente, em vez de tornar aquele mundo mais interessante, o efeito obtido é o oposto, inchando desnecessariamente a trama e desviando o foco daquilo que a trilogia faz de melhor: criar sequências de ação complexas e empolgantes.

Na realidade, tudo que precisaríamos saber sobre a Cúpula é dito pelo excelente design de produção de Kevin Kavanaugh, que a apresenta como uma entidade cujos valores “tradicionais” são refletidos no visual vintage de seus espaços, que combinam máquinas de datilografia, monitores monocromáticos e quadros-negros com mensagens de celular, armamentos sofisticados e uma rede de comunicação eficiente. Este casamento entre tecnologia moderna e ambientes repletos de objetos antigos resume a filosofia da Cúpula com uma economia que o roteiro desperdiça através de cenas e mais cenas de exposição e diálogos que soam repetitivos, prejudicando o ritmo da narrativa (não é por acaso que cada novo capítulo da série se torna mais longo: se o primeiro tinha ágeis 101 minutos, o segundo saltava para 122, chegando agora a excessivos 131 minutos). E se a escola de bailarinas e assassinos comandada pela Diretora é uma novidade curiosa, a revelação da identidade do líder máximo da Cúpula é decepcionante, levando a um terrível anticlímax.

Por sorte, no fim das contas John Wick 3 se salva por trazer algumas das melhores sequências de luta, perseguição e tiroteio da franquia, explorando possibilidades em cada um dos ambientes atravessados pelo personagem-título: se o sujeito vai a uma biblioteca, por exemplo, os livros se tornam objetos mortais, ao passo que, num estábulo, os cavalos são convertidos em armas de combate cujos coices são disparados com a precisão de um revólver. Ainda assim, um dos melhores momentos do longa é aquele que ocorre numa sala repleta de facas em exposição e que se torna tão ridícula – isto é um elogio – que consegue arrancar o riso do espectador ao mesmo tempo em que admiramos a coreografia da luta criada pelo dublê Jonathan Eusebio. Aliás, cada cenário representa uma oportunidade nova para o filme, seja ao trazer piscinas internas ou – meu favorito – vários andares compostos de vidro e telões de LED.

Juntando-se a Neo e a Ted Logan na galeria de personagens célebres vividos por Keanu Reeves nas últimas décadas, John Wick difere dos demais por apresentar uma natureza impiedosa que só não nos leva a encará-lo como um monstro completo por ser o ponto de vista central da narrativa, que nos força a enxergar seu lado como o mais nobre (ou o menos reprovável). Porém, negar sua psicopatia é impossível, já que, em mais de um momento, ele faz questão de executar algum oponente já neutralizado sem que haja a menor necessidade para isso (vide o clímax da sequência envolvendo facas e machadinhas). Usando sempre roupas, cortes de cabelo e barba idênticos mesmo que isto facilite sua identificação, é como se John Wick estivesse mais interessado em criar uma imagem icônica para si mesmo do que em eliminar seus oponentes – o que, claro, é justamente o propósito dos realizadores e acaba por adicionar um subtexto curioso à persona monossilábica do protagonista. Em contrapartida, Ian McShane investe na extravagância como estratégia principal, concebendo Winston como um homem que parece estar sempre se divertindo com piadas internas à custa de todos os demais personagens, recitando suas falas com uma solenidade tão hilária que se torna claro como o ator e o próprio filme reconhecem o ridículo da proposta (e é por esta razão que a palavra se torna um elogio).

Enquanto isso, Halle Berry emprega sua passagem pelo filme quase como um teste para estrelar sua própria franquia, já que Sofia e seus dois cães roubam o filme na excepcional sequência em Marrocos, que combina movimentos de câmera, efeitos visuais, cortes eficazes e uma coreografia complexa para criar cerca de 15 minutos de ação ininterrupta e impecável. Para finalizar, Mark Dacascos – outra pequena lenda dos filmes de ação – encontra dimensão em um personagem que poderia facilmente ter se tornado um antagonista genérico (e confesso que em certo momento, quando ele manifesta sua admiração por um John Wick pouco receptivo e até mesmo grosseiro, me identifiquei com a frustração de alguém que conhece um ídolo apenas para descobrir se tratar de um imenso babaca).

Embora não alcance o mesmo fôlego do recente Missão: Impossível – Efeito Fallout, que encaro como uma obra-prima do gênero, John Wick 3 é uma obra notável que só é prejudicada pela percepção errônea de precisar de um roteiro elaborado (pois é), que falha até mesmo em avançar a história, o que seria mais importante do que introduzir uma dezena de personagens e conceitos novos (notem que, a rigor, o longa termina onde começou; a situação do protagonista basicamente não muda um centímetro, o que é um tropeço estrutural lamentável).

Considerando que em três filmes acompanhamos apenas um mês na vida de John Wick – e sabendo que o quarto capítulo já foi confirmado -, espero que os próximos três dias do personagem façam jus ao que vimos até agora e reconheçam que os rituais, as moedas douradas e o latim são o que menos importam; no fundo, o que queremos é vê-lo arrebentando o mundo ao seu redor.

03 de Junho de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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