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Dor e Glória

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Pedro Almodóvar. Com: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Leonardo Sbaraglia, Asier Etxeandia, Cecilia Roth, Raúl Arévalo, Nora Navas, Agustín Almodóvar e Julieta Serrano.

Até 2006, quando lançou o ótimo Volver, o espanhol Pedro Almodóvar parecia quase à prova de falhas. A esta altura, já havia dirigido obras ímpares como Matador, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Ata-me, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Má Educação – uma lista de fazer inveja em qualquer cineasta -, mas a partir daí os resultados começaram a piorar consideravelmente e sua estética particular deixou de parecer assinatura e se transformou em maneirismo. Ao mesmo tempo, depois de demonstrar um equilíbrio admirável no melodrama, ele perdeu a mão de vez em desastres como Abraços Partidos e Julieta, tropeçando também no humor forçado de Os Amantes Passageiros. Sim, no meio disso tudo veio o soberbo A Pele que Habito, um dos melhores de sua carreira, mas os equívocos já haviam se tornado numerosos o bastante para que seu novo filme, Dor & Glória, se tornasse uma incógnita.

E é um alívio vê-lo de volta à boa forma.

Desta vez, o protagonista é Salvador Mallo (Banderas), um diretor e roteirista que, atormentado por dores crônicas e emocionais, decidiu se afastar temporariamente do Cinema e já se encontra há três anos sem se dedicar a um projeto. Quando um de seus primeiros trabalhos ganha uma restauração da cinemateca espanhola, que também o convida para apresentar as sessões ao lado do ator Alberto Crespo (Etxeandia), ele revisita o filme e, para sua surpresa, gosta do que vê, já que na época do lançamento original havia brigado com o protagonista por detestar sua performance. A partir daí, acompanhamos o sujeito enquanto restabelece contato com Alberto, entrega-se ao vício em heroína, descobre novos problemas de saúde e reflete sobre a infância pobre ao lado da mãe, Jacinta (Cruz).

É aqui que o espectador mais atento notaria a distância de três anos entre Dor & Glória e Julieta, filme anterior de Almodóvar, e também o fato de que seu sobrenome está todo contido em “Salvador Mallo”. Encarnado por Banderas como um homem triste, solitário e exausto o tempo todo, o personagem é ao mesmo tempo uma representação de paralisia criativa e das dores e ressentimentos que se acumulam ao longo da vida e subitamente retornam para cobrar um preço, sendo magistral a disciplina do ator ao ilustrar a natureza contida do personagem, que mesmo ao expressar suas mágoas busca tratá-las como algo inevitável a ser eventualmente compartimentalizado e deixado para trás. Com uma postura sempre rígida em função das dores nas costas, Salvador surge como um homem sem prazeres – e até suas experiências com a heroína soam desinteressadas e distantes. Por outro lado, seu afeto pela mãe é visível, sendo as cenas entre Banderas e a veterana Julieta Serrano, que interpreta a versão idosa de Jacinta, algumas das melhores da narrativa, contendo doçura e rancores numa mistura tocante (aliás, é a terceira vez que os dois interpretam mãe e filho para Almodóvar).

Dominando cada segundo que está em cena, Antonio Banderas confere uma delicadeza linda ao personagem, disparando um olhar infantilizado em direção à mãe, por exemplo, que resume sem necessidade de palavras como se posiciona diante desta. Da mesma maneira, a cena que divide com Leonardo Sbaraglia, que interpreta um antigo amor, é construída com paciência pelos dois atores, pelo diretor e pela montadora Teresa Font, que, juntos, condensam décadas de conversas perdidas em alguns minutos – e novamente os olhares são determinantes para o êxito desta magnífica passagem, revelando de expectativas a frustrações, passando por feridas reabertas e potencialmente cicatrizadas, lágrimas e sorrisos, sem a necessidade de palavras ou movimentos. Fechando o elenco, Penélope Cruz projeta intensidade, severidade e ternura na mesma medida, ganhando uma dimensão mais ampla e ambígua graças ao surpreendente plano final da projeção.

Fluindo com ritmo pelas duas linhas temporais, Dor & Glória justifica sua estrutura não apenas nos já mencionados segundos finais do longa, mas ao oferecer pinceladas de informações que enriquecem as composições dos atores – e quando Banderas sorri rapidamente ao ver a pintura de um céu retratado através de grades no teto, por exemplo, compreendemos a lembrança que aquilo recupera e por que ele a apreciaria. Aliás, o design de produção do filme, como já seria de se esperar, é estupendo, imprimindo personalidade ao amplo e bem decorado apartamento de Salvador (além de sugerir sua solidão) e um primitivismo atraente ao seu lar de infância.

Não posso dizer, claro, o quão autobiográfico é Dor & Glória, mas se há algo que Salvador e Pedro certamente aprenderam bem ao longo dos anos é como digerir suas dores e transformá-las em Arte.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019.

17 de Maio de 2019

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

É um alívio ver Almodóvar de volta à boa forma.

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário16 de jun. de 2019

Um bom filme. Triste, sem muito alento para o espectador. Boa direção e boa fotografia. Não concordo com o que a maioria dos críticos dizem sobre o filme ser uma volta por cima de Almodóvar, pois os filmes anteriores dele são bons também. "Julieta" por exemplo achei melhor que este.

User
Usuário16 de jun. de 2019

Um bom filme. Triste, sem muito alento, boa fotografia e direção. Não concordo com o que a maioria dos críticos dizem sobre o filme ser uma volta por cima. Os filmes anteriores de Almodóvar também são bons. "Julieta" inclusive considero melhor que esse.