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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/09/2019 03/07/2019 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Paris Filmes

Midsommar: O Mal Não Espera a Noite
Midsommar

Dirigido e roteirizado por Ari Aster. Com: Florence Pugh, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson, Mats Blomgren, Hampus Hallberg, Louise Peterhoff, Björn Andrésen.

Em certos aspectos, Midsommar: O Mal Não Espera a Noite não poderia estar mais distante de Hereditário, trabalho anterior do cineasta Ari Aster: onde um mergulha na escuridão com entrega total, o outro faz tanta questão de manter-se na claridade que ambienta sua história numa latitude na qual a noite dura pouquíssimas horas; do mesmo modo, se um investia no sobrenatural para buscar seu horror, o outro jamais tenta ignorar que o maior (e único) mal possível parte do próprio Homem. Já de um ponto de vista temático, ambos os filmes dividem preocupações curiosamente similares sobre perda, luto e o próprio conceito de “família”, permitindo que Aster explore as complexidades de nossas relações enquanto faz ótimos exercícios de gênero.

Ancorado pela talentosa Florence Pugh, Midsommar nos apresenta à sua personagem, Dani, que é atingida por uma tragédia colossal e busca consolo junto ao namorado Christian (Reynor) mesmo percebendo que este só não encerra o relacionamento por pura covardia – uma fraqueza tão grande que acaba levando-o a convidar a moça para acompanhá-lo em uma viagem à Suécia que fará ao lado dos amigos Josh (Harper) e Mark (Poulton) para visitar a pequena comunidade de um outro colega, Pelle (Blomgren), e conhecer o festival que realizam a cada 90 anos. Aos poucos, porém, Dani começa a identificar sinais de que talvez os anfitriões suecos não sejam tão amistosos quanto querem parecer, já que seus rituais sinalizam uma obsessão preocupante com a morte.

Bebendo sem pudores na fonte do folk horror, gênero que inclui os seminais O Homem de Palha, O Estigma de Satanás e O Caçador de Bruxas, o filme extrai inquietação dos modos deliberados dos participantes/organizadores do festival, que, com suas roupas brancas, longos abraços e olhares carregados de segundas intenções, podem ser vistos com frequência em ações estranhas ao fundo em vários quadros, mantendo de modo sutil o público sempre desconfortável – algo ressaltado pelos planos longos e os lentos movimentos de câmera. Enquanto isso, a trilha dissonante de Bobby Krlic (leia-se: The Haxan Cloak) reflete o caos oculto pela superfície de luz e calma do lugar, o que também é sugerido pelo vertiginoso plano que inverte o mundo dos personagens quando o carro que ocupam se aproxima de seu destino.

Mais uma vez brincando com reflexos e a dualidade que simbolizam, o cineasta desta vez se permite maior liberdade ao investir em uma paleta de cores mais variada e que atravessa seu próprio arco, iniciando no ambiente escuro e de tons tristes habitado por Dani (até os raios de sol que com frequência se tornam visíveis graças a partículas em suspensão – ou fumaça –parecem melancólicos) até culminar numa pequena explosão de cores no clímax que flerta com o Technicolor ao trazer vida à Natureza que os locais encaram como eixo central da comunidade. Não à toa, a protagonista desde o princípio enxerga, quando sob a ação de alucinógenos, a grama se tornando parte de seu próprio corpo – e, mais tarde, uma elaborada coroa de flores inclui uma que pulsa como se respirando.

É neste pertencimento, nesta fusão entre Dani e o ambiente natural que a cerca, que Midsommar simultaneamente se aproxima e se distancia de Hereditário: se ambos têm, como centro, a destruição do núcleo familiar e da estabilidade que este proporciona, a reconstrução de algum tipo de suporte em torno da(o) protagonista é feita, também nos dois filmes, por meio de rituais pagãos que a(o) trazem para seu centro; a diferença surgindo no grau de autonomia da(o) personagem. No longa de estreia de Ari Aster, o jovem Peter (Alex Wolff) se mantém perdido do princípio ao fim, mantendo-se passivo e impossibilitado de definir o próprio destino até o último segundo; já em Midsommar, Dani ganha certa agência ainda que possamos questionar até que ponto esta é real ou não (se evito ser mais específico é por não desejar mencionar spoilers desnecessários).

Contudo, bem mais importante do que a oportunidade de passar da inércia à ação é o gradual sentimento de acolhimento emocional e psicológico experimentado pela jovem: compare, por exemplo, seu choro desesperado no primeiro ato, deitada no colo do namorado que parece não saber o que fazer ou como consolá-la, e o magistral instante em que sua dor é abraçada, compartilhada e refletida por várias outras garotas que passam a dividir seu sofrimento de uma forma provavelmente inédita em sua vida, transformando seu padecimento em catarse em uma cena que ilustra o poder sedutor da religião através da promessa de comunidade.

Mesmo que, no processo, parte da identidade do convertido se torne definida por aqueles que empregarão a influência conquistada para seus próprios fins. Algo que, ao seu próprio modo, representa o mais puro terror.

25 de Setembro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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