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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/10/2019 04/10/2019 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Warner

Coringa
Joker

Dirigido por Todd Phillips. Roteiro de Todd Phillips e Scott Silver. Com: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen, Shea Whigham, Bill Camp, Glenn Fleshler, Leigh Gill, Josh Pais, Sondra James, Douglas Hodge, Dante Pereira-Olson, Hannah Gross, Brian Tyree Henry, Gary Gulman e Marc Maron.

A pior parte de se ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse.

Solitário, deprimido, pobre e atormentado por um distúrbio neurológico que o leva a gargalhar sempre que fica ansioso, Arthur Fleck (Phoenix) é um homem que, próximo da meia-idade, ainda vive com a mãe em um apartamento minúsculo e trabalha como o palhaço mais triste de Gotham City para uma agência decadente que fornece “entretenimento” para pequenas lojas e hospitais pediátricos – e a frase acima, escrita em letras irregulares em meio a uma dúzia de outras anotações confusas, pode ser lida no diário que abriga seus pensamentos e as “piadas” que concebe para um futuro show de stand-up. Sentindo-se cada vez mais incapaz de lidar com a hostilidade do mundo, ele afunda pouco a pouco no lodo da misantropia e do ressentimento enquanto caminha rumo a uma transformação que sabemos ser inevitável por reconhecê-la no título do filme que conta sua história.

Abrindo a projeção com a imagem entristecida do protagonista enquanto tenta moldar à força um sorriso em seu próprio rosto – e que se torna ainda mais excruciante por se contrapor à lagrima borrada de maquiagem que deixa um rastro azul em sua bochecha -, Coringa é ambientado em uma Gotham que, no início da década de 80, encontra-se em crise graças a uma longa greve dos coletores de lixo e de uma recessão econômica que, para variar, pune a população mais pobre enquanto os ricos se mantêm confortáveis e aproveitam a situação para aumentar sua influência política (entre estes, Thomas Wayne, que se lança como candidato à prefeitura). Preocupado com a mãe doente (Conroy) e encantado pela bela vizinha Sophie (Beetz), Arthur sonha em se apresentar no programa de tevê comandado pelo comediante Murray Franklin (De Niro) e se esforça para manter algum equilíbrio psicológico através de medicamentos e das sessões com uma psicóloga/assistente social – dois suportes importantes cujas verbas públicas os políticos locais não hesitam em eliminar.

Inspirando-se claramente em elementos de Taxi Driver e O Rei da Comédia (a escalação de De Niro, em particular, é um toque brilhante), o roteiro escrito pelo diretor Todd Phillips ao lado de Scott Silver estrutura a história de origem de um dos vilões mais icônicos dos quadrinhos como um angustiante estudo de personagem, indo na contramão das escalas grandiosas que estes projetos costumam empregar e assumindo um tom tão sóbrio que se torna difícil conciliá-lo com os elementos mais absurdos que se encontram no futuro do sujeito (como, digamos, um homem vestido de morcego). Esta sobriedade, por sinal, é ressaltada através de um design de produção avesso a qualquer cor mais viva, situando Arthur em ambientes dominados por tons pasteis ou, em pontos mais extremos, apenas por cinza, marrom e preto - e reparem, por exemplo, a sequência na qual o personagem-título observa a vizinha indo para o trabalho e perceberão como todos os figurantes surgem em cores que seguem esta lógica visual, acentuando o contraste com o vestido vermelho (claro) da garota.

O próprio Arthur passa boa parte da projeção usando roupas de tom sóbrio (em certo ponto, a cor de seu casaco se mostra quase idêntica àquela vista em uma criança com quem conversa através de um portão, criando um paralelo fantástico entre os dois) – e esta é uma escolha importante para acentuar sua eventual “transformação” no vilão que conhecemos e que adota tons quentes e fortes que ilustram seu novo lugar no mundo. Do mesmo modo, tanto a casa do sujeito quanto o escritório de sua assistente social e o vestiário de sua agência se estabelecem como locais abarrotados e escuros, sendo que a sala de seu apartamento chega a trazer um papel de parede xadrez que, associado às grades que cercam o lobby do prédio, sugerem uma existência de aprisionamento e infelicidade. Além disso, a imensa escadaria que sempre se encontra no caminho de Arthur é um símbolo perfeito de como sua vida representa um esforço que o exaure continuamente, já que nada positivo vem com facilidade em sua direção.

Esta exaustão é visível, vale apontar, no corpo macilento de Joaquin Phoenix, que quase rivaliza com a figura adotada por Christian Bale em O Operário ao permitir que enxerguemos os contornos de seus ossos sob a pele, conferindo-lhe uma aparência doente e fragilizada. A excelente composição física do ator passa também pela maneira como sua postura parece se tornar cada vez mais torta, refletindo seu estado mental, e pela risada característica do personagem, que com frequência se confunde com o choro e sempre parece terminar com um engasgo dolorido que muito diz sobre como qualquer traço de felicidade (mesmo superficial e fruto de uma patologia) vem acompanhado de sofrimento. Aliás, é revelador como, embora suas gargalhadas incomodem aqueles ao seu redor e o encham de constrangimento, sua tristeza é aceita de modo tácito, devolvendo-o à invisibilidade, o que diz muito sobre nossa sociedade.

Coringa, por sinal, parece ter muito a dizer sobre a Sociedade e seus Males (ênfase no “parece”), já que desde os primeiros minutos a inquietação generalizada disparada pela greve dos lixeiros indica a existência de um barril de pólvora em busca de uma fagulha para explodir – uma função que o protagonista se mostra mais do que disposto a desempenhar e que se junta a outros componentes, como o desprezo da classe dominante pelos miseráveis (“Aqueles de nós que conquistaram algo na vida sempre olharão para os que nada conquistaram e verão apenas palhaços”, diz Thomas Wayne), o elitismo de uma mídia que defende os poderosos enquanto humilha quem pouco tem mesmo quando finge querer ajudar (pensem em Silvio Santos atirando aviõezinhos de dinheiro ou Luciano Huck forçando os participantes de seu programa a realizar tarefas para entretenimento do espectador em troca de ajuda) e, claro, a realidade inquestionável de que crises econômicas são momentos perfeitos para impor novos obstáculos para quem mais precisa de auxílio.

O problema é que mesmo que cada um destes elementos encontre eco em nossa realidade, a abordagem de Todd Phillips soa como os esforços de um adolescente revoltado tentando conferir sentido ao que vê e encontrando na anarquia uma “solução” atraente – e a confusão ideológica do cineasta é tamanha que ao mesmo tempo em que culpa o corte de verbas para programas sociais pela degradação mental de Arthur (que perde acesso a suporte psicológico e a medicamentos), Phillips obviamente enxerga o papel de agente do caos assumido pelo Coringa como algo admirável, como uma resposta aceitável mesmo que sob os gritos de “Matem os ricos!” – uma hipérbole contraproducente - haja um subtexto de “Destruam tudo!” que falha em constatar como o colapso do Estado representaria o fim de qualquer esperança para os mesmos indivíduos que protestam nas ruas.

Se há algum “perigo” em Coringa (e o lançamento do filme foi precedido por dúzias de artigos alarmantes e alarmistas), este será resultado do niilismo que faz parecer atraente, não de uma suposta apologia da filosofia incel, já que Arthur, ao contrário dos “virjões” misóginos, não demonstra qualquer hostilidade movida por inadequação/frustração sexual e jamais atribui seu sofrimento ao sexo feminino (e também de modo oposto aos incels, que costumam abraçar também o racismo, a xenofobia e a homofobia, o sujeito demonstra ódio pelos poderosos, não pelas minorias).

Não que seja impossível imaginar algum maluco atribuindo ao filme a responsabilidade por alguma ação de violência: assim como obras como Laranja Mecânica, Assassinos por Natureza e Clube da Luta (na crítica do qual antecipei, infelizmente com correção, que algo assim poderia acontecer) já foram associadas a atos destrutivos por parte de indivíduos instáveis, Coringa é um alvo fácil para o tipo de diagnóstico superficial e tolo que muitos costumam fazer quando uma tragédia acontece. O fato, contudo, é que qualquer estímulo pode atuar como gatilho para alguém já predisposto a cometer uma estupidez; mais importante do que culpar uma obra de ficção é tentar compreender como a realidade cria estes monstros, desde o papel das redes sociais até a desigualdade econômica crescente, passando por retóricas políticas carregadas de ódio e pela manipulação inflamatória do noticiário.

Afinal, é menos doloroso rotular o Coringa – filme e personagem – como algo pernicioso do que enxergar como falhamos cotidianamente em criar uma sociedade mais justa, inclusiva e, como consequência, menos brutal.

Pois o Coringa real não usa maquiagem de palhaço e cabelo verde enquanto incendeia as ruas de Gotham City, mas paletós caros e sapatos brilhantes em escritórios luxuosos de grandes corporações e no Congresso nacional.

02 de Outubro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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