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História de um Casamento

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Noah Baumbach. Com: Adam Driver, Scarlett Johansson, Laura Dern, Ray Liotta, Julie Hagerty, Mickey Sumner, Merritt Wever, Azhy Robertson, Brooke Bloom, Robert Smigel, Mark O’Brien, Lucas Neff, Kyle Bornheimer, Tunde Adebimpe, Wallace Shawn e Alan Alda.

História de um Casamento é um filme incomum no Cinema contemporâneo: em um cenário no qual franquias, refilmagens, reboots e adaptações de outras mídias para espetáculos caríssimos se tornaram o padrão, esta é uma obra que se concentra nas dores de um casal em um roteiro que, mesmo não contando uma história exatamente original, se originou na mente e nas experiências de seu realizador. Remetendo a longas como Cenas de um Casamento, Kramer Vs. Kramer, A Chama que Não Se Apaga e o pouco visto, mas belíssimo, Namorados para Sempre, este trabalho de Noah Baumbach acompanha o ponto final de um casamento e os conflitos que resultam do processo de separação, explorando também um pouco do terreno que o próprio diretor já havia escavado em seu ótimo A Lula e a Baleia, há 15 anos.

Aqui, o casal em questão é formado pelo diretor teatral Charlie (Driver) e a atriz Nicole (Johansson), que, além de marido e esposa, são parceiros no palco, criando uma carreira fértil e reconhecida em Nova York. Quando o filme tem início, contudo, eles já deram os primeiros passos rumo ao divórcio e Nicole se prepara para viajar para Los Angeles, onde gravará o piloto de uma série. Para complicar a situação, ela levará também o filho Henry (Robertson), o que provoca o ressentimento do ex-companheiro, que se opõe à mudança. Assim, o que a princípio deveria ser uma separação amigável vai se tornando uma disputa desgastante – especialmente depois que entram em cena os advogados Jay Marotta (Liotta) e Nora Fanshaw (Dern), representantes de Charlie e Nicole, respectivamente.

Inspirado no próprio divórcio de Baumbach e sua ex, a (excelente) atriz Jennifer Jason Leigh, História de um Casamento não foge do ambiente padrão presente em quase todas as produções do cineasta – e que apontei ao escrever sobre Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe: os personagens são artistas, há um esnobismo intelectual indiscutível na postura do protagonista, e Baumbach parece preso à sua bolha de privilégios, mostrando-se mais confortável quando não se aventura fora desta. Não à toa, ele não consegue evitar alguns tiques irritantes que soam como esperteza de roteirista convencido do próprio brilhantismo, como o momento em que Nicole diz que não consegue chorar em cena e, logo a seguir, derrama lágrimas, criando um contraste quase metalinguístico com a atriz que a interpreta, Johansson, que deixa claro que consegue. Já em outra cena, quando o portão de uma garagem apresenta problemas, é fácil antecipar a imagem que o cineasta incluirá - e, de fato, ele não resiste e corta rapidamente entre Charlie e Nicole enquanto são separados pelo portão em uma metáfora tão óbvia que parece ter saído da mente de um estudante de Cinema do primeiro período.

Por outro lado, por estar contando uma história pessoal que envolve a ex-esposa, Baumbach é forçado a estender seu olhar para além do próprio umbigo, buscando retratar os dilemas de Nicole quase com a mesma ênfase que dedica a Charlie – e é importante ressaltar o “quase”, já que este é o protagonista incontestável do longa, assumindo a posição mais vulnerável e que, por isso mesmo, tende a despertar mais simpatia. Não por acaso, é Nicole quem primeiro traz uma advogada para o caso, é ela quem leva o filho do casal para o outro lado do país e, mesmo que saibamos que Charlie a traiu, a única pessoa que vemos de fato beijando outras pessoas é a atriz, sugerindo ao mesmo tempo uma “traição” e a impressão de que o ex-marido se mantém virtuoso à sua espera. (Aliás, o próprio adultério tem sua importância diminuída quando ele afirma “Você não deveria estar chateada porque dormi com ela e sim porque eu ri com ela!”.) Para completar, o ótimo design de produção de Jade Healy estabelece uma discrepância significativa entre o escritório moderno, impessoal e frio de Nora e o espaço diminuto, amontoado e coberto por um carpete velho e sujo ocupado por Bert Spitz, primeiro advogado contratado por Charlie e que, vivido por Alan Alda – um ator conhecido por seus tipos simpáticos (e que aqui surge tocante em sua fragilidade causada pelo Parkinson)-, soa como a antítese da postura implacável da outra e que Laura Dern adota com um forte componente de idealismo que impede Nora de se tornar uma caricatura.

Além disso, embora com o tempo passemos a conhecer o protagonista com maior profundidade (e, repito por ser essencial, Charlie é o protagonista), Nicole nunca recebe atenção similar – e há uma firula descartável de diretor na cena inicial do escritório de Nora, quando Baumbach e o fotógrafo Robbie Ryan parecem demorar a encontrar o foco em um close de Nicole, que funciona como metáfora involuntária da abordagem do próprio filme com relação à personagem. Ainda assim, a performance de Scarlett Johansson é tão vívida, intensa e multifacetada que a mulher ganha contornos de complexidade que o roteiro em si não traz, permitindo que vejamos a dor e a gentileza de Nicole mesmo em seus instantes de maior raiva, o que evita que esta se torne uma autêntica antagonista. Enquanto isso, Adam Driver evoca com sensibilidade a confusão inicial de Charlie e sua dificuldade em compreender a extensão de seu problema, oscilando entre a afabilidade, a melancolia e a fúria com uma fluidez que ilustra de modo eficiente o tumulto interno do sujeito.

Porém, apesar deste relativo desequilíbrio entre os lados, História de um Casamento é uma obra bem-sucedida no aspecto que mais importa, envolvendo o espectador na dinâmica cada vez mais agressiva que se desenvolve e levando-nos a lamentar cada passo que distancia aquelas pessoas da civilidade. Neste sentido, a intermediação dos advogados contribui de forma inequívoca para o confronto, já que a ausência de uma ligação afetiva com as partes permite que se expressem sem qualquer preocupação de magoar o oponente. A esta frieza se junta a crueldade do litígio em si, que obriga o casal a se submeter a avaliações que praticamente os transformam em candidatos tentando conquistar uma posição que sempre ocuparam confortavelmente: a de pais do próprio filho.

O que eleva História de um Casamento a outro patamar, no entanto, é mesmo a cena que representa o clímax emocional da narrativa e, durando pouco mais de dez minutos, traz Nicole e Charlie buscando um entendimento definitivo e que Baumbach, auxiliado por seus dois magníficos intérpretes, conduz de maneira impecável, iniciando com um plano que traz cada um em seu próprio canto do quadro e se desenrola com inversões frequentes de suas posições na tela, closes que surgem estrategicamente com cortes rápidos em pontos de ápice de tensão e mudanças de aposento que salientam a distância entre eles até culminar numa espécie de remorso mútuo diante do que foi dito em um toque desconfortável no centro do quadro. É ali, quando ambos abandonam totalmente qualquer vestígio de polidez e se revelam como cascas preenchidas de ressentimentos acumulados, que compreendemos – com eles – a dimensão das rachaduras formadas ao longo dos anos e que finalmente levaram a barragem de consideração e afeto a se romper, permitindo que empregassem como arma toda a intimidade construída no casamento por conhecerem exatamente os pontos vulneráveis um do outro.

De certo modo, não há ódio maior e mais devastador do que aquele que, nos piores momentos, podemos sentir por quem amamos (principalmente quando o verbo está no passado), posto que este tem a tendência de se confundir com o ressentimento pelo amor destruído. Compreender este paradoxo aparente e ter a capacidade de evitar esta transformação exige maturidade e, não menos importante, a inteligência emocional de impedir que a hostilidade presente apague a lembrança do carinho passado.

Uma lição que História de um Casamento compreende e prega lindamente.

29 de Janeiro de 2020

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Enquanto escrevia sobre o filme, me dei conta de que a própria natureza da narrativa praticamente exigia uma leitura sob a ótica feminina. Assim, pela primeira vez nos mais de 22 anos de existência do Cinema em Cena, meu texto será acompanhado pelo de outra pessoa: minha amiga - e escritora formidável - Alessandra Alves, que assina a coluna Brasil em Cena aqui no site.

Uma Novela que é Puro Cinema
por Alessandra Alves

História de um Casamento parece uma novela de Manoel Carlos produzida em Hollywood: personagens de elite branca com problemas de elite branca. Sem um grande vilão, os conflitos vêm das situações. Não quer dizer que os problemas não sejam duros, e uma das grandes virtudes do filme escrito e dirigido por Noah Baumbach é sua capacidade de provocar empatia.

Fortemente ancorado nos diálogos, História de um Casamento surge, de início, como um desafio. É quase tortuoso acompanhar tanta falação, cuja função claramente é apresentar personagens e seus dilemas. Mas Baumbach é também cuidadoso em pontuar esse falatório com signos visuais fortes: portas de armário deixadas abertas, cortes de cabelo, refeições sendo preparadas. O que parece mero cenário, nesse início turbulento, sutilmente ganha significados diferentes em outros momentos, nos quais os sentimentos dos personagens também são outros.

Baumbach também se mostra um craque nos enquadramentos que escolhe para situações bem específicas da história. O tom confessional de determinada cena de Scarlett Johansson (Nicole), com a câmera fechada em seu rosto, chega a lembrar uma estética típica de Jean-Luc Godard, como em A Chinesa. E é admirável como Baumbach desconstrói a ideia de intimidade/verdade do que estava sendo dito ao incluir a fala de uma personagem, até então ausente na cena, e cortar para um enquadramento totalmente diferente, descortinando a farsa montada pela advogada Nora (Laura Dern).

Dern, por sinal, é favorita em todas as sondagens para levar o Oscar de Atriz Coadjuvante. Na cerimônia, devem exibir um monólogo em que ela compara as mães à figura da Virgem Maria. Mas Dern faz muito mais que isso no filme. Sua altivez (realçada pelo figurino, com roupas sempre justas e saltos altíssimos, e pelo enquadramento - de novo! - que a coloca invariavelmente como uma espécie de gigante) encurralam Charlie (Adam Driver), e seu(s) advogado(s).

Uma cena, em particular, materializa a habilidade de Nora em aniquilar seus oponentes, quando o advogado “bonzinho” (Alan Alda) e Charlie estão deliberando em uma pequena sala do escritório da advogada, depois de serem informados de ações tomadas pela cliente, orientada por Nora. Mostrando Alda e Driver espremidos entre duas paredes, o enquadramento escolhido por Baumbach quase dispensa palavras: aquela mulher os deixou em um beco sem saída. E, ainda que retratados como dois autênticos perdedores, presas inquestionáveis nas mãos daquela mulher monumental, mesmo assim é possível continuar sentindo compaixão por eles e admiração por ela. Nas mãos de um realizador mais maniqueísta, seria fácil simplesmente bater na testa de Nora o carimbo de megera.

Se Laura Dern entrega uma personagem invariavelmente altiva, Driver percorre um caminho muito mais dúbio com seu Charlie. Intelectual, gênio criativo, pai exemplar, ele paulatinamente deixa escapar sua natureza mesquinha, egoísta e, por que não dizer, machista. E o faz de forma impecável, mostrando que nem vilão, nem herói, Charlie é apenas humano. Caminho quase oposto da Nicole de Johansson, que parte do papel de esposa insatisfeita, traindo certa frivolidade, para assumir a posição de mulher e artista embotada em seus anseios e talentos, crescendo e amadurecendo como alguém que, finalmente, parece disposta a conduzir a própria vida. Ter se apoiado em uma mulher acintosamente forte como Nora talvez revele, neste caso, menos uma continuidade de dependência e mais uma fonte de inspiração para os tempos que ela planeja.

A grande cena de confronto entre Driver e Johansson vem apoiada em um diálogo que começa sob o signo da boa intenção e civilidade, atinge seu ápice com violência verbal e sentimentos terríveis, e termina com uma imagem que, de forma icônica, sinaliza por onde passará a solução do conflito. Por melhor que fosse o diálogo e o movimento de câmeras que o diretor/roteirista tivesse criado para esse ápice, só dois atores gigantes alcançariam o que Driver e Johansson atingiram ali.

Um único senão fica para a penúltima sequência, que acontece no quarto do filho casal, com Charlie e o pequeno Henry. Ainda que seja uma solução de roteiro justificável, amarrando o fim com o começo, a intensa fragilização do personagem de Driver soa como uma escolha de lado. Como se, no fim daquela jornada que afinal não poderia ter vencedores e perdedores, ainda assim a história elegesse sua maior vítima.

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário13 de fev. de 2020

Achei muito rica a crítica de Alessandra Alves! A medida que o roteiro apontava o caminho judicial para a separação e a situação se tornou fra e agressiva com a condução dos advogados, me senti cada vez mais angustiada. Era realmente como se Charlie e Nicole estivessem se machucando mutuamente movidos por ressentimento e vingança. E isso partiu meu coração hahaha. Mesmo Nicole sendo colocada no papel (a princípio) simplista de esposa insatisfeita, acredito que ao longo do filme Scarlet Johansson tornou essas motivações mais humanas. Nicole, a meu ver, se tornou uma mulher que se anulava diante das vontades do marido, impostas sutilmente pelo machismo dele. Até que o casal começa a se distanciar, se separa, e Nicole decide realizar esses desejos, ainda que acompanhada de um emaranhado de dores, afetos, raivas e frustrações. Ainda assim, o longa de fato parece escolher os conflitos de Charlie para representar com mais sensibilidade.

User
Usuário2 de fev. de 2020

Concordo com a crítica da Alessandra Alves, mas discordo de grande parte da análise do Pablo. Não acho que o roteiro tenha escolhido definitivamente o Charlie como o protagonista da história. Acho que o grande trunfo do filme, no fim das contas, foi ter conseguido um certo equilíbrio ao retratar os dois lados do conflito. "Certo equilíbrio", digo, pq acho que, em certos aspectos, o roteiro privilegia mais a Nicole do que o Charlie. Pra começar ela é a que mais sofria com a degeneração da relação, já que ela era se sentia subjugada pela figura do marido, tido como genial, enquanto ela uma atriz que, mesmo que reconhecidamente talentosa, parece ter perdido o timing da carreira e vive à sombra daquele. E o roteiro por diversas vezes faz questão de confirmar o drama vivido pela Nicole, como na cena em que as partes negociam um acordo no escritório da advogada vivida pela Laura Dern e esta passa a elogiar eloquentemente a genialidade do Charlie. A própria relação do Charlie com a família da Nicole serve como meio pra confirmar o drama vivido por esta e meio que dando "razão" em sua decisão de se divorciar e mudar de cidade. No fim das contas, se o filme "tomou partido", acho que é maior a chance de que tenha sido pela Nicole, já que o roteiro se esforça pra confirmar todas as acusações formuladas por ela contra o ex-marido como justificativa pro divórcio (traição, certo postura de superioridade com relação a ela), o que acaba induzindo o público a dar razão a ela em todas as decisões q ela toma no decorrer da história. Enquanto via o filme, eu acabei criando mais simpatia pela personagem da Nicole, mas analisando friamente, creio que fui induzido a isso pelo roteiro, já que os dramas que ela vive parecem ter sido todos causados pelo Charlie. Quanto aos dramas do Charlie, parecem todos resultado da própria maneira egoísta como ele administrou sua relação com a Nicole.

User
Usuário30 de jan. de 2020

Eu não dei nota alguma mas apareceu aqui uma mensagem de que eu já tinha dado uma nota. O que houve?

User
Usuário30 de jan. de 2020

*Spoiler alert* Ambas as críticas muito boas! Legal ver a opinião feminina em um filme que, mesmo aparentando querer mostrar ambos os lados da história, acaba aos pouquinhos vitimizando o marido. Mas a cena onde o personagem de Driver lê a lista de qualidades dele escrita pela de Johansson me soa como uma grande "redenção" da personagem. Para mim é ali que a faca entra fundo, mostrando que não existe lado. Só existe cada um fazendo o que acha melhor para a própria vida e para o filho, e que a gente tem que sempre encontrar um meio termo. A vida é feita de meio termos.