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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/02/2020 13/12/2019 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Disney

Uma Vida Oculta
A Hidden Life

Dirigido e roteirizado por Terrence Malick. Com: August Diehl, Valerie Pachner, Maria Simon, Karin Neuhäuser, Tobias Moretti, Ulrich Matthes, Matthias Schoenaerts, Franz Rogowski, Karl Markovics, Michael Nyqvist e Bruno Ganz.

Franz Jägerstätter morreu por não aceitar matar. Fazendeiro que levava uma vida pacata com a esposa em um vilarejo na Áustria, ele se opôs quase que de imediato aos comandos nazistas em seu país, recusando o posto de prefeito que lhe foi oferecido por estes e se negando a lutar pelo exército de Hitler ou a aceitar qualquer posição que exigisse um juramento de lealdade a este. Por sua determinação, foi julgado e condenado à morte, sendo esquecido pela História por algumas décadas até ter seu martírio descoberto por um sociólogo norte-americano e transformado em livro – e, agora, em filme.

Se você gritou “spoiler!” ao ler o parágrafo acima, provavelmente não conhece o Cinema do diretor do longa, Terrence Malick, cujas narrativas são à prova destes, já que o que importa é menos o que acontece e mais as reflexões que inspira. E o que vemos aqui é a imagem de um homem que, ciente de estar prestes a morrer, exibe um tremor de medo que paradoxalmente revela sua inabalável coragem e firmeza de caráter - pois só alguém firme em suas convicções não as renega diante do pânico.

Abandonando na maior parte do tempo a estrutura ensaística de seus filmes mais recentes – em especial de A Árvore da Vida para frente -, Malick aqui constrói o longa em torno de uma história com definições mais claras, saltando entre Franz (Diehl) e sua esposa Franziska (Pachner) enquanto aquele é conduzido de um cárcere a outro até o julgamento e esta é vítima do desprezo dos demais habitantes de seu vilarejo, que a condenam por julgarem a recusa do marido um ato de covardia e traição. Como fio condutor, o roteiro do próprio cineasta emprega as cartas trocadas pelo casal ao longo dos meses e que são lidas em tons sussurrados e melancólicos pelos atores – uma marca registrada de seu Cinema.

Esteticamente, aliás, Uma Vida Oculta segue a linha autoral do realizador com fidelidade, trazendo passagens nas quais a câmera enfoca as mãos de Franz e Franziska cavando a terra e plantando batatas em planos-detalhe fechadíssimos e outras nas quais a steadicam operada por Jörg Widmer – um dos melhores em sua área – segue de perto as filhas do protagonista enquanto correm por douradíssimas plantações de trigo e revela o cotidiano paradisíaco do vilarejo em que moram. Sempre em movimento, a câmera de Widmer (também diretor de fotografia) rivaliza com aquela dos projetos de Tom Hooper no que diz respeito ao uso de grandes angulares – com a importante diferença que Widmer sabe por que e como empregá-las, utilizando-as para expandir os cenários em torno do protagonista, diminuindo-o, e para ressaltar a atmosfera angustiante que marca sua situação (e notem como o martelo do juiz vivido por Bruno Ganz parece gigantesco em sua mão ou como a mesa entre Franz e a esposa durante uma visita na prisão surge imensa, deixando-os ainda mais separados).

Este tom opressivo, como não poderia deixar de ser, espelha com perfeição a sensação experimentada por Franz de que o mundo parece ter enlouquecido ao seu redor, já que as pessoas demonstram uma triste incapacidade de reconhecer o horror do que apoiam e a monstruosidade patente do líder que o advoga. Ao mesmo tempo, a música de James Newton Howard é de constante lamento, ao passo que a montagem de Rehman Nizar Ali, Joe Gleason e Sebastian Jones desaceleram o tempo até o limite, surpreendendo com frequência o espectador ao revelar como o que julgamos serem anos não passam de poucos meses, refletindo a tortura de uma situação sem esperança.

Não que isto atire o casal no desespero completo, já que, embora cientes da gravidade das circunstâncias, encontram apoio um no outro e em sua Fé – e, não à toa, suas vozes em off revelam não apenas o conteúdo de suas cartas, mas suas conversas particulares com Deus e a convicção de que este os responderá.

E é claro que esta resposta nunca vem.

Comprovando mais uma vez a habilidade de Terrence Malick para criar um Cinema de sensações, Uma Vida Oculta é uma obra que praticamente nos faz sentir o vento que move as plantações, o calor de um dia árduo de trabalho, o frio de um inverno rigoroso, o cheiro da grama molhada e os sentimentos de paz, tranquilidade, alegria, desesperança, angústia e desilusão experimentados pelos personagens – inspirando, consequentemente, uma admiração ainda maior pela integridade de Franz Jäggerstätter.

É melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la”, diz alguém em certo momento da projeção ao buscar explicar por que um simples fazendeiro se mostra disposto a perder tudo por suas convicções. É um princípio simples, mas que define a distância entre os indivíduos que se colocam acima dos demais e aqueles que entendem como nada compensa a perda da própria humanidade.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019.

19 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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