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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/12/2021 16/12/2021 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Disney
Duração do filme
148 minuto(s)

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Spider-Man: No Way Home

Dirigido por Jon Watts. Roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers. Com: Tom Holland, Zendaya, Benedict Cumberbatch, Jacob Batalon, Jon Favreau, Marisa Tomei, Benedict Wong, Tony Revolori, Alfred Molina, Willem Dafoe, Jamie Foxx, Charlie Cox, Thomas Haden Church, Tobey Maguire, Andrew Garfield, Hannibal Buress, Martin Starr, J.B. Smoove, Angourie Rice, Arian Moayed, Rhys Ifans e J.K. Simmons.

Façamos uma experiência: feche os olhos, pense nas versões de O Homem-Aranha para o cinema e analise as primeiras imagens que lhe ocorreram. Sou capaz de apostar como estas possivelmente envolvem a sequência no metrô em O Homem-Aranha 2, o beijo de cabeça para baixo no primeiro filme da (primeira) série ou até mesmo algum momento do pavoroso O Homem-Aranha 3, como o uniforme preto ou (argh) Peter Parker dançando na rua (por algum motivo, também lembro da cena em que o personagem tem uma conversa divertida e desconfortável num elevador no segundo filme). Não duvido que até o plano em que Gwen Stacy (Emma Stone) ricocheteia no chão, em O Espetacular Homem-Aranha 2, tenha pipocado na lembrança de alguns.


Pois mesmo depois de três filmes protagonizados por Tom Holland e comandados pelo mesmo realizador, tive que buscar o nome do diretor antes de começar a escrever este texto, já que a informação havia me escapado completamente. (Sam Raimi e Marc Webb comandaram os longas das duas séries que antecederam esta trilogia.)

Este, claro, é um problema notório do Universo Estendido da Marvel: interessado em manter uma conexão forte entre todos os filmes produzidos em suas diversas “fases”, o estúdio não pode se dar ao luxo de permitir qualquer traço de autoralidade nos projetos individuais, já que isto removeria dos executivos o controle sobre o tom geral da empreitada. Aqui e ali, temos pontos fora da curva (como os dois Guardiões da Galáxia ou Thor: Ragnarok), mas, de modo geral, até estas escapadas têm seus limites criativos. Assim, depois de quase trinta capítulos (episódios?), o fato é que o grande nome resultante do projeto pertence não a um cineasta, mas ao produtor Kevin Feige, que, não à toa, passou a ser idolatrado pelos fãs do MCU (Marvel Cinematic Universe). Por outro lado, os filmes em si se misturam na memória de qualquer um que não seja obcecado pelos Vingadores – e ainda que eu tenha escrito críticas positivas para boa parte destas obras, admito que teria dificuldades imensas para distinguir, depois de algum tempo, o que acontece em cada uma delas.

No caso do Homem-Aranha, a ironia é que Tom Holland é, em vários aspectos, um Peter Parker bem mais adequado que Tobey Maguire e Andrew Garfield, já que, além da aparência adolescente, traz ao personagem uma inocência e uma impulsividade que soam não como falta de bom senso, mas ingenuidade e a imaturidade próprias da idade – e talvez esta seja a razão para que os dois longas anteriores tenham forçado o super-herói a dividir a tela com duas figuras paternas que ocuparam parte importante das narrativas: Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Mysterio (Jake Gyllenhaal). Neste sentido, Sem Volta para Casa (uma tradução que não faz qualquer sentido) oferece a Holland a oportunidade mais próxima de um filme solo, já que, apesar das presenças de duzentos outros personagens importantes, incluindo o Doutor Estranho (Cumberbatch), MJ (Zendaya) e Ned (Batalon), Peter Parker aqui é finalmente forçado a lidar sozinho com crises importantes.

Bom… dependendo da sua definição de “sozinho”.

(E é aqui que devo sugerir que os spoilerfóbicos interrompam a leitura até terem visto Sem Volta para Casa, já que considero impossível discuti-lo sem tocar em pontos relevantes da trama. Vou repetir em negrito, itálico e sublinhado para evitar problemas: spoilers.)

Escrito por Chris McKenna e Erik Sommers, o 27º. capítulo do MCU retoma a história exatamente do ponto deixado por Longe de Casa: com sua identidade revelada para o mundo, Peter Parker tem seu cotidiano mergulhado em caos, o que afeta também sua namorada MJ, seu melhor amigo Ned e sua tia May (Tomei). Sentindo-se culpado, ele solicita a ajuda do Doutor Estranho, que se propõe a usar seus poderes para apagar a informação da memória de todos os habitantes do planeta, o que acaba dando errado quando, em vez disso, a magia traz para este universo todos que conheciam o segredo em outras realidades, o que inclui o Duende Verde (Dafoe), o Doutor Octopus (Molina), o Lagarto (Ifans), o Homem-Areia (Haden Church) e Electro (Foxx) – embora este último tenha sido incluído mais pelo peso de Jamie Foxx, já que seu vilão não sabia que Parker estava sob a máscara (ou estou enganado?). Já Harry Osborn, coitado, provavelmente ficou de fora… por culpa de seu intérprete, James Franco, e das acusações de abuso sexual feitas contra este.

O problema é que, embora a premissa em si traga um potencial narrativo e dramático considerável, o roteiro de McKenna e Sommers sente a necessidade de sacrificá-lo com frequência em prol de piadas bobas e, mais irritante, de um fan service óbvio: e a cada easter egg ou entrada em cena de um personagem antigo, a montagem de Leigh Folsom Boyd e Jeffrey Ford se certifica de incluir pausas estratégicas para que os fãs possam aplaudir enlouquecidamente nos cinemas (o próximo passo será inserir nos filmes um letreiro escrito “APLAUSOS” de tempos em tempos). O que Kevin Feige parece não perceber (ou não ligar) é que estas intromissões podem até provocar delírios instantâneos na plateia, mas fragilizam os longas individualmente, já que estes têm cada vez menos chance de se estabelecerem por méritos próprios em vez de serem encarados como meras peças em um imenso maquinário de gerar dinheiro.

Talvez por isto eu tenha tanta dificuldade em memorizar o nome de (checando anotações) Jon Watts, diretor desta mais recente trilogia, que é mais operário da Marvel do que cineasta, já que depois de assistir a seis horas e cinquenta minutos de seus filmes não consigo identificar um único exemplo de algo que possa representar sua visão particular como artista. Ao contrário: as sequências de ação são desinteressantes e confusas, os bonecos digitais que substituem os atores continuam a escancarar a fronteira entre live action e animação, e mesmo com super-heróis atirando teias, fazendo acrobacias e enfrentando vilões com tentáculos, poderes de manipular eletricidade e aparências monstruosas, é incrível que praticamente não haja indícios no projeto de… imaginação. (Sério, quantas vezes mais teremos um clímax em que luzes/raios/rasgos roxos atravessarão os céus de grandes metrópoles em perigo?).

Dito isso, poucos momentos no Universo Estendido da Marvel evocam ameaça e insanidade como aquele em que o vilão de Willem Dafoe reage a vários socos poderosos do Homem-Aranha com um sorriso de prazer e um olhar que transbordam crueldade. Dafoe, diga-se de passagem, cria aqui a versão mais maligna de seu Duende Verde e a mais vulnerável de Norman Osborn, numa performance que por si só valeria todo o filme, mas que é complementada por outra igualmente multifacetada de Alfred Molina, que, com uma sutil alteração na expressão e no tom de voz, consegue diferenciar com perfeição o Doutor Octopus e seu alter ego Otto Octavius. E se Jamie Foxx fica preso a uma composição mais limitada pelo roteiro, ao menos tem algo a fazer, já que as participações de Thomas Haden Church e Rhys Ifans poderiam perfeitamente ter dispensado os atores e usado apenas trechos de suas performances anteriores. Enquanto isso, J.K. Simmons volta à energia (eficientemente) cartunesca de J.J. Jameson, que se torna uma versão um pouco menos absurda do repugnante Alex Jones, ao passo que Zendaya e Jacob Batalon se comportam menos como seres humanos do que como dispositivos de distribuição de piadinhas e atalhos para o roteiro, já que em momento algum parecem reagir com temor real (ou surpresa) às ameaças catastróficas da trama.

Mas o melhor elemento de Sem Volta para Casa (este título…) é indiscutivelmente a interação entre as três gerações do herói vividas por Maguire, Garfield e Holland. Ilustrando com talento as diferenças entre as composições de cada ator, estas cenas aproveitam o que cada um trouxe de melhor para o personagem (a natureza doce e emotiva da versão de Maguire, o bom-humor e a prolixidade de Garfield e a juventude, impulsividade e inocência de Holland), criando interações calorosas e divertidas que encontram tempo até mesmo para tentar fazer justiça ao segundo, que enfrentou as críticas mais pesadas dos fãs (“Você é espetacular!”, afirmam os outros dois quando o companheiro se identifica como o menos interessante do grupo). Aliás, dos três momentos realmente tocantes do filme, dois se devem ao trio: aquele em que trocam experiências de luto e – meu instante favorito de toda esta trilogia – aquele em que a versão de Garfield se emociona visivelmente depois de realizar uma ação particular e que traz, em si, pathos suficiente para sustentar dez longas-metragens. (E, sim, é claro que é um problema que a cena mais forte da trilogia de Holland seja centrada em outro Homem-Aranha.)

Infelizmente, até neste aspecto a direção de Watts é problemática, já que sua insistência em filmar cada ator em quadros individuais na maior parte do tempo cria a impressão de que os três atores tiveram suas participações rodadas separadamente. Para piorar, a obra se acovarda em seus minutos finais ao trazer um personagem sendo ferido apenas para, segundos depois, dizer que está tudo bem – o que ressalta como a Marvel se preocupa cada vez mais com o efeito instantâneo, passageiro, e não com a coesão dramática do todo, usando cada filme como uma mera propaganda do próximo.

Que, por sinal, trará o Doutor Estranho e será dirigido por Sam Raimi – e se este conseguir emplacar ao menos uma cena com a insanidade do ataque do Doutor Octopus na sala de cirurgia em O Homem-Aranha 2, já será um imenso e bem-vindo avanço em uma empreitada multibilionária que insiste em contratar indivíduos talentosos apenas para forçá-los a colorir dentro de linhas há muito pré-estabelecidas por seus burocráticos patrões.

24 de Dezembro de 2021

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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